A ditadura argentina e o núncio pontifício Pio Laghi: verdades obscurecidas

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30 Março 2016

O caso e uma carta do arcebispo conservada nos Arquivos Vaticanos revelam muitas realidades negadas sobre aqueles sete anos (1976-1983).

A reportagem é de Luis Badilla, publicada no sítio Il Sismografo, 28-03-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Entre as muitas e articuladas verdades que poderiam vir à tona a partir da abertura dos Arquivos Vaticanos referentes ao período das quatro Juntas militares que, entre 1976 e 1983, governaram com ferocidade inédita a Argentina, certamente o caso doloroso do núncio em Buenos Aires, o arcebispo Pio Laghi, será um dos mais interessantes, úteis e necessários.

Pio Laghi chegou em Buenos Aires credenciado como núncio do papa no dia 1º de julho de 1974, o mesmo dia da morte do presidente Juan Domingo Perón, e terminou a sua missão diplomática no dia 21 de dezembro de 1980. Para Pio Laghi, foram quase seis anos de grande dor e sofrimento que marcaram para sempre a sua vida. Mas ele ainda não sabia que era apenas o começo.

Ele descobriu isso no Vaticano, já como cardeal e então prefeito da Congregação para a Educação Católica, na manhã do dia 23 de março de 1997, quando ele abriu o Corriere della Sera. O jornal, na página 10, oferecia aos seus leitores uma ampla reportagem intitulada "Cardeal e carrasco". O subtítulo acrescentava: "Argentina – Pio Laghi acusado de fazer parte da ditadura militar argentina".

A partir daquele dia terrível para Pio Laghi, iniciou uma ampla campanha de imprensa, não só na Argentina, que gradualmente e com a técnica do martelamento o apresentou quase como um monstro. Nessas denúncias, que culpavam o núncio de ter participado "do sequestro, tortura e homicídio de milhares de pessoas", distinguiram-se as Mães da Praça de Maio, inúmeros políticos, órgãos de imprensa, na América Latina e na Europa.

No dia 4 de maio de 1997, ao presidente das Mães da Praça de Maio, Hebe de Bonafini, junto com Marta Badillo e o advogado Sergio Schocklender, anunciaram um pedido de processo porque o diplomata, na sua opinião, "visitava assiduamente os centros de detenção clandestinos e permitia as torturas e as execuções que aconteciam lá". A denúncia foi entregue ao Tribunal de Roma no dia 21 de maio de 1997, dia do 75º aniversário do purpurado.

Os tempos da missão do núncio Laghi

Pio Laghi foi núncio em Buenos Aires de julho de 1974 a dezembro de 1980, portanto, durante os 20 meses do governo de Isabelita Perón, a viúva que, como vice-presidente, assumiu o cargo do marido depois da sua morte (1º de julho de 1974 a 24 de março de 1976) e, depois, por quase quatro anos, da ditadura de Jorge Videla e companheiros.

Naqueles anos, o arcebispo Laghi teve que acertar as contas com situações e fenômenos muito graves e nada fáceis. Por um lado, a crise político-institucional criada pela sucessão de Isabel Perón, pessoa incapaz, nas mãos de personagens muito questionáveis como o seu secretário pessoal, José López Rega, financiador oculto, com dinheiro do Estado, da Aliança Anticomunista Argentina usada para combater os diversos fenômenos, também armadas, do extremismo de esquerda (Montoneros, Ejército Revolucionario del Pueblo, Uturuncos, Fuerzas Armadas Revolucionarias e outros).

À interseção letal de dois terrorismos, insurrecional e de Estado, acrescentou-se, depois do golpe Videla, a repressão desumana e totalitária de militares que diziam agir oficialmente em nome do cristianismo para favorecer o famigerado Processo de Reorganização Nacional.

Por fim, também eram os anos em que estava latente sob as cinzas a tentação guerrilheira, tanto em Buenos Aires quanto em Santiago do Chile, onde comandava o ditador Augusto Pinochet, que conduziria a um confronto bélico devastador se São João Paulo II, com a extraordinária obra do cardeal Antonio Samoré, não conseguisse evitá-lo com uma longa e complexa mediação.

Os 5.000 cartões de Pio Laghi

Dom Laghi sempre se defendeu com firmeza e dignidade de todas as acusações, mesmo daquelas claramente inconsistentes. Muitas vezes, ele lamentou a impossibilidade de ter acesso aos Arquivos, tanto os do Vaticano, quanto os conservados na Nunciatura argentina, onde, segundo ele, havia ao menos 5.000 cartões por ele redigidos sobre as vítimas da repressão.

Bruno Passarelli e Fernando Elenberg, no seu livro Il Cardinale e i desaparecidos [O cardeal e os desaparecidos], escrevem: "Laghi ajudou a salvar vidas humanas; ele assistiu humana e materialmente muitos perseguidos; intercedeu em favor de presos que, abandonados nas suas celas, poderiam desaparecer no nada em qualquer instante, vítimas da política 'Noite e névoa' à la sul-americana, praticada por repressores. Além disso, tentou verificar onde tinham acabado os 'desaparecidos', para dar um raio de esperança para os seus atormentados familiares. Ele criticou publicamente a Junta Militar e continuou a fazer isso, embora recebesse ameaças de morte e entrasse em contraste duramente com bispos e capelães militares que apoiavam o regime e com os quais, como representante pontifício, era chamado a conviver e não a se confrontar".

Esses juízos se baseiam em inúmeras investigações jornalísticas que demonstram, para citar apenas um dado, que, em 1979, ele pediu às autoridades argentinas esclarecimentos abrangentes sobre 2.388 cidadãos e, embora seja verdade que ele era amigo do almirante Emilio Massera – um dos três membros da Junta Militar –, foi declarado persona non grata em 1980 por parte do governo argentino e, assim, forçado a deixar o país.

No livro mencionado acima, afirma-se: "Os testemunhos (sobre a obra humanitária de Laghi) não faltam. Em uma minuta sem data, o secretário de Estado, cardeal Jean Villot, refere-se a um relatório que Laghi tinha enviado a ele poucos dias antes, referindo-se à situação de um grupo de mulheres argentinas cujos familiares haviam sido sequestrados e haviam sido detidos ou desapareceram. E escreve: 'Sou-lhe vivamente grato pelas informações que o senhor forneceu no contexto de muitos outros casos em favor dos quais esta Nunciatura Apostólica intervém repetida e incansavelmente, junto às autoridades competentes, apesar da falta de atenção que estas lhe prestam'".

Os conflitos no episcopado

Além das muitas situações graves e delicadas que o núncio Laghi teve que enfrentar durante a sua missão diplomática e eclesial, já lembradas, embora sumariamente, houve outra ainda mais difícil e complicada para um servidor do papa chamado, por missão e serviço, a defender e fortalecer a unidade dos bispos do país.

A situação complexa e muito frágil da Argentina tinha ferido severamente o corpo episcopal que, para Laghi, mostrou-se muito dividido, litigioso e polarizado. A ditadura, embora pagã e totalitária, conseguiu semear – apelando a palavras em defesa do cristianismo, particularmente do catolicismo – profundas divisões e antagonismos entre os bispos, a tal ponto que a morte de dois deles, assassinados pelas suas posições críticas, Dom Angelelli (1976) e Dom Ponce de León (1977), para a maioria do episcopado, por muitos anos, pareceram ser "simples acidentes rodoviários".

Havia bispos que confiavam cegamente nos ditadores e lhes perdoavam tudo, até mesmo os piores excessos. Havia bispos radicalmente críticos, poucos, mas que se expressavam com cautela e moderação. Havia bispos, a grande maioria, que escolheu o discutível caminho de dizer: "A política não nos diz respeito".

E todas essas tensões e diferenças se enquadravam em uma longuíssima polêmica sobre o Concílio Vaticano II, a cujas conclusões se opunham obstinadamente muitos prelados, chamados à disciplina várias vezes pelo Papa Paulo VI.

Enquanto isso, o Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo contestava duramente a hierarquia. Também havia a delicadíssima questão da sucessão do primaz, o cardeal Antonio Caggiano (1889-1979).

Quando São João Paulo II visitou o país por poucas horas, à procura de uma maneira de parar a iminente guerra entre Argentina e Chile, ele ressaltou aos bispos: "A missão do bispo sempre tem um aspecto que eu não tenho motivo para dissimular. É fácil e, às vezes, pode ser cômodo deixar as coisas diferentes abandonadas à sua dispersão. É fácil, colocando-se no outro extremo, reduzir com a força a diversidade a uma uniformidade monolítica e indiscriminada. É difícil, no entanto, construir a unidade, conservando ou, melhor, fomentando a justa variedade. Trata-se de saber harmonizar os valores legítimos dos diferentes componentes da unidade, superando as resistências naturais, que surgem com frequência a partir de cada uma delas. Por isso, ser bispo será sempre ser artífice de harmonia, de paz e de reconciliação" (12 de junho de 1982). Cinco anos depois, na viagem de 1987, o Papa Wojtyla gritaria: "Argentina, levanta-te!".

A verdade dos Arquivos que serão abertos

É certo que a abertura dos Arquivos Vaticanos sobre o período das ditaduras argentinas, 1976-1983, vai restabelecer a verdade sobre a obra do núncio Pio Laghi, também ele vítima da "guerra suja", em particular pela imprensa sob controle do regime que, muitas vezes, atribuiu frases, pensamentos ou declarações nunca feitos e distorcidos para fazer com que ele parecesse, como representante do papa, como um apoio do Vaticano para as horrendas atrocidades dos ditadores; imprensa que nem sempre publicava as suas erratas ou esclarecimentos.

Não há dúvida de que, aí, nasceu a lenda obscura sobre Pio Laghi; lenda assumida por muitos, mas que não perceberam que haviam sido presos na rede de mentiras dos ditadores.

Não só pelas vítimas da "guerra suja" e para os seus familiares, mas também por Pio Laghi esperamos com confiança a abertura dos Arquivos Vaticanos, que, com toda a probabilidade, nos permitirá ler, pela primeira vez, documentos como a carta de Pio Laghi ao cardeal Jean Villot em julho de 1976, uma impressionante fresta de verdade nas mentiras que circularam por décadas.

* * *

Eis um documento de 40 anos atrás que se encontra nos Arquivos que serão abertos: uma carta-relatório do núncio Dom Pio Laghi ao cardeal secretário de Estado, Jean Villot.

Buenos Aires, 13 de julho de 1976
Nº 1510/76
Assunto: Colóquio com o Ministro do Interior

A Sua Eminência
O Sr. Cardeal JEAN VILLOT
Prefeito do Conselho para os Assuntos Públicos da Igreja
Cidade do Vaticano
(Com Anexo)

Eminência,

Esta manhã eu me dirigi à Casa de Governo, onde me encontrei com o general Albano Harguindeguy, ministro do Interior da Argentina, com quem tive um colóquio de 45 minutos. O principal assunto tratado foi o referente ao estado dos presos políticos, o sequestro e a eliminação de pessoas, à margem da lei, e a violação de direitos humanos fundamentais.

Depois da chacina de cinco religiosos palotinos, o próprio ministro tinha manifestado o desejo de ter um encontro comigo, e eu, naturalmente, concordei, considerando conveniente valer-me de tal audiência para falar também sobre os assuntos acima mencionados.

Sobre o assassinato dos palotinos, ele me assegurou que a investigação para identificar os autores continua; ele acrescentou que o lamentável fato produziu no país um dano moral incalculável, "muito maior do que o dano causado pela bomba que explodiu no quartel geral da Polícia, que causou 20 mortes e mais de 60 feridos"; por isso, acrescentou, os responsáveis devem ser identificados e processados. Ele me confidenciou, depois, que tem indícios para concluir que a mão assassina é "de extrema-direita"; ele deu ordens para o Alto Comando da Polícia para colocar todos os esforços para lançar luz sobre o fato, a fim de "limpar e resgatar a própria imagem da Corporação".

Entreguei ao ministro alguns papéis nos quais eu tinha transcrito, de acordo com a categoria, os nomes dos presos, dos apreendidos e dos desaparecidos, cujos familiares se voltaram para a nunciatura para obter o nosso interesse (anexo); eu chamei a atenção do ministro para alguns casos, que me parecem de particular urgência e merecedores de consideração especial, como o dos engenheiros da Comissão para a Energia Atômica, o do diretor de cinema Raymundo Glayser, o do professor Roberto Bergalli.

Harguindeguy, depois, me forneceu informações detalhadas sobre os sacerdotes ainda presos, à disposição do Poder Executivo ou em julgamento: são nove, dos quais seis estavam na prisão antes ainda do "golpe militar"; cinco estão sob processo e, para eles, o Ministério Público pediu a aplicação de penas de até oito anos de prisão; os outros quatro, talvez, poderão ser expulsos do país como "persona non grata", não sendo argentinos.

Por fim, detivemo-nos para falar sobre os refugiados e daqueles que aqui são residentes, mas não cidadãos do Estado: se, por um lado, a sua presença e o seu número, muito alto, levantam sérios problemas de segurança para as autoridades estatais, por outro, eles têm direitos inalienáveis. Sobre os presos não argentinos, recordei casos em que eles são mantidos "incomunicados" e não podem ser visitados nem mesmo pelo agente consular do respectivo país: isso está em contradição com o artigo 36 da Convenção de Viena sobre as relações consulares, dos quais a Argentina é signatária.

O ministro admitiu que, em alguns presídios militares, como no de Rosario, sob o comando do general Díaz Bessone – um homem muito "duro" –, ocorrem abusos desse tipo e prometeu que fará de tudo para corrigi-los.

Diante da angústia que eu manifestei sobre atos de violência cometidos por "esquadrões" de direita e sobre os métodos inadmissíveis de luta contra a subversão, o ministro concordou comigo que "é necessário desarmar todos os grupos que atuam fora da lei do Estado".

Ao relatar o acima exposto a Vossa Eminência, aproveito a circunstância para lhe oferecer os sentimentos do meu profundo obséquio,

de Vossa Eminência
Devotíssimo
(Assinatura de Pio Laghi)

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