A eclesiologia por trás de Amoris Laetitia

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14 Abril 2016

"Francisco convida as famílias a fazerem parte de uma sociedade mais ampla (parágrafo 182) e a rejeitar todas as formas de exclusão (parágrafo 186). É a Igreja que integra todas as pessoas. A Igreja é como um hospital de campanha", escreve Massimo Faggioli, professor de História do Cristianismo na University of St. Thomas, EUA, em artigo publicado por Global Pulse, 13-04-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

A exortação apostólica do Papa Francisco sobre o amor na família, Amoris Laetitia, é um documento singular na história do magistério papal na forma como ela aborda os temas candentes do matrimônio e da sexualidade e, mais que isso, na visão de Igreja que ela apresenta.

Amoris Laetitia marca uma evolução na eclesiologia do papa; isto é, em sua teologia da Igreja.

Antes de tudo, a eclesiologia que sustenta Amoris Laetitia é colegiada e sinodal.

Francisco cita a sua primeira exortação apostólica, Evangelii Gaudium, dezessete vezes. Cita a constituição Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo moderno, do Concílio Vaticano II, outras dezenove vezes. E então faz uma referência a dez documentos diferentes emitidos por Conferências Episcopais de todo o mundo. Tudo é feito de forma coerente com o já conhecido método eclesiológico do papa argentino.

Mas a novidade nesta exortação é o uso extensivo que Francisco faz dos documentos que o Sínodo dos Bispos produziu em suas assembleias de 2014 e 2015. Ele cita 136 vezes estes textos. Os papas anteriores também citavam documentos sinodais. Mas estes não vinham após um “processo sinodal” tal como este que Francisco propôs com dois encontros distintos separados por doze messes, ambos caracterizados por uma liberdade real de discussão.

Além disso, a eclesiologia do papa não se limita unicamente à colegialidade episcopal, mas busca expandir a noção de sinodalidade para além do encontro formal dos bispos no próprio Sínodo. Isso acarreta uma compreensão nova e radical do papel do Bispo de Roma, conforme ele sugere na abertura de sua exortação:

“Quero reiterar que nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais. Naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela” (Amoris Laetitia, parágrafo 3).

Segundo, a eclesiologia de Amoris Laetitia é histórica e existencial.

Francisco cita várias vezes a encíclica Evangelii Gaudium a fim de nos lembrar de que “o tempo é superior ao espaço”. Eis um convite para se olhar de perto a realidade. No parágrafo 6, ele se põe a “[considerar] a situação atual das famílias, para manter os pés assentes na terra”.

No parágrafo 7, ele faz um convite a enxergarmo-nos nas fragilidades das famílias e diz que provavelmente “todos se sintam muito interpelados pelo [capítulo] oitavo [Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade]”.

A eclesiologia histórica e existencial de Francisco fica clara também nos parágrafos 35 a 38: a Igreja não pode tentar “impor normas pela força da autoridade” (35); uma Igreja “humilde e realista” (36); uma Igreja “[chamada] a formar as consciências, não a pretender substituí-las”; uma Igreja que não pode “[agir] na defensiva [gastando] as energias pastorais [e] multiplicando os ataques ao mundo decadente, com pouca capacidade de propor e indicar caminhos de felicidade” (38).

Essa é a eclesiologia do Vaticano II, mas também uma eclesiologia desconsiderada nos cinquenta anos que se passaram desde o Concílio. Ela foi deixada de lado por uma mudança radical no papel da religião e da Igreja na sociedade, mas também por equívocos trágicos da própria Igreja, tais como os escândalos de abuso sexual, o que é mencionado em Amoris Laetitia no parágrafo sobre a exploração sexual infantil:

“O abuso sexual das crianças torna-se ainda mais escandaloso, quando se verifica em ambientes onde deveriam ser protegidas, particularmente nas famílias e nas comunidades e instituições cristãs” (parágrafo 45).

Em terceiro lugar, a eclesiologia em Amoris Laetitia é inclusiva e radicalmente não sectária. Ela vê a Igreja e a sociedade em diálogo e comunicação constantes.

Na experiência de Francisco, a Igreja argentina e o povo tendem a ser uma coisa só, o que não necessariamente é o caso na Igreja como um todo. A experiência do papa em seu país de origem não é normativa, mas formativa – o que o leva a construir uma eclesiologia bastante inclusiva.

Francisco convida as famílias a fazerem parte de uma sociedade mais ampla (parágrafo 182) e a rejeitar todas as formas de exclusão (parágrafo 186). É a Igreja que integra todas as pessoas. A Igreja é como um hospital de campanha (imagem que ele usou pela primeira vez na entrevista ao editor da Civiltà Cattolica, Antonio Spadaro, SJ, em setembro de 2013) e “como a luz do farol dum porto ou duma tocha acesa no meio do povo para iluminar aqueles que perderam a rota ou estão no meio da tempestade” (parágrafo 291). É uma eclesiologia da parábola do “Pastor de cem ovelhas, não de noventa e nove” (parágrafo 309).

Francisco é contundente ao se referir às tentações em adotar uma eclesiologia exclusivista.

“Duas lógicas percorrem toda a história da Igreja: marginalizar e reintegrar. (...) O caminho da Igreja, desde o Concílio de Jerusalém em diante, é sempre o de Jesus: o caminho da misericórdia e da integração” (parágrafo 296).

A referência ao concílio de Jerusalém, quando as primeiras comunidades cristãs escolhem incluir os gentios que acreditavam em Jesus Cristo (Atos dos Apóstolos, cap. 15), é uma declaração implícita sobre a situação da Igreja, hoje, e sobre a necessidade de uma mudança paradigmática.

Amoris Laetitia igualmente contém ênfases eclesiológicas que revelam fragilidade na forma como o papa jesuíta enxerga certas complexidades da Igreja na atualidade.

No parágrafo 87, por exemplo, ele define a Igreja como uma “família de famílias”. Isso porém deixa o leitor a se perguntar sobre o papel que ele vê para os católicos solteiros, não casados. O parágrafo 161 sobre a virgindade não fala a todos os católicos não casados; assim como o parágrafo 162 menciona “o celibato [que] corre o risco de ser uma cômoda solidão”.

Além de tudo isso, falta nesta exortação uma apreciação eclesiológica direta da dimensão ministerial dos cônjuges casados (famílias) na Igreja. Isso é algo que Francisco bem poderia desenvolver na sua eclesiologia, baseando-se na sacramentalidade que profundamente se liga a uma compreensão da pessoa humana um tanto concreta e não idealizada. Este pontificado tem sido um teste de realidade para uma Igreja que, por muito tempo, acreditou em uma visão impecável, filosófica de si mesma, do amor e da sexualidade. Um teste de realidade é provavelmente algo a que as famílias reais estão mais acostumadas do que o clero.

E, portanto, vemos que a visão de família do Papa Francisco revela muito sobre a sua visão de Igreja.

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