Capitalismo cognitivo e trabalho imaterial. Entrevista com Maurizio Lazzarato

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06 Dezembro 2006

Em entrevista à Agência Carta Maior, 5-12-2006, o filósofo e sociólogo italiano Maurizio Lazzarato, radicado na França fala sobre o trabalho imaterial, capitalismo cognitivo, futuro das esquerdas, pós-socialismo e sobre seu trabalho com artistas desempregados na França.

A revista IHU On-Line publicou uma entrevista com Maurzio Lazzarato disponível nesta página.

Maurizio Lazzarato é sociólogo independente e filósofo italiano que vive e trabalha em Paris onde realiza pesquisas sobre a temática do trabalho imaterial, a ontologia do trabalho, o capitalismo cognitivo e os movimentos pós-socialistas. Escreve também sobre cinema, vídeo e as novas tecnologias de produção de imagem. Junto com o Grupo Knowbotic Research, elaborou o projeto IO_dencies/travail immatériel para a Bienal de Veneza. Além disso, participa de ações e reflexões sobre os “intermitentes do espetáculo” no âmbito da CIP-idf (Coordination des intermittents et précaires d`Île-de-France), onde coordena uma importante “pesquisa-ação” sobre o estatuto dos trabalhadores e profissionais do espetáculo e do mundo das artes, além de outros trabalhadores precários. É um dos fundadores da revista Multitudes.

Maurizio Lazzarato está no Rio de Janeiro, onde lançará seu novo livro, As Revoluções do Capitalismo, e participará do Seminário Capitalismo Cognitivo nos dias 5, 6 e 7 de dezembro, no Centro Cultural Banco do Brasil, sob a curadoria do cientista político Giuseppe Cocco, e que reunirá 10 conferencistas de várias áreas, do Brasil e da Europa, que atuam pesquisando os desdobramentos do capitalismo contemporâneo. Ao longo dos três dias, o encontro discutirá os temas A natureza do conflito no Capitalismo Cognitivo, Trabalho e empresa na era do Capitalismo Cognitivo e Trabalho, Saber e Cultura, respectivamente.

Há uma nova ligação entre capital, conhecimento e tecnologia? O que é o “Capitalismo Cognitivo”?

Capitalismo sempre foi a relação entre a tecnologia, o saber e o próprio capital. O que muda é o tipo de tecnologia e de saber envolvidos na relação. São tecnologias novas que concernem à mente, tecnologias biológicas. E o saber mudou porque diz respeito a essas relações. O Capitalismo Cognitivo trabalha contemplando todas essas relações e saberes. Também sobre as relações cognitivas, de opinião, sobre o trabalho da mente, sobre formas de comunicação. Em linhas gerais, é isso.

Como a hipótese do “capitalismo cognitivo” contempla a mudança radical das formas de produção, acumulação e organização social que as novas tecnologias promovem?

No dito capitalismo clássico, o que estava no cerne era a fabricação do objeto. Hoje, antes de fabricar objeto é preciso fabricar o desejo e a crença. Por exemplo, vamos pensar na fabricação de um par de tênis. O calçado é produzido na China, onde o trabalho dos operários custa 2% do total. Somando o custo de tecnologia e transporte, envolvemos 50% de investimento. O restante do investimento é feito em marketing, publicidade, design, que é feito no Ocidente. O capitalismo cognitivo convive com o capitalismo clássico, a fábrica, o serviço. E há conflito entre os dois. Inclusive entre as subjetividades diferentes que vivem com capitalismos diferentes. O problema político sobre o qual é possível refletir. Não é a tecnologia que impõe. Como disse Felix Guattari, é a máquina social que produz a máquina tecnológica.

O estudioso americano Jeremy Rifkin sustenta, em seu livro A era do acesso, que o capital cognitivo imaterial desempenha um papel central na criação de valor e representa o componente mais importante do capital empresarial. Segundo André Gorz, a atividade laborativa fundada no saber já não pode ser medida por horas de trabalho e observamos também que as demais relações trabalhistas tradicionais se aplicam cada vez menos. É possível supor uma nova sociedade baseada em novas relações entre capital e trabalho? Como ela seria? A economia cognitiva antecipa a necessidade de uma outra economia, de outra sociedade?

Partindo de Gorz, ainda temos o conceito de trabalho fundado sobre a dinâmica do trabalho industrial, sobre o qual o indivíduo traz para a produção. Isso era necessário no início do capitalismo para fazer com que fosse possível reconhecer o que os operários traziam para a produção. Hoje, esse discurso corre o risco de se voltar contra os próprios trabalhadores. O debate que há sobre a Previdência na Europa hoje é um exemplo disso. A idéia é a de que as aposentadorias são recolhidas a partir das contribuições individuais dos próprios trabalhadores. Na medida em que o número de trabalhos diminui, o que se diz é que tem queda na Previdência. Então, é preciso aumentar o tempo de trabalho. E ninguém nunca afirma que, ao passo que diminui o número de trabalhadores empregados, aumenta a produtividade do trabalho. Se, por exemplo, temos a diminuição dos trabalhadores empregados, mas a produtividade é multiplicada por 2, a situação fica a mesma. De onde vem essa nova produtividade? Da tecnologia, do conhecimento, da inteligência, ou seja, do Capitalismo Cognitivo. Isso que não é possível mensurar em horas de trabalho. Para falar disso é preciso levar em conta as relações de poder. Na Economia Cognitiva isso já está vigorando há muito tempo. Só que as relações de poder fazem com que seja só o capital a se aproveitar disso tudo. Ou seja, está tudo organizado em cima do trabalho do indivíduo mas é o setor financeiro que captura tudo.

O que significa o conceito de gestão de conhecimento no contexto do “capitalismo cognitivo”? Até que ponto a gestão do conhecimento seria uma camuflagem para formas mais sofisticadas de controle?

O novo tipo de gerência é representado pela gestão do capital humano. Cada trabalhador tem que ser o empreendedor dele mesmo. Uma ideologia que diz que cada trabalhador tem que ser responsável por ele mesmo. Se está desempregado o problema é dele. Ele tem que transformar os investimentos sociais em gastos para o capital humano. Todas as relações sociais são vistas como sendo funcionais ao aumento do capital humano do indivíduo. A escola, o serviço, a aposentadoria, a saúde, não são mais serviços sociais mas investimentos dos indivíduos e, nessa lógica, têm de ser privatizados. A forma de controle passa pelo fato de o indivíduo tornar-se explorador dele mesmo.

Qual o papel das esquerdas hoje? Para onde caminha a esquerda mundial? É preciso romper com o conceito de centralidade do trabalho que permeia todo o pensamento marxista? Onde nos levará o pós-socialismo?

Posso falar só da esquerda da Europa, que continua tendo uma concepção fundada sobre o trabalho individual. Por exemplo, sobre questão do financiamento da Previdência é evidente que deveria ser pensada através de outras formas de financiamento , de capturar a riqueza social (o que o capitalismo financeiro sabe fazer muito bem!). A esquerda permanece com o conceito de produção individual, continua a defendê-lo. É a mesma coisa ao que diz respeito ao emprego. É claro que, se a produtividade ultrapassa o trabalho individual, há mais de produção excedente, que deveria, aliás, ser distribuída. Deveríamos pensar a distribuição dessa riqueza não apenas através do acesso ao emprego. O que é esquisito é que o que acontece na Europa é exatamente os setores do Capitalismo Cognitivo terem excedente de mão-de-obra com necessidade de valorização. Então, há pesquisadores demais, artistas demais, gente demais precarizada. E a única coisa que a esquerda propõe é um trabalho para todos estes “demais”, quando seria necessário propor uma Renda Universal. É por isso que lutamos! A lógica da precarização e pauperização não tem como causa apenas as políticas liberais mas essa postura da esquerda.

O que o senhor tem a dizer sobre o projeto de lei, no qual trabalha atualmente na França, que contempla uma certa estabilidade social aos “Intermitentes do espetáculo”?

Foi assim que surgiu o movimento dos Intermitentes do Espetáculo contra justamente o projeto de lei do ministério da Cultura da França prevendo a redução do salário-desemprego da classe cultural. Em 2002, na explosão do conflito, o ministro Aillagon, da Cultura, alegou que, como havia companhias teatrais demais, técnicos demais, cenógrafos demais, atores demais, enfim, intermitentes demais, em relação à lógica da indústria cultural, era preciso cortar o seguro desemprego. Entre as alegações, está a de que os artistas não se comportam como os empreendedores deles mesmos e usam de maneira autônoma as políticas sociais. Nestes 3 anos, estamos brigando para que não seja feita a lógica governamental que é a de eliminar 30%, cerca de 36 mil indivíduos que recebem o seguro-desemprego. Neste meio-tempo, o sindicato e a esquerda e o novo ministro, Donnedieu De Vabre, decidiram implementar a Política do Emprego Cultural. O Estado subsidia sim o indivíduo desde que ele esteja permanentemente em cartaz, em temporada, trabalhando o tempo inteiro. Veja bem: trata-se da mesma postura do ministro da Cultura Aillagon com outra aparência! Isso é o que eles chamam de “lógica do emprego”. Seja do lado do patrão ou dos que devem defender os trabalhadores, tudo aponta para a precariedade da valorização do profissional. Um mercado de trabalho em expansão, que poderia ser o do Capitalismo Cognitivo, é quebrado. Portanto, nossa luta já dura 4 anos e a reforma do Estatuto da Cultura nunca foi aplicada pois a luta impôs ao Estado um fundo para proteger esses 36 mil que tendem a ser excluídos. Amanhã [6 de dezembro] haverá nova mobilização nacional contra isso. Recentemente, foi publicado no Le Monde artigo do economista Daniel Cohen apontando que esse tratamento que é dado ao Estatuto da Cultura, de proteção dos trabalhadores, também deveria ser estendido a toda a população de empregados, que assim seriam protegidos por um salário fixo. Só assim é possível pensar uma saída para a flexibilidade do trabalho e não ir contra ela.

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