Pós-humano - uma aventura trágica? Artigo de Gilberto Dupas

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20 Abril 2007

"Como será uma civilização que pretenda superar o humano? Que avaliação faremos no futuro sobre as decisões que estamos tomando agora na biogenética, na nanotecnologia e na robotização, reguladas apenas pelo lucro e pelas leis de mercado? Terá sido um progresso ou uma aventura trágica? ", pergunta Gilberto Dupas,  presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI), coordenador-geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP e autor de vários livros, entre os quais O Mito do Progresso (Editora Unesp), em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 21-04-2007. Segundo Dupas, "os riscos e os impactos de natureza ética e psicossocial são inúmeros, mas a indústria médica já está fabricando produtos de modificação genética em grande escala e o mercado os está impondo. Que transformações podem atualizar nossos hardwares e softwares, mantendo-nos, porém, na condição essencialmente humana? E quais seriam os riscos adicionais de se ir além? Trata-se de enfrentar tensões e integrações entre corpo e cultura, ou seja, máquina (hardware) e técnica (software)".

Pós-humano é o tema de capa da revista IHU On-Line, no. 200, de outubro de 2006, disponível nesta página.

Eis o artigo de Gilberto Dupas.

"Vários cientistas consideram o corpo humano um hardware falho e ultrapassado e propõem um aperfeiçoamento radical dele, em direção ao que chamam de pós-humano. Algumas razões são alegadas para essa atualização, que ocorreria pouco a pouco, modificando o organismo mediante a incorporação de próteses para lidar com as novas exigências. Uma delas é que o modelo econômico atual tende inexoravelmente a destruir nosso ecossistema original, o que é totalmente verdade.

O problema é que, hiper-realistas ou conformados, eles acham que - incapaz de mudar o sistema de produção consumista, sucateador e poluidor - nossa civilização desistirá de corrigir o modelo econômico e admitirá que precisaremos, no futuro, viver fora de nosso hábitat, que estamos liquidando. Outros cientistas chegam a alegar que, como eventual única espécie inteligente no universo, temos a responsabilidade cósmica de sobreviver. Daí acham ser nossa obrigação garantir a possibilidade de expansão para outros planetas. Isso exigiria a criação de melhores hardwares humanos para enfrentar longas viagens espaciais e árduas condições de vida alhures.

A segunda razão alegada combina narcisismo com prepotência e inaugura aquilo que alguns estão chamando de um novo tipo de eugenia. Na eugenia negativa havia a purificação da raça por meio da eliminação daqueles caracterizados como “humanos deficientes”. Na eugenia positiva, existe a possibilidade de se “melhorar” o patrimônio genético por meio de transformação nas células, obtendo uma segunda linha de evolução do humano.

Como será uma civilização que pretenda superar o humano? Que avaliação faremos no futuro sobre as decisões que estamos tomando agora na biogenética, na nanotecnologia e na robotização, reguladas apenas pelo lucro e pelas leis de mercado? Terá sido um progresso ou uma aventura trágica? Os riscos e os impactos de natureza ética e psicossocial são inúmeros, mas a indústria médica já está fabricando produtos de modificação genética em grande escala e o mercado os está impondo. Que transformações podem atualizar nossos hardwares e softwares, mantendo-nos, porém, na condição essencialmente humana? E quais seriam os riscos adicionais de se ir além? Trata-se de enfrentar tensões e integrações entre corpo e cultura, ou seja, máquina (hardware) e técnica (software).

A questão soa estranha se colocada em termos de oposição, transformando máquina ora em servo, ora em senhor. Somos o que somos porque estamos conectados, de um lado, ao desejo (economia libidinal), de outro, ao socius (economia política). Os nanotecnólogos projetam a fusão do homem à máquina. Microrrobôs capazes de se autoduplicarem circularão pelo corpo, se unindo aos tecidos orgânicos para deter processos de envelhecimento ou estimular funções do cérebro. Essas inteligências superiores ultrapassariam as limitações do hardware humano. Já ao nosso software cerebral se prenuncia uma espécie de imortalidade com um aperfeiçoamento sem limites.

Do ponto de vista neoliberal, essas novas técnicas são vendidas como uma possibilidade de aumento da autonomia pessoal. No entanto, Jünger Habermas pensa que a manipulação genética poderá alterar nossa autocompreensão enquanto seres da espécie, atingindo fundamentos normativos e incontornáveis da nossa integração social. As técnicas genéticas que visam à seleção e à alteração das características humanas podem abalar o modo como lidamos com a herança sob nossa responsabilidade e a estrutura geral da nossa experiência moral, pois afetam a forma como nos enxergamos enquanto autores responsáveis por nossa própria história de vida, nascidos sob as “mesmas condições”. Que efeitos implantes de chips e a progressiva robotização do homem terão sobre sua autocompreensão? Ao decidir um programa de intervenção genética sobre um futuro filho, os pais modelarão o novo ser à sua vontade, sem conceder a ele nenhuma possibilidade de escolha ou reconsideração. Esse indivíduo saber-se-á design de outra pessoa: por exemplo, um jovem descobrirá que foi programado para ser homem, quando hoje desejaria ser mulher ou vice-versa. Os psicanalistas que se pronunciem sobre as conseqüências.

O significado das invenções e novidades científicas só aparece quando de sua construção como objeto histórico. Leonardo da Vinci esperava que o avião - conquista milagrosa da evolução tecnológica - fosse capaz de buscar a neve nas altas montanhas e trazê-la para refrescar as cidades sufocadas pelo verão. Os bombardeiros de hoje são a antítese dessa utopia. Os cientistas do Projeto Manhattan tinham a convicção de que a bomba atômica nunca seria utilizada sem ampla consulta popular. Truman decidiu sozinho as tragédias de Hiroshima e Nagasaki. É inútil tentar atribuir inocência à técnica. Ela pode ser muito útil ou profundamente destruidora, dependendo de como a utilizamos e a serviço de que interesses ela esteja.

Por isso é preciso manter uma crítica aguda sobre o desenvolvimento atual da tecnociência, atrelada que ela está a um discurso hegemônico que beneficia o lucro das grandes corporações e não necessariamente os objetivos sociais da promoção humana. Só assim poderemos evitar que esperanças se transformem em tragédia. Salvar nosso planeta para as gerações futuras, usando o conhecimento para garantir um ecossistema renovado e um mundo mais justo, é a prioridade óbvia, ainda que ao custo de alterar profundamente um sistema econômico pujante, mas que tem conduzido a tensões insuportáveis. O pós-humano ainda deve ficar nos laboratórios e na ficção científica."

 

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