O Papa e a família: a novidade inesperada

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26 Abril 2016

“‘Amoris laetitia’ inova em questões fundamentais e capta os ‘sinais dos tempos’”.

“Uma das coisas que mais se repetem nestes dias e em determinados ambientes eclesiásticos é que a recente Exortação Apostólica “Amoris laetitia”, do Papa Francisco, não traz nada de novo, quando comparada com a “Familiaris consortio”, de São João Paulo II. Depois de tanto Sínodo e de tanto dar voltas no tema, chegamos à mesma. Ao que sempre foi ensinado na Igreja. Isso é realmente assim?”, escreve José María Castillo, teólogo, em artigo publicado no seu blog Teología Sin Censura, 24-04-2016. A tradução é de Evlyn Louise Zilch.

Eis o artigo.

O escritor José Antula publicou um estudo detalhado, “A verdadeira novidade do Amoris laetitia”, no qual explica documentadamente a novidade que é o conteúdo da recente Exortação do Papa Francisco. Seguindo em frente digo que concordo plenamente com o que disse José Artrila em sua recente escrita. E valeria a pena que as mentalidades mais rígidas e espiritualistas se concentrassem no que ensina o Papa Francisco quando fala, por exemplo, do “amor erótico” (nº. 150) e do amor como “paixão” (nº 148). Coisas que, aliás, muitas vezes não são ouvidas na retórica clerical.

Mas, acima de tudo, o impressionante é a insistência do Papa sobre o tema do amor mútuo, “amor de amizade” que iguala e une os cônjuges – e não na doutrina da Igreja ou de suas leis – como argumento transversal, que recorre toda a recente Exortação papal do início ao fim.

Pois bem, dado o que acabo de indicar, parece-me importante que aprendamos (ou nos demos conta) da novidade que envolve toda a aproximação da família, se este assunto é pensado a partir de dimensões que lhe são inerentes. Por exemplo, a dimensão histórica ou quanto afeta à sociologia a instituição familiar.

Explico-me. Se prestarmos atenção ao que dizem os sociólogos atualmente mais valorados, logo entendemos que a família é uma das instituições que está experimentando mudanças tão rápidas e tão profundas, que, na mesma família – isso é frequente – os avós não entendem os novos hábitos dos filhos e, ainda menos, dos netos.

Muitas pessoas não pensaram que a família tradicional era acima de tudo uma unidade económica. De maneira que, durante séculos, o casamento não acontecia na base do amor sexual. Era assim que se entendia (e se vivia) este assunto desde as origens do direito romano. Todos os direitos e todo o poder estavam concentrados nas Pater familias (Peter G. Stein). E assim ficamos, em coisas muito fundamentais, até pouco tempo. Daí que a desigualdade era intrínseca à família tradicional.

Nos últimos anos, tudo isso saltou pelos ares. E restam três pontos capitais, que estão substituindo os velhos laços que costumavam unir as vidas privadas das pessoas; as relações sexuais e românticas, relações entre pais e filhos e amizade. Daí que o centro da instituição familiar mudou: da família como “unidade econômica”, ao que foi justamente chamado de “relação pura” (Anthony Giddens). Mas o que é, definitivamente, essa “relação pura”? “A relação que se baseia na comunicação, de modo que compreender o ponto de vista de uma outra pessoa é essencial”.

Agora, se tudo isso é assim, e creio que por aí vão as coisas, se agora voltamos a nossa atenção para a Exortação do Papa Francisco, não temos que nos esforçar muito para advertir que o papa, sendo fiel à tradição da Igreja, bateu no prego do que está acontecendo na instituição familiar. E também no prego da solução que o estado tem de coisas em que vivemos.

Dito mais claramente: a solução dos problemas da família não vai estar em afirmar verdades rotundas. Tampouco virá pela submissão a regras totalmente rígidas que se quer. Não. Em nada disso está o problema. E, por conseguinte, em nada disso está a solução. A família recuperará a sua estabilidade, o seu equilíbrio e sua razão de ser, na medida em que o amor de amizade, que, na linguagem secular, pode ser chamado de "relação pura", ocupe o centro que, durante séculos, ocupou o Pater familias, como proprietário e fiador da unidade econômica que, de fato, foi a instituição familiar.

O Papa Francisco, não só tem inovado em questões muito fundamentais, em relação a são João Paulo II, mas também tem captado os "sinais dos tempos" muito melhor do que imaginam aqueles que se empenham para que tudo fique na mesma.

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