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14 Março 2016

“Os políticos do governo e da oposição, do PT e do PSDB, deveriam negociar uma saída olhando para o Brasil, tendo como referência o que as massas querem. A saída terá que ser política. E a política requer negociação. Produzir vitoriosos e derrotados neste momento prolongará a crise. Há que se encontrar uma solução tampão para que a democracia se depure no tempo, pelos seus mecanismos legítimos. Mas, neste momento, faltam lideranças, falta bom senso e sobra oportunismo de um lado e desespero de outro”, escreve Aldo Fornazieri, professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em artigo publicado por Jornal GGN, 14-03-2016.

Eis o artigo.

Preâmbulo

Para usar uma analogia militar para entender a crise atual se pode dizer que o ex-presidente Lula é um general com parte do exército desorganizada e parte em franca deserção. O principal problema dele é que não tem um Estado Maior. Nenhum general vence guerras sem Estado Maior. No governo não há Estado Maior. Há mais de um ano em crise, o governo nunca organizou um comitê de crise. Os ministros da casa não contam. Podem dizer uma coisa ou outra e Dilma faz o que quer. A desorganização é total. O PT não comanda mais nada. A militância não acredita na direção. Também não há um comando estratégico no partido para enfrentar a crise. Não há definições táticas, estratégicas, defesas, forças de ataque, nada.

A oposição é constituída por um grupo de generais e oficiais sem exércitos. Diante desta monumental crise, a oposição nunca foi capaz de convocar um ato. Sempre foi a reboque de forças alheias. Generais da oposição não são bem vistos pelas tropas que se mobilizam nas ruas. No domingo expulsaram Aécio Neves, Geraldo Alckmin e Marta Suplicy da Avenida Paulista. Já os manifestantes nas ruas se comportam como tropas anárquicas que não querem saber do comando de generais. Parecem querer um ditador. De preferência, Sérgio Fernando Moro, um juiz de primeira instância alçado à condição de juiz universal e salvador da pátria. Agora, acreditar que de grupos como o MBL e assemelhados possa surgir líderes significativos significa acreditar na inviabilidade eterna do Brasil.

O PMDB, por sua vez, se comporta como uma frente de caudilhos mercenários desunidos, mas que só é capaz de se unir para dar o bote final. Se une para o assalto da cidadela do Planalto. Feito o assalto, os caudilhos voltarão às suas divisões tradicionais. O que interessa são cargos, recursos, negociatas, poder. É a política como meio puro, sem causas e sem fins.

As manifestações de domingo complicaram uma saída para a crise. Se não serve Aécio, Temer serve menos ainda. Se vier a assumir, sua cabeça será pedida, assim como a de Renan Calheiros, de Cunha e de outros caciques. Se a Lava Jato parar ante a possibilidade de um novo governo, será sua desmoralização, o fim do juiz herói. A fúria devastadora das massas desordenadas quer uma limpeza completa. Se vier uma eleição para presidente, a chance de um aventureiro ou de um outiser triunfar é muito grande. Essa crise tem sinais de que será prolongada.

Os Cenários Insatisfatórios

Todos os cenários de solução da crise parecem insatisfatórios. Se Dilma continuar, seu governo continuará se arrastando até 2018. Aniquilaria qualquer chance do PT e de Lula. A entrada de Lula neste momento no governo confere-lhe o risco de naufragar em definitivo junto com o próprio governo. Um abraço de afogados. Para o PT, a única tábua de salvação consiste em tentar salvar Lula para 2018. Mas como? Com a renúncia de Dilma? Talvez. Dilma poderia construir uma boa peça política que justificasse a renúncia. Para os prefeitos do PT que concorrem à reeleição e para os futuros candidatos a prefeitos, a renúncia rápida seria a melhor saída. Dar-lhes-ia tempo para se recomporem, o PT passaria à oposição enfrentando um governo marcado pela ilegitimidade e com grave crise econômica e social para enfrentar.

As perspectivas do PT são difíceis e ambíguas. Do ponto de vista das eleições de 2016, a solução mais plausível é a renúncia de Dilma. Do ponto de vista da recomposição das forças sociais, o melhor é enfrentar o processo de impeachment. Haveria lutas, aglutinação de forças, munição para o combate. Mas o encavalamento de processo de impeachment com eleições municipais pode ser devastador para os candidatos petistas.

A oposição não está em situação melhor. Se Temer assumir, terá a marca da ilegitimidade, terá o PT e os movimentos sociais como oposição e as massas pró-impeachement ser-lhes-ão hostis. Terá que adotar medidas duríssimas, circunstância que desencadeará protestos de todo tipo. Temer não é Itamar. Itamar tinha a complacência de todos. Temer não terá a complacência de ninguém. Collor não tinha forças sociais. O PT ainda exerce influência sobre as forças sociais mais organizadas do país. A crise continuará.

Se vierem novas eleições, Aécio Neves deverá ser o candidato do PSDB. Tem várias citações na Lava Jato. Foi chamado de “oportunista”, “bundão” e corrupto na Avenida Paulista. O risco de vencer uma Marina Silva, um Ciro Gomes ou um aventureiro qualquer é grande.

O semipresidencialismo de Renan Calheiros é uma não solução. Que legitimidade teria um Congresso corrupto, com Eduardo Cunha e Renan afundados até o pescoço nas denúncias, de indicar um primeiro-ministro? Um Congresso que tem dezenas de deputados denunciados e 12 senadores investigados. Poderia ser implantado o semipresidencialismo ou semiparlamentarismo sem um referendo popular? Sem um referendo seria visto como um golpe, como uma remissão a 1961.

Uma Crise Complexa

A atual crise é como um jogo de xadrez sendo jogado em quatro tabuleiros. Num dos tabuleiros só jogam o juiz Moro, o Ministério Público, a Polícia Federal e o STF. Este é o jogo do imponderável, do incontrolável. Esses jogadores têm o poder de desorganizar o jogo de todos os outros tabuleiros. É um jogo que atormenta o sono do governo e da oposição, de Lula e de Aécio Neves, de Dilma e de Eduardo Cunha, de Renan Calheiro e de Temer.

O outro tabuleiro é o Congresso. Ali se trava a batalha principal do impeachment. Seja qual for o resultado, o desfecho será dramático. Deixará feridas sangrentas. Os ganhadores de hoje podem ser os perdedores de amanhã. O terceiro tabuleiro é o governo. Quase ninguém mais quer jogar nesse tabuleiro. O PMDB quer sair desse jogo. O PT também. A rigor, o PT não apoia mais o governo. Apoiar um governo significa dar-lhe sustentação no Congresso, apoiar suas políticas. O PT já não está fazendo isto. Dilma é uma jogadora cada vez mais solitária.

O quarto tabuleiro está nas ruas, nos ambientes de trabalho, nas redes sociais. O jogo é emocionante. Movido a paixões e ódios. As massas enfurecidas do impeachment e do combate à corrupção contam com o apoio de decisões politicamente orientadas da Lava Jato. As forças de esquerda tendem a se aglutinar muito mais em torno de Lula do que do governo. Olham mais para o futuro do que para o presente.

As massas, como diria o velho Hegel, aqui sim, o filósofo alemão Hegel dos “Princípios da Filosofia do Direito”, as massas são confusas. Nelas está a verdade e o erro infinito. Defendem o essencial do bem comum, mas quando julgam podem produzir desastres. São facilmente enganadas por demagogos. Podem escrever jornadas glorificantes ou soluções cujos efeitos maléficos perdurem décadas.

Os políticos do governo e da oposição, do PT e do PSDB, deveriam negociar uma saída olhando para o Brasil, tendo como referência o que as massas querem. A saída terá que ser política. E a política requer negociação. Produzir vitoriosos e derrotados neste momento prolongará a crise. Há que se encontrar uma solução tampão para que a democracia se depure no tempo, pelos seus mecanismos legítimos. Mas, neste momento, faltam lideranças, falta bom senso e sobra oportunismo de um lado e desespero de outro.

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