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04 Março 2016

O êxodo de Israel chegou ao fim. A fidelidade de Deus jamais lhe faltou e jamais lhe faltará. É misericórdia. E diz respeito também a nós: "Deixai-vos reconciliar com Deus", insiste Paulo. A grande parábola do filho pródigo nos põe diante deste Pai pródigo em sua misericórdia seja para com o filho perdido e reencontrado seja para com o filho mais velho.

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras do 4º Domingo da Quaresma, do Ciclo C. A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Eis o texto.

Referências bíblicas

1ª leitura: A chegada na Terra Prometida e a celebração da Páscoa (Josué 5,9-12)
Salmo: 33(34) - R/ Provai e vede quão suave é o Senhor!
2ª leitura: “Em Cristo, Deus reconciliou o mundo consigo” (2 Coríntios 5,17-21)
Evangelho: “Teu irmão estava morto e tornou a viver” (Lucas 15,1-3.11-32)

Para além da justiça

A lição que geralmente se tira da parábola do filho pródigo é perfeitamente legítima: trata-se da imensa misericórdia de Deus; do seu amor que esquece todos os malfeitos; do potencial inimaginável de acolhimento deste Pai, que não pode ser comparado a nenhum outro. Temos já muita dificuldade em acreditar nisto, e, no entanto, o capítulo 15 de Lucas vai mais longe: a parábola do filho pródigo insere-se num conjunto que é preciso realçar.

No começo do capítulo, vemos os fariseus e os escribas indignarem-se, porque Jesus recebe bem os publicanos e pecadores. E é esta a ocasião das três parábolas; as duas primeiras sublinham que o retorno dos que estavam perdidos dão mais alegria a Deus do que a fidelidade intocada dos "justos".

Que Deus possa experimentar alegria por causa de nós já é surpreendente, porque temos mais facilidade em considerá-lo imutável e insensível (o que vai de encontro a toda revelação bíblica), mas este "plus" obtido pelo pecador desperta ciúmes nos que se creem irrepreensíveis.

Em Mateus 20,6-9, vemos os trabalhadores que suportaram o peso todo do dia de trabalho se indignarem quando o senhor dá aos "trabalhadores da 11ª hora" um salário equivalente ao seu. Estes textos nos querem orientar a buscar um amor que vá mais além de toda a justiça. Este amor existe! E o chamamos de "Deus".

Lucas 15 não insiste no sacrifício, o caráter oneroso deste amor, mas na alegria e na festa que ele proporciona.

Uma parábola pascal

A parábola, no entanto, envia-nos muitos sinais em direção aos acontecimentos da Páscoa. Perguntemos primeiro o que representa o filho perdido. Podemos ver nele "aqueles que estão longe", expressão que, em Paulo, designa os pagãos. Israel, ao contrário, é o povo fiel, o filho mais velho que não deixou a casa paterna e que, conforme a epístola aos Romanos, fica enciumado ao ver as "nações" entrarem em sua herança.

Outra leitura legítima: o filho caçula representa todo homem pecador, cada um de nós, enquanto separa-se da sua origem, do seu Pai, Deus. Indo mais longe: este filho de Deus desgarrado é a humanidade inteira; muitos são os textos que nos dizem que todos os homens, os judeus com a Lei e os pagãos sem a Lei, têm necessidade de se reconciliar (ver a 2ª leitura).

Esta reconciliação se opera pelo ato pascal e por isso o nosso evangelho termina por: "Teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado". Estas palavras, "morto e tornou a viver; perdido e foi encontrado" pertencem ao vocabulário da ressurreição.

Já em Lucas 2, a questão era que Jesus, perdido, foi encontrado no Templo depois de três dias; e bem sabemos que este "relato" é uma espécie de profecia pascal. A parábola do filho pródigo é, portanto, uma ilustração de toda a aventura humana. Por isso, mais que usá-la imediatamente, para extrair dela lições de moral, melhor é entregar-se à admiração e entrar na alegria da festa.

O Cristo como filho pródigo

Surpresa: há uma interpretação que faz do filho exilado uma figura do próprio Cristo. Esta é a leitura proposta há muitos anos pelo Pe. Pierre-Jean Labarrière. Sei; este filho que exige a sua parte na herança, antes da morte do pai, mata seu pai simbolicamente e deixa a sua casa para ir gozar da boa vida, detalhes estes que não podem ser aplicados ao Cristo.

No entanto, o que o filho mais novo fez por concupiscência, Cristo, o filho mais velho, fará por amor. Pois, não se exilou livremente? Ele, que “estando na forma de Deus, não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou, tomando a forma de escravo...” (Filipenses 2,5-11).

Tornando-se homem, colocou uma distância infinita entre a sua condição e a condição divina. E ainda duplicou esta distância, porque assumiu não só a condição humana abstrata, como também a condição do homem pecador. "Abaixou-se a si mesmo (...) até à morte, e morte de cruz".

Retomemos a última frase da 2ª leitura: "Aquele que não cometeu nenhum pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, nele, nós nos tornemos justiça de Deus." Cristo encontra-se no filho pródigo, não em seu pecado, mas em seu sofrimento. Identifica-se com ele. A partir daí, juntos, fazendo-se um só, podem voltar para o Pai. Para este Pai que consente em reservar ao culpado a sorte do justo.

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