Será que o passado de George Pell vai sobrepujar o seu presente caso ele sobreviva?

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08 Março 2016

 

"O desafio do Papa Francisco se resume a isto: se Pell ficar, então ele precisa ficar de verdade, com todos os instrumentos de que necessita para fazer o seu trabalho. Caso contrário, o verdadeiro “risco” à imagem de Francisco seria permitir que críticas venham de um front para impedir uma real mudança em outro front", escreve John L. Allen Jr., em artigo publicado por Crux, 04-03-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Depois de uma semana difícil de depoimentos do Cardeal George Pell diante de uma Comissão Real australiana sobre o seu histórico em casos de pedofilia, o prelado de 74 anos pode ter dado motivos suficientes para o Papa Francisco justificar a sua manutenção no Vaticano, seja por causa da falta de qualquer revelação incontestável de culpa, seja pela sua promessa de apoio aos esforços antiabusos sexuais na Igreja.

Se for isso mesmo, a questão urgente será saber se o passado de Pell vai sobrepujar o seu presente – quer dizer, se ele ainda vai contar com o apoio papal de que necessita para finalizar o trabalho de trazer transparência, responsabilização e integridade às finanças vaticanas, o motivo principal pelo qual Francisco o trouxe para Roma dois anos atrás.

Principal autoridade financeira do Vaticano, Pell esteve prestando depoimento sobre a sua resposta institucional a casos de abuso na cidade de Ballarat, onde começou a sua carreira sacerdotal e que foi o epicentro do escândalo de pedofilia da Austrália, e também sobre o seu tempo de arcebispo de Melbourne, entre 1996 e 2001. Pell falou via videoconferência direto de Roma, depois que um problema cardíaco fez não ser aconselhável ele ir para a Austrália.

A audiência de quatro dias não foi algo fácil para o cardeal.

Por repetidas vezes ele insistiu não saber daquilo que concordou ser um “mundo de crimes e acobertamentos” no tocante a padres pedófilos, onde ele, também, fora enganado e que, no geral, seria culpado somente por ter sido insuficientemente curioso – não indo atrás da verdade plena sobre os casos. Estas afirmações careceram de credibilidade para muitos analistas australianos, inclusive a principal interrogadora, que as descreveu como “não plausíveis”.

Na sexta-feira, 04-03-2016, um colunista do jornal Sydney Morning Herald escreveu que “dois George Pells” lutaram pelo controle dos livros de história durante os depoimentos, e um perdeu. “Alguns sobreviventes que estavam presentes na audiência para ouvir o que Pell tinha a dizer protestaram na quinta-feira dizendo que todos ali foram “enganados”.

No entanto, existem cinco modos em que Pell pode, de fato, surgir mais forte ainda desta experiência.

Em primeiro lugar, o interrogatório demorado não conseguiu produzir nenhuma “prova conclusiva de culpa”, pois não mostrou que Pell tinha conhecimento direto dos abusos e acobertamentos. Em um caso, de 1974, ele admitiu que teria ouvido de um aluno que um padre da escola local estava “tendo um comportamento inadequado com os meninos”, mas disse que o aluno não pediu alguma ação da parte dele, Pell.

Caso existisse alguma informação bombástica, com certeza ela se apresentaria neste momento aqui.

No fim, a principal acusação pareceu girar em torno não daquilo que Pell sabia, mas do que ele deveria saber: não o que fez, mas o que deveria ter feito. Estas são questões sérias, sem dúvida, mas não houve sugestão alguma de nenhum ato que se elevaria à condição de crime, e as mesmas perguntas poderiam ser feitas a praticamente qualquer pessoa que estava em Ballarat na época investigada.

Em segundo lugar, Pell se submeteu a este processo extenuante sem se queixar, concordando em depor a partir das 22 horas de Roma até as 2 ou 3 horas da madrugada. Ele não estava sob obrigação legal de assim proceder, o que faz de sua cooperação algo significativo.

Em terceiro lugar, no final Pell se encontrou com vários dos 15 a 20 sobreviventes de abuso sexual, parentes e apoiadores que viajaram da Austrália para Roma para acompanhar o depoimento, com pelo menos alguns voltando para casa com notas positivas.

“Eu acho que o cardeal compreende”, disse Phil Nagle, que fora abusado por um padre em Ballarat enquanto Pell era o responsável pelo setor de educação na diocese.

“Nós falamos sobre o futuro, não sobre o passado”, declarou Nagle. “Falamos sobre indenizações, sobre acompanhamento, sobre como será o futuro para nós sobreviventes e de como a Igreja irá ajudar nesse processo”.

Isso implica que Nagle enxerga o papel de Pell como parte da solução, não só do problema.

Em quarto lugar, Pell deu o seu apoio aos sobreviventes e comprometeu-se com os esforços de recuperação a partir dos escândalos sexuais havidos, o que inclui uma ajuda na criação de um centro australiano de pesquisas para a prevenção e detecção de abusos.
Em quinto lugar, no final da audiência, Pell não fez uso da palavra para emitir lamentos aos jornalistas sobre tudo o que se passou naqueles dias nem deu a entender estar sendo ele uma espécie de mártir.

Pelo contrário, falou que a atenção atraída por ele pode ser de utilidade na Europa, em termos de conscientizar as pessoas sobre a questão do abuso sexual e persuadir a Igreja a abandonar a sua cultura tradicional no que diz respeito aos crimes cometidos pelo clero.
Resta saber o que o futuro reserva para Pell, que completa 75 anos em 8 de junho. Há pedidos vindos da Austrália e alhures para que o Papa Francisco dê o exemplo destituindo-o do cargo que ocupa.

Na última quinta-feira, a revista italiana L’Espresso publicou um texto do jornalista Emiliano Fittipaldi, acusado de publicar documentos financeiros vazados do Vaticano. Fittipaldi insistiu que o papa deve se livrar de Pell imediatamente, pois, do contrário, “colocará em risco a imagem de um papa revolucionário e inflexível, o inimigo declarado dos maníacos que infestam a Igreja”.

Não está claro se Francisco vai agir com base neste conselho, embora no passado ele mostrou-se profundamente relutante em fazer mudanças no departamento pessoal estando sob pressão.

Supondo que Pell não permaneça do emprego, será importante que o pontífice encontre um jeito de deixar claro que as dificuldades de Pell na Austrália não denegriram a capacidade dele de implementar uma limpeza no departamento financeiro, sendo que isso foi um componente-chave presente em sua eleição ao papado três anos atrás.

O pior de todos os cenários para um papa reformador provavelmente seria frustrar aqueles que querem ver Pell ser responsabilizado como um símbolo da “tolerância zero” em casos de abuso, e simultaneamente declarar vitória à velha guarda vaticana apavorada com os esforços do cardeal em organizar as finanças.

O desafio do Papa Francisco se resume a isto: se Pell ficar, então ele precisa ficar de verdade, com todos os instrumentos de que necessita para fazer o seu trabalho. Caso contrário, o verdadeiro “risco” à imagem de Francisco seria permitir que críticas venham de um front para impedir uma real mudança em outro front.

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