Movimentos pró-vida e pró-bem-estar animal andam de mãos dadas

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15 Abril 2016

Há dois anos, uma família na Índia me acolhia carinhosamente para um jantar, e, quando chegou a hora do prato principal, o meu anfitrião desculpou-se de que não havia disponível a opção de carne.

“Somos vegetarianos, como consequência da nossa fé hindu”, explicou-me. Eu lhe garanti que isso não era problema algum, já que eu também sou vegetariano. Após uma breve pausa, ele respondeu: “Ah, é claro que você é. Você é pró-vida também”.

O depoimento é Christopher White, diretor da ONG Catholic Voices USA, publicado por Crux, 14-04-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Na época, o meu trabalho me levou a Nova Déli para pesquisar a indústria crescente de maternidade de aluguel no nível internacional, onde até recentemente a Índia era um dos principais destinos para os casais ocidentais que buscavam terceirizar suas gravidezes.

Durante vários dias antes deste jantar, o anfitrião passeou comigo pela cidade apresentando-me a vários ativistas que se opunham à prática em estudo. Embora a questão do aborto nunca fora levantada explicitamente, ele compartilhava da mesma sensibilidade que a comentadora de cultura Mary Eberstadt expressara alguns anos antes nas páginas da revista First Things: o movimento em prol do bem-estar animal e o ativismo pró-vida deveriam andar de mãos dadas.

Nos últimos anos, Eberstadt, juntamente com o ex-redator dos discursos do ex-presidente George W. Bush Matthew Scully, com a jornalista Kirsten Powers, e com os teólogos Charles Camosy e Andrew Linzey, além de um choro crescente formado por tantas outras pessoas, tem disso uma defensora destacada da ideia de que é da incumbência dos cristãos, em particular aqueles que defendem temas pró-vida, preocuparem-se com o tratamento dispensado aos animais, assim como oporem-se à crueldade e promover uma maior compaixão animal.

Ainda que haja discordâncias sobre até que ponto tais ações são moralmente obrigatórias, este movimento vem ganhando um novo líder no cenário internacional na figura do Papa Francisco.

No prefácio à antologia recém-lançada “Every Little Thing: How Pope Francis, Evangelicals and other Christian Leaders are Inspiring All of Us to Care for Animals”, Camosy escreve: “Alguns têm no Papa Francisco uma figura um tanto moderna e progressista, mas é errôneo pensar assim. O Santo Padre – produto de um país em desenvolvimento – reafirma radicalmente uma visão tradicional, pré-moderna: uma visão que é plenamente ciente dos poderes não humanos em nosso mundo”.

Essa observação reforça-se com a encíclica de 2015 intitulada Laudato Si’, onde o papa declara que “a Bíblia não dá lugar a um antropocentrismo despótico, que se desinteressa das outras criaturas”.

Ele então passa a notar que “é verdade também que a indiferença ou a crueldade com as outras criaturas deste mundo sempre acabam de alguma forma por repercutir-se no tratamento que reservamos aos outros seres humanos. O coração é um só, e a própria miséria que leva a maltratar um animal não tarda a manifestar-se na relação com as outras pessoas”.

Uma tal postura serve como um lance inicial aos ativistas pró-vida que buscam apelar às instituições morais compartilhadas dos ativistas pelo bem-estar animal estimulando líderes de variados grupos que ainda precisam reconciliar conciliar a defesa deles pelo bem-estar dos animais com a sua postura na questão da vida humana.

Se certos indivíduos ou organizações fizerem uma campanha pela proteção dos animais, será que eles não poderiam também querer expandir os seus esforços a todas as criaturas vulneráveis, tais como os bebês que ainda não nasceram?

O contrário, todavia, igualmente merece atenção: Não seria de convir aos ativistas pró-vida repensar a atitude deles para com o bem-estar animal e as nossas escolhas alimentares? E mesmo se não estejamos plenamente convencidos de que somos obrigados eticamente a parar de comer carne animal, não poderia uma tal deferência para com o bem-estar dos animais servir como um convite aos ativistas pró-escolha para que se confrontem com suas próprias inconsistências?

Quiçá em tudo isso exista uma real possibilidade de que, ao demonstrar misericórdia para com os animais – seja via abstinência à carne ou simplesmente com pequenos passos, como não aceitar as fazendas de criação intensivas –, este movimento recente possa servir como uma porta de entrada para uma acolhida mais aberta ao conceito de misericórdia que Francisco adotou em seu papado e que se manifesta de todas as formas.

Como escreve Matthew Scully, “a compaixão pelos animais não decorre de alguma fonte finita de energia moral e do idealismo, em detrimento do bem-estar humano”.

Com efeito, esse reconhecimento de que a energia moral não é finita é exatamente a lição que todos os tipos de aliados descobrem quando reúnem-se em torno de uma causa compartilhada.

Peguemos, como exemplo, os ativistas pelos direitos dos deficientes físicos que unem forças com os ativistas antiabortistas na luta contra o suicídio assistido, ou as feministas pró-escolha seculares que dão as mãos a aliadas pró-vida para expressar uma oposição unida à prática de barrigas de aluguel.

Esta é, na verdade, a estratégia que levou o grande abolicionista William Wilberforce a não só defender o fim do comércio de escravos, mas também a aprovar leis contra a crueldade aos animais.

Os movimentos pró-vida e de bem-estar animal há muito encontram suas raízes na esperança cristã conforme rezava São Francisco de Assis:

“Curai a nossa vida,
para que protejamos o mundo
e não o depredemos,
para que semeemos beleza
e não poluição nem destruição”.

Que momento melhor do que este sob o atual papa construtor de pontes, que tira a sua inspiração deste mesmo santo, para renovarmos os nossos esforços em andar de braços dados e trabalharmos juntos para alcançar os nossos objetivos?

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