Argélia, a conversão de uma Igreja. Artigo de Andrea Riccardi

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20 Mai 2016

A "partilha" é um grande tema da espiritualidade de Charles de Foucauld. Mas, significativamente, à partilha, ainda em 1983, Christian de Chergé acrescentou a misericórdia e a reconciliação em uma sociedade como a argelina, traumatizada por uma longa guerra civil, mas marcada também por um forte crescimento demográfico.

A opinião é do historiador italiano Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e ex-ministro italiano, em artigo publicado no jornal Avvenire, 18-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

As homilias do padre Christian de Chergé são valiosas. Abrangem um longo período, que vai de abril de 1980, a poucos meses da sua morte, até maio de 1996. Ou, melhor, se deveria dizer do seu martírio.

De fato, as homilias são os textos espirituais de um homem que, de algum modo, opta por permanecer em uma situação cada vez mais ameaçadora. De Chergé estava na Argélia desde 1971, no mosteiro de Notre-Dame de l'Atlas, em Tibhirine, aonde tinha chegado quando ainda não tinham passado os dez anos da independência do país, depois de uma guerra de libertação muito dolorosa e do êxodo de grande parte da comunidade católica argelina.

A grande pergunta que, depois de 1962, ano da independência, os religiosos e os cristãos argelinos se fizeram, era saber se deviam ficar ou não.

Eles compartilhariam a nova história do país, como uma pequena minoria. A comunidade de Notre-Dame de l'Atlas tinha escolhido participar, em uma perspectiva monástica, da reconstrução da Igreja Católica da Argélia em um mundo que se tornara totalmente islâmico. Ela tinha feito isso em uma proximidade particular com o arcebispo de Argel, o cardeal Léon Etienne Duval (foto), que tinha se afeiçoado profundamente pelos monges (de fato, a notícia do seu sequestro foi um golpe muito duro para o cardeal, que chegou ao fim dos seus dias).

Duval, arcebispo de Argel nos tempos da Argélia francesa, com um perfil que lhe valeu injustamente a hostilidade de muitos dos seus diocesanos, que o chamavam de Mohammed Duval, tinha dessolidarizado a Igreja Católica do regime francês e da vontade dos próprios católicos de manter o governo da França no país norte-africano.

Desde sempre, ele tinha acreditado na autodeterminação dos povos e no respeito da vontade da maioria dos argelinos pela independência. Duval tinha sonhado, junto com outros católicos, que a Argélia poderia ser uma terra de convivência entre a maioria muçulmana, os judeus e os cristãos.

Nos últimos anos da sua vida, ele sentia a amargura do fracasso, mas continuava acreditando que se devia tentar viver juntos. O cardeal Duval relançou, na Argélia independente, uma Igreja pobre e humilde, muito diminuída em estruturas e funções, mas que sentia que tinha uma missão de fé, de amor e de oração na sociedade muçulmana.

O mosteiro de Tibhirine era parte integrante e importante desse novo perfil da Igreja Católica em terra islâmica. O cardeal apoiou os monges e se preocupou muito com a sua presença, como – alias – se preocupava muito com as clarissas de Bologhine, perto de Notre-Dame d'Afrique, em Argel, onde ele mesmo residia.

Christian de Chergé foi partícipe da escolha dos cristãos argelinos, poucos e quase todos de origem estrangeira: ficar no país, viver com os muçulmanos e não ir embora, apesar de a Argélia dos anos 1970, país islâmico e socialista, não ser mais aquela que a Igreja conheceu nas longas décadas da Argélia francesa.

A retórica das memórias cristãs do antigo Norte da África, muitas vezes, serviu para justificar a dominação francesa. Mas a Igreja, depois de 1962, era pobre em toda proteção. Restava o grande prestígio do cardeal Duval junto aos argelinos, que protegia a Igreja da acusação de ter sido parte integrante do sistema colonial.

Os monges de Tibhirine sentiam que tinham uma vocação particular própria dentro da Igreja Católica argelina: a da oração na terra do Islã e do diálogo com os muçulmanos. Eram os únicos monges em todo o país e traziam a responsabilidade de uma colocação tão particular, conscientes de que o mundo muçulmano, tradicionalmente, tem uma relação de respeito para com os monges.

Em Tibhirine, investiu-se muito nas relações humanas e na hospitalidade. Aqui não é o caso de recordar os laços espirituais e de amizade que o mosteiro estabeleceu com os muçulmanos de Medea e dos arredores, sob a insígnia do diálogo. Para os monges, de época em época, se renovava a opção por ficar. Eram todos não argelinos, portanto, estrangeiros (não tinham a cidadania argelina, como o cardeal Duval), mas sentiam, cada vez mais, que a Argélia era a sua pátria.

Na homilia do dia 8 de agosto de 1983, De Chergé cita o monge de Taizé Max Thurian: "Silêncio, oração, partilha. Partilha: talvez esse seja o sentido da missão na Argélia? Reconciliação e misericórdia".

A "partilha" é um grande tema da espiritualidade de Charles de Foucauld, que encontrou a sua origem justamente no deserto argelino e aqui renasceu com a petit soeur Magdeleine e o padre Voillaume. Mas, significativamente, à partilha, ainda em 1983, De Chergé acrescentou a misericórdia e a reconciliação em uma sociedade como a argelina, traumatizada por uma longa guerra civil, mas marcada também por um forte crescimento demográfico.

A Argélia tem feridas históricas, mas também uma grande fome de futuro, a dos seus muitos jovens. Christian, justamente um dia depois da homilia citada, seguindo o fio que provavelmente animava as reflexões da comunidade, continuou meditando sobre o sentido da presença cristã e monástica na Argélia.

Aqui, o seu discurso se faz muito claro: "Criar pontes e destruir barreiras; preparar algo novo e acreditar que é possível (…) consentir com o fato de que a nossa presença tem sentido e valor de reconciliação; perceber a via da reconciliação em relação ao Islã".

Nada de forçado ou de imperialista, mas um humilde serviço monástico, que quer "preparar algo novo" em nome da reconciliação com todos, mas, particularmente, com o mundo muçulmano.

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