Pôncio Pilatos, hipóteses e ilações na névoa

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11 Fevereiro 2016

Entre história e memória move-se o último livro de Aldo Schiavone: Ponzio Pilato Un enigma tra storia e memoria [Pôncio Pilatos: um enigma entre história e memória] (Einaudi Storia, 174 páginas). Cento e quarenta páginas para pensar sobre o funcionário romano que condenou Jesus à morte por volta do ano 30 da nossa era, sob o reinado de Tibério.

A reportagem é de Carlo Franco, publicada no caderno Alias, do jornal Il Manifesto, 07-02-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O estudo histórico dos relatos da paixão nos evangelhos enfrenta dificuldades muito graves, talvez intransponíveis. Prova disso são as divergências da pesquisa moderna: cada frase, cada palavra do caso foi discutida, aceita, rejeitada, reescrita.

Uma recente síntese precisou, para chegar ao ponto, mais de 800 páginas (The Trial and Crucifixion of Jesus. Texts and Commentary, organizado por D. W. Chapman e E. J. Schnabel, Tübingen, Mohr Siebeck, 2015).

O livro de Schiavone, em vez disso, é ágil: a documentação está confinada no apêndice, junto com a grande bibliografia, e os tecnicismos são pouco invasivos. A escrita, conduzida com mão segura, abre-se a desenvolvimentos narrativos. A pesquisa não se limita aos problemáticos dados factuais, mas se insinua não no ditado dos textos e, especialmente, nas intenções dos protagonistas.

Segue-se daí, embora com cautelas, que o plano "daquilo que aconteceu realmente" é muitas vezes superado, em favor de inferências sugestivas, mas irremediavelmente especulativas. Observações úteis são oferecidas pela análise da práxis administrativa romana, determinada quando possível para governar com o consenso das elites ("A Judeia romana e o trabalho do segundo prefeito").

Mas a reflexão desses critérios não se deixa captar facilmente na história de Jesus. A tradição sobre Pilatos leva a crer que "o prefeito não devia entender a religião judaica": mostram isso os incidentes que se seguiram à introdução em Jerusalém de estandartes com a efígie de Augusto (Flávio José, Guerra Judaica, 2.9.2-4) ou à colocação no Templo de escudos dourados em honra de Tibério (Filo de Alexandria, Embaixada a Caio, 38, 299-305).

Schiavone, justamente, investiga o que Pilatos podia saber sobre a história e a cultura da Judeia: é possível, mas não certo, que chegasse a ele o eco da historiografia grega, que, depois, foi inervar a ácida digressão de Tácito (Histórias, 5. 2-10). Desconhecidas as suas ideias: o fato de que ele compartilhava o pragmático ceticismo da aristocracia romana, porém, é razoável.

Quem vem em socorro é a imaginação, que é a virtude do historiador, a ser usada com prudência. Posto que "não sabemos em que língua Pilatos e Jesus se falavam", a hipótese de que o prefeito sabia o aramaico (como no filme A Paixão) é provável que assim permaneça. As incertezas sobre o desdobramento dos eventos no pretório de Jerusalém são, como se sabe, muito fortes: para reconstruir e interpretar as atitudes do prefeito, Schiavone baseia-se em um plano "psicológico", velando o ditado com frequentes fórmulas atenuativas.

Na seção central do livro, dedicada ao interrogatório (não um "processo") de Jesus, encontra-se uma sequência de "é razoável supor", "é provável", "não há razão para não", "não há motivo para duvidar". Isso leva para além do limiar do cognoscível e do historicamente verificável. As reflexões sobre Jesus e a sua "certeza solitária, exposta à dúvida e à angústia" sobre Pilatos, de que "é possível que ele já tivesse ficado impressionado com a pregação de Jesus", cuja personalidade "devia ter lhe parecido, no confronto direto, como perturbadora e inesperada", acompanham uma reconstrução indiciária, que chega a tons às vezes pensativos: o diálogo entre os dois "é de um poder simbólico sem iguais" e lança há séculos uma luz "brilhante de modo quase insuportável".

Mas, depois de definir essa cena como "historicamente persuasiva", Schiavone acrescenta enigmaticamente: "O fato de que ela também tenha sido acessada – nos fatos e não só na memória e, além disso, nos termos em que a contamos – também poderia ser, dentre todas as coisas, o menos importante".

O leitor fica perplexo: entende-se que o conteúdo de "verdade" do assunto é indescritível. Sequências de verbos possibilistas no futuro marcam passagens importantes: o grito dos sacerdotes diante da proclamação de Jesus como filho de Deus "certamente deve ter surpreendido o governador", que "deve tê-lo comparado instintivamente ao comportamento do prisioneiro" e "deve ter se perguntado" se Jesus era um dos "chamados homens divinos" tão frequentes no Oriente.

O fato de que as questões do judaísmo eram estranhas à mentalidade romana, que Pilatos não estava "em sintonia com a religião judaica" é credível, como se disse; mais difícil é pensar que ele "imediatamente tinha se dado conta da diversidade de Jesus": esse é o sentido do relato evangélico, que, porém, tem mais a ver com a memória ou com a teologia do que com os fatos.

As sutis exegeses propostas por Schiavone oscilam entre a pesquisa histórica e a filosofia, se não a teologia. Certamente, o relato dos Evangelhos não é um "documento", mas um emaranhado de memórias orais, profecias "cumpridas", reelaborações posteriores.

Coerentemente, Schiavone não atribui valor histórico absoluto aos eventos que ele analisa. E o caráter não confessional do seu discurso permite algumas provocações. Assim, sobre a cena do Ecce homo: "Não se pode acreditar em uma só palavra desse relato". No fundo, está a crítica neotestamentária: o relato da paixão foi curvado pela tradição em uma forma que agravava a responsabilidade judaica e suavizava a romana.

Schiavone atribui absoluta importância a eventos dos quais também convida a duvidar radicalmente. Veja-se a famosa pergunta de Pilatos sobre a essência da "verdade" (João 18, 38). "Verdade" é uma palavra tipicamente joanina, embora se hesita a considerar a frase apenas como uma "falsificação da memória".

Às vezes, o discurso se torna inspirado: "na sua essencialidade sem adornos, a prosa de João chega a resultados de grande eficácia expressiva. Nada além de um corpo ferido e ultrajado; e, nesse corpo, a majestade e a onipotência de Deus, tolices dos carnífices".

Percebe-se um movimento alternativo, que segue e, depois, rejeita a lógica do texto analisado: em uma pergunta de Pilatos a Jesus, capta-se "uma explícita ressonância metafísica", própria de um homem que, "não sem apreensão, está intuindo a presença do desconhecido diante dele".

Mas Pilatos "realmente a pronunciou"? Muitas coisas levam "considerar isso possível". Mas, em torno da posterior resposta de Jesus, anota-se: "é possível que Jesus nunca tenha pronunciado essas palavras". A calibradíssima, mas explosiva oscilação da argumentação envolve também a filologia. A pergunta de Pilatos aos judeus ("Mas eu vou crucificar o rei de vocês?": João 19, 15) talvez seja uma afirmação: "Aquele ponto de interrogação provavelmente é o acréscimo de um copista zeloso demais, se não foi desejado pelo próprio autor do quarto evangelho". A filologia é desestruturada: se for verdadeira a primeira hipótese, o texto poderia ser correto, mas é estranha a ideia de "corrigir" João no caso da segunda alternativa.

His fretus, o autor chega ao centro do livro: posto que a condenação de Jesus era "necessária" para o cumprimento do plano messiânico, entre o acusado que não se defendeu e o magistrado que não queria entregá-lo à morte, estreitou-se uma espécie de "pacto" sobre o qual o evangelho de João, porém, se cala. Mesmo nesse caso, uma interpretação mais filosófica do que histórica.

Além disso, Schiavone admite que "a impressão de uma insuperável ambiguidade" que emana da figura de Pilatos, "quase como se a sua figura não pudesse ser outra coisa que o indefinido, a névoa".

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