Encontro em Marrakesh visa provar que o ISIS não é o verdadeiro rosto do Islã

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25 Janeiro 2016

Na década de 1960, a banda de rock Crosby, Stills and Nash lançou um hit chamado “Marrakesh Express” que se referia à famosa cidade marroquina. Hoje, os muçulmanos moderados estão se preparado para lançar um novo Marrakesh Express, na esperança de que ele vai conseguir muito mais coisas do que simplesmente tocar nas rádios e atrair fãs.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 21-01-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

De 25 a 27 de janeiro, cerca de 300 estudiosos e juristas islâmicos, muftis e ministros governamentais da religião de países islâmicos vão se reunir em Marrakesh representando o Paquistão, Irã, Nigéria, Arábia Saudita, Turquia e Egito, além do país anfitrião, o Marrocos.

O objetivo é emitir uma declaração insistindo que a proteção das minorias religiosas, incluindo os cristãos, tem raízes profundas na lei islâmica tradicional e, portanto, que o ISIS e as forças a ele alinhadas constituem uma aberração. Os organizadores afirmam que Marrakesh vai ser a primeira cúpula desse tipo a se centrar na lei islâmica e minorias religiosas na história de 1.400 anos do Islã.

O encontro pretende afirmar que a Carta de Medina, emitida pelo Profeta Maomé em 622 d.C. e que uns acreditam ser a primeira constituição escrita na história do mundo, requer a proteção da liberdade religiosa e dos direitos das minorias.

O evento está sendo promovido pelo Reino do Marrocos e o Fórum para a Promoção da Paz nas Sociedades Muçulmanas, organização sediada nos Emirados Árabes Unidos e presidido pelo Xeique Abdullah bin Bayyah, estudioso natural da Mauritânia conhecido por sustentar a ideia de tolerância com base nos textos jurídicos islâmicos tradicionais.

Na quinta-feira (21 de jan.), os organizadores concederam uma coletiva de imprensa para discutir a iniciativa.

Hamza Yusuf, um dos fundadores da Zaytuna College em Berkeley, Califórnia, e aluno de Bayyah, enfatizou a importância de sua liderança.

“No mundo sunita, ele provavelmente é o principal estudioso do direito constitucional, sendo um grande sabedor de como a legislação se dá na tradição islâmica”, disse ele, observando que Bayyah esteve entre os autores da constituição mauritana.

“Ele está profundamente abalado com o que vem acontecendo no mundo islâmico”, disse Yusuf, apontando em particular para a opressão de yazidis no Iraque, de judeus no Iêmen e de cristãos na Síria e no Egito.

No caso da cúpula de Marrakesh, fazer com que inciativas desse tipo tenham um maior impacto no mundo islâmico se torna um pouco mais difícil de se alcançar. Além do Marrocos, nela participam um ex-juiz da Suprema Corte paquistanesa e o chefe do departamento de estudos islâmicos da Academia de Ciências do Irã.

Isso posto, nem o Paquistão nem o Irã se encontram no topo das listas de sociedades-modelo em termos de respeito à liberdade religiosa.

O Paquistão possui leis severas contra a blasfêmia, normalmente usadas para suprimir e perseguir não muçulmanos, incluindo Asia Bibi, agricultora católica analfabeta e mãe de cinco que atualmente enfrenta a pena de morte. No Irã, apesar do perfil moderado de um governo sob o comando de Hassan Rouhani que chegou ao poder em 2013, pastores cristãos enfrentam penas de morte com base em uma nova acusação criminal de “difundir a corrupção sobre a terra”.

No entanto, jamais irá haver algum movimento sério dentro do Islã em direção a um maior pluralismo que não envolva estes dois países, o que torna a presença de representantes gabaritados como estes dois em Marrakesh algo animador.

Também animador é o fato de que os representantes das minorias religiosas dentro das sociedades predominantemente muçulmanas igualmente estarão presentes, para garantir que suas vozes sejam ouvidas. Entre estas pessoas, estão um cristão e ministro iraiquiano chamado Khalid Amin Roumi e o Bispo Munib Younan, presidente da Igreja Evangélica Luterana na Palestina.

Do lado católico, estará participando o cardeal americano, Theodore McCarrick, bispo emérito, que normalmente atua como um “que resolve problemas” diplomáticos informal e que tem sido um líder no diálogo inter-religioso há décadas. Os organizadores dizem que convidaram o cardeal francês Jean-Louis Tauran, presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, e esperam ter representantes do Vaticano.

“Seria ótimo se nós pudéssemos ter um encontro com o Papa Francisco para apresentar a declaração a ele”, disse o Imã Mohamed Magid, do Centro Adams, na Virgínia do Norte, que agradeceu à Igreja Católica por “se manter ao lado dos muçulmanos nos momentos difíceis, abordando a islamofobia”.

Antes de concluir, vejamos mais de perto três pontos.

Em primeiro lugar, os muçulmanos moderados têm organizado encontros e emitido declarações como esta há algum tempo, sem surtir grande efeito. Podemos pensar, por exemplo, na iniciativa Verbo Comum (“Common Word”) lançada pelo príncipe Ghazi bin Muhammad, da Jordânia, depois da palestra polêmica de 2006 do Papa Bento XVI em Regensburg, Alemanha, que foi interpretada como se estivesse relacionando o Islã com a violência.

Apesar da cobertura midiática e de uma impressionante defesa dos participantes muçulmanos, a iniciativa dificilmente evitou o aumento do ISIS ou da difusão do radicalismo islâmico, e não está claro como o encontro de Marrakesh irá conseguir algo diferente disso.

Em segundo lugar, e sem desrespeitar, o Marrocos não é um dos centros do poder no mundo islâmico. Se fosse, digamos, o Egito, a Arábia Saudita ou o Irã que estivesse promovendo este esforço, provavelmente atrairia mais a atenção geral.

Em terceiro lugar, a Carta de Medina pode ser um fundamento problemático para os conceitos do século XXI sobre a liberdade religiosa. Embora ela ainda proteja o direito das minorias em terras islâmicas a praticarem suas crenças e a vierem em paz, alguns historiadores a interpretam como um documento precursor do sistema que colocou tais minorias num status permanente de segunda classe.

(Na quinta-feira, Yusuf disse que Bayyah não compartilha dessa opinião, argumentando que a Carta representa uma alternativa mais “igualitária” ao sistema).

Se fosse preciso um outro motivo para o ceticismo, também poder-se-ia notar que a economia do Marrocos depende grandemente do turismo, e uma boa campanha de relações públicas em torno de uma iniciativa como essa poderia fortalecer a sua reputação como um paraíso seguro a visitantes estrangeiros.

Disso tudo isso, o fato continua sendo o de que toda vez que alguma atrocidade do ISIS (ou inspirada nesse grupo), seja o seu ataque terrorista em Paris, seja o abate na Síria, os países ocidentais exigem, unanimemente, que os muçulmanos moderados, aqueles que reivindicam que o islamismo é uma religião da paz, façam alguma coisa.

Em Marrakesh na próxima semana, estes muçulmanos tentarão fazer algo, e com certeza o que farão merece ser conhecido e incentivado.

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