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26 Abril 2016

"Se você quiser fazer uma torta de maçã a partir do nada, primeiro você deve inventar o universo." O astrônomo Carl Sagan resumia, assim, a verdade última que o tinha levado a uma vida inteira reunindo fatos e elaborando teorias. Era necessária uma condição fundamental para que as coisas cotidianas pudessem ser como nós as conhecemos. O universo devia ser inventado para que a nossa vida fosse possível; não um universo qualquer, mas este, exatamente este, com as suas constantes básicas, com carbono, oxigênio e nitrogênio.

A reportagem é de Marco Ventura, publicada no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 28-02-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sem o universo, sem este universo, não haveria os seres humanos. E as maçãs. Para Sagan, a ciência é um modo de pensar, exercício contínuo de equilíbrio entre fatos e hipóteses: "A ciência nos exorta a aceitar os fatos", escrevia ainda o cientista estadunidense, "mesmo quando eles não se conciliam com os nossos preconceitos; ela nos aconselha a deixar espaço na nossa cabeça para hipóteses alternativas e a ver quais são aquelas que, com os fatos, têm uma correspondência melhor".

Em 1990, depois de dez anos de navegação, quando a sonda Voyager chegou a Saturno e começou a transmitir fotos do planeta, Sagan propôs que a câmera fosse girada e que se fotografasse a Terra a uma distância de cerca de seis bilhões de quilômetros. Houve resistências, mas a Nasa aceitou a proposta.

A foto do pontinho azul envolto na grande escuridão cósmica comoveu a humanidade. Aquela "distante imagem do nosso minúsculo mundo", como Sagan a definiu, colocou a Terra em perspectiva.

O torta de maçã e o "minúsculo mundo" de Sagan são um hino à ciência e à capacidade do cientista de descobrir, de raciocinar e de explicar. Para muitos, a ciência é tão eficaz a ponto de parecer a única resposta às perguntas profundas do ser humano; certamente, creem muitos, a ciência é a melhor alternativa a uma religião em nome da qual os seres humanos estão se massacrando.

Para um professor da Oxford, Alister McGrath (foto), não é exatamente assim. Para McGrath, a torta de maçã e o "minúsculo mundo" de Sagan são um convite a amar a ciência, mas também a ir além dela, a rejeitar a contraposição entre ciência e fé.

À maravilha pelo universo e pela Terra, despertada pelo pensamento sobre a torta de maçã e pela imagem do pontinho azul, McGrath responde tomando a Bíblia nas mãos. Recita o Salmo: "Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que fixaste, o que é o homem para dele te lembrares, o filho do homem para que dele cuides?".

McGrath é cientista e teólogo. Ele é formado em química e em teologia e tem um doutorado em biofísica molecular em Oxford. No livro La grande domanda [A grande pergunta] (Bollati Boringhieri), o professor de Ciência e Religião convida a não nos resignamos com a narrativa dominante, em que ciência e fé se combatem, e a descobrirmos como as duas dimensões podem ser complementares.

A viagem do autor é, sobretudo, autobiográfica. Em várias ocasiões, McGrath recorda o seu ateísmo juvenil e a convicção com que se dedicou à ciência como único modo plausível de conhecer a realidade. A conversão ao cristianismo, lembra o autor, respondeu à necessidade de "uma narrativa mais rica, mais profunda em relação à oferecido pela ciência".

McGrath relata que se converteu com o mesmo espírito com que C. S. Lewis confessou a própria fé: "Eu acredito no cristianismo do mesmo modo em que acredito que o sol nasceu: não só porque o vejo, mas porque, através dele, posso ver todas as outras coisas".

Depois disso, o cientista se tornou teólogo, foi ordenado sacerdote na Igreja da Inglaterra e, hoje, é um apaixonado arauto da aliança entre ciência e religião. Muitas páginas do livro são dedicadas a refutar o imperialismo científico do neoateísmo encarnado por autores anglo-saxões como Dawkins, Dennett, Harris e Hitchens.

Ao contrário destes, que consideram a experiência religiosa como um perigoso autoengano, McGrath acredita que a ideia de Deus e até mesmo a necessidade de Deus "estão, em certo sentido, interconectados dentro da nossa arquitetura mental".

No rastro da ciência cognitiva da religião, o autor afirma que a fé em Deus e o próprio fenômeno da religião são naturais. O mesmo vale para a nossa propensão à ciência. Ela surge naturalmente. Por isso, como diz o subtítulo, "não podemos deixar de falar de ciência, fé e Deus". Estamos destinados a isso "assim como estamos destinados a comer e beber para sobreviver".

Portanto, deve ser superado o paradigma do conflito entre ciência e religião, em favor de um diálogo. Ambas, ciência e religião, podem cometer erros, ambas podem degenerar em fundamentalismos. De ambas devem ser compreendidos os limites e devem ser evitadas as invasões de campo.

McGrath propõe uma "narrativa de enriquecimento", para a qual a distinção entre as duas dimensões leva a entender e a praticar a sua compatibilidade. Agrada ao autor a humildade de Isaac Newton, o modelo do cientista consciente de que deve parar às margens de uma verdade maior: "Pareço ter sido apenas um menino brincando na praia", escreveu Newton, "e que encontra aqui e ali uma pedra mais lisa ou uma concha mais bonita do que de costume, enquanto o grande oceano da verdade jaz desconhecido à minha frente".

Se a ciência enriquece religião, fornecendo descobertas que convidam à maravilha diante da criação e à fé no Criador, de acordo com McGrath, a religião pode enriquecer a ciência de três modos: tranquilizando a pessoas de que "a realidade é um todo coerente", respondendo "ao que, no plano científico, não pode encontrar resposta" e evitando um olhar "excessivamente intelectual e racionalizante sobre a natureza".

Vários pontos do livro causam perplexidade. Os termos "religião" e "cristianismo" são muitas vezes usados como sinônimos. Na contraposição entre ateísmo e teísmo, ignoram-se as muitas faces híbridas da espiritualidade contemporânea. Critica-se a ambição da ciência de se fazer religião, mas, criacionismo à parte, não se critica a religião que se faz ciência, como na Cientologia.

A proposta central do livro, no entanto, acerta o alvo. A oposição entre ciência e religião pertence ao passado. O diálogo entre as duas é o futuro. O ponto de partida – têm razão Sagan, que cunhou a imagem, e McGrath, que a cita – é a torta de maçã.

"A existência aparentemente óbvia de maçãs e de humanos é, na realidade, um fato surpreendente", escreve McGrath. Acima de tudo, "você deve inventar o universo". Esse é o título original do livro, infelizmente sacrificado pela editora italiana, Inventing the Universe.

Recomecemos a dialogar ciência e religião a partir daqui. Para que pudéssemos preparar a nossa torta de maçã, o universo devia ser inventado. Ou criado?

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