A penitência no diálogo ecumênico. Artigo de Andrea Grillo

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09 Mai 2016

De 4 a 6 de maio ocorreu no Pontifício Ateneu S. Anselmo, em Roma, um Congresso Internacional Católico-Luterano sobre o tema "Sinais de perdão, caminhos de conversão, práxis de penitência. Uma Reforma que interpela a todos", às vésperas do 500º aniversário da Reforma Protestante.

Publicamos aqui o início e o fim da palestra do teólogo italiano Andrea Grillo, proferida no dia 5, junto com o professor Volker Leppin, de Tübingen, com o mesmo título

Grillo é professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua.

O artigo foi publicado no seu blog Come Se Non, 06-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Perdão, conversão, penitência nas duas Igrejas: teologia, práxis, disciplinas

"Poenitere dicitur dupliciter: scilicet secundum actum et secundum habitum. Actu quidem impossibile est quod homo continue poeniteat: quia necesse est quod actus poenitentis, sive interior sive exterior, interpoletur, ad minus somno et aliis quae ad necessitatem corporis pertinent"
(São Tomás, S. Th. III, 84, 9, corpus)

"Poenitentia in nobis dupliciter accipitur. Uno modo secundum quod est passio…Alio modo accipitur secundum quod est virtus"
(S. Th. Suppl, 16, 3, c)

"Duo sunt consideranda: primo, de poenitentia secundum quod est sacramentum; secundum de poenitentia secundum quod est virtus"
(S.Th. III, 84)

"Agere sequitur esse, sed esse sequitur pati"
Martinho Lutero

Permitam-me iniciar justamente a partir deste lugar onde estamos reunidos, ou seja, o Ateneu S. Anselmo e a sua tradição "sapiencial", "positiva" e "ecumênica". A teologia anselmiana, ao menos há um século – ou seja, desde que iniciou aquela linha de estudo que foi inaugurada por Anselm Stolz e continuada por C. Vagaggini, M. Loehrer, B. Studer, Gh. Lafont, E. Salmann etc. – distingue-se por uma abordagem da tradição católica em que a sabedoria monástica sustenta e corrige a abstração escolástica, a autoridade do dado histórico e filológico tempera o autoritarismo dogmático e sistemático, o debate com a "história comum" atenua a contraposição entre "histórias alternativas" e incompatíveis.

A traditio anselmiana nunca se vergonhou ou se ressentiu das celebrações dos irmãos evangélicos. E não o fez por diplomacia, mas por responsabilidade. Ela amadureceu uma tão grande "sabedoria festiva" a ponto de nunca permitir que se deixasse o juízo final simplesmente a algum pequeno "cânone de condenação". E ela também vive este aniversário dos 500 anos de 1517 não tanto com a ansiedade da afirmação – e da confirmação – de uma diversidade e de uma distância, mas como a oportunidade para a redescoberta de uma proximidade, de uma correspondência, de uma possível comunhão, para além dos conflitos e para além das diferenças, que não quer, de fato, nem negar nem apagar simplisticamente, mas que deseja repensar em uma lógica autenticamente relacional.

Saber tirar os próprios calçados diante da "santidade do outro", hoje, se tornou não só uma possibilidade, mas uma urgente tarefa eclesial. Mesmo que ponha em agitação aqueles que querem manter em ordem o pequeno mundo antigo da própria escrivaninha ou do próprio arquivo. Gostaria aqui de utilizar uma expressão que encontramos na Evangelii gaudium e é retomada pela Amoris laetitia:

"Jesus espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem nos manter à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contato com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente" (Francisco, Amoris laetitia, 30)

A "maravilhosa complicação" da vida, determinada pela misericórdia de Deus, acima de tudo, tem a exigência de uma "renúncia": renúncia a refúgios pessoais e comunitários, que impedem de escutar e de curar as feridas. A "ferida à comunhão" – que todos vivemos há 500 anos – também precisa de uma "renúncia a refúgios", ou seja, a formas de fuga, de indiferença, de ressentimento e de fechamento preconceituoso.

Por isso, não é por acaso que a iniciativa desse "trabalho comum" – que se situa em continuidade com outros episódios históricos de diálogo estrutural entre teólogos católicos e teólogos evangélicos – nasce justamente aqui, no Monte Aventino. Esta colina, que entrou na história política – desde a Roma antiga – como "lugar de resistência" e de "isolamento", de "interrupção de relação" e de "não colaboração", em vez disso, na história teológica do último século, indica a direção oposta: o Aventino é diálogo interessado, colaboração serena, superação da desconfiança, relançamento clarividente e partilha convicta e convincente.

Isso se tornou, para a teologia de S. Anselmo, o pão de cada dia, que também marcou um "estilo didático" particular, especialmente se considerado "topologicamente", ou seja, se observado justamente aqui, justamente em Roma: pensemos no fato de que teólogos "valdenses", há mais de 50 anos, ensinam regularmente em cursos institucionais dentro da faculdade teológica. Essa é uma grande tradição, que honra o Monte Aventino, no qual estamos hoje aqui reunidos.

E, em certos momentos – diferentes destes dos nossos de hoje –, parecia que quem "subia ao Aventino", em termos de ecumenismo, eram todos os outros, mas não aqueles que estavam no Aventino – mesmo que de passagem – há mais de um século! Quem está no Aventino "nunca sobe ao Aventino"! Não só no plano ecumênico, mas também no plano patrístico, litúrgico, sistemático, moral, histórico, filológico.

Mas cheguemos ao nosso tema. O título desta "palestra comum" retoma, em outros termos, o título geral do nosso simpósio: "Sinais de perdão – Caminhos de conversão – Práxis de penitência. Uma Reforma que interpela a todos".

O título específico tenta trazer ao primeiro plano três termos-chave da "experiência de misericórdia" que as Igrejas individuais elaboraram, a partir da base comum, de acordo com estilos diferentes e com diferentes prioridades.

As três palavras-chave são, portanto: perdão, conversão, penitência. Poderíamos entendê-las, ao menos em primeira instância, como a "correlação" entre dom de Deus, resposta do homem e disciplina eclesial que coloca a relação (e a mediação) entre o primeiro e a segunda.

Na experiência cristã "comum", seguramente há um ato de perdão por parte de Deus em Cristo e no dom do Espírito Santo, que o sujeito "recebe". O perdão de Deus torna justa o pecador, e o pecador, por sua parte, recebe esse perdão, assume-o.

De que modo podemos entender não simplesmente a "justificação" do pecador, mas a disciplina eclesial que deriva dessa comum – embora diferenciada – concepção? Aqui está o ponto de diferença nas práxis, assim como nas teorias, que devemos aprofundar acuradamente.

[…]

Mas não é óbvio que – com humildade e com parrésia – esse debate não possa representar uma contribuição substancial ao caminho cristão comum de reconhecimento da convergência misteriosa da ação justificante de Deus e da resposta santificante do homem. Uma grande reflexão comum sobre a "natureza da doutrina", que já tem no debate entre A. Dulles e G. Lindbeck [1] o seu ilustre precedente pode nos permitir sair dos baixios tanto de uma redução "proposicional", quanto de uma redução "experiencial" da doutrina. Ler o "fazer penitência" como dinâmica de resposta ao único perdão batismal seria, neste caso, uma solicitação – útil para ambas as confissões – a caminhar rumo a uma teologia "pós-liberal". Talvez não seja difícil dirigir-se a tal horizonte hoje no campo de uma visão doutrinal católica, quando esta não quer, acima de tudo, preparar "refúgios" da realidade, em vez de exposições à realidade, fórmulas autorreferenciais de tranquilização em vez de "saídas arriscadas" nos mundos da vida, simplicismos tautológicos óbvios em vez de maravilhosas complicações.

Para a "maravilhosa complicação" com que a graça nos encontra, precisamos de "preciosas distinções", das quais a tradição é rica. Diante destas, as diferenças, embora grandes, entre confissões são coisa pequena: se nós fizermos memória de como a "penitência" – de acordo com Tomás – é irredutível ao "único sacramento", mas também se apresenta como "virtude"; é irredutível ao único "hábito", mas também se apresenta como "ato"; é irredutível à única "actio", mas também se apresenta como "passio"!

E como poderíamos esquecer de que justamente Lutero inaugurou uma nova consciência moderna, razão pela qual não só o princípio "agere sequitur esse", mas também a correção "esse sequitur pati", em que teologia e antropologia se entrelaçam e se envolvem de modo antiquíssimo e ao mesmo tempo novíssimo [2]?

Nesse profundo repensamento, podemos realmente nos ajudar reciprocamente, podemos nos escutar e aprender uns com os outros, porque as nossas diferenças continuam sendo uma grande reserva de riqueza: reconciliarmo-nos entre nós, sobre a reconciliação, não é tão difícil, mas não por uma analogia escondida abaixo das diferenças, mas sim justamente pela grande quantidade de diferenças de que toda a nossa tradição comum e diferente é rica.

Isso poderá ter o objetivo de fazer com que a comunhão permaneça sempre surpreendente, indomável, fugidia, transcendente e saiba atestar a "maior desigualdade" e a "maravilhosa complicação" do mistério da misericórdia, em relação a todas as nossas analogias, embora necessárias e felizes.

Notas:

1. Cf. George A. Lindbeck, La natura della dottrina. Religione e teologia in un’epoca postliberale. Turim 2004 (Originalausg.: The nature of doctrine. Religion and theology in a postliberal age. London 1984; dt. Übers.: Christliche Lehre als Grammatik des Glaubens. Religion und Theologie im postliberalen Zeitalter. Gütersloh 1994), e Avery Dulles, Modelli di Chiesa. Pádua 2004 (Studi religiosi) (ed. orig. Models oft he Church. Garden City, N.Y. 1974).

2. Cf. Ph. Stoellger, Passivitaet aus Passion. Zur Problemgeschichte einer ‘categoria non grata’, Tübingen, Mohr und Siebeck, 2010.

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