Pregadores mirins: os ''pastorzinhos'' venerados como santos

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22 Dezembro 2011

"O Espírito Santo está aqui. Vocês o ouvem?". A vozinha vibrante é a de um menino loiro, um "pedacinho de gente" que salta no púlpito da igreja pentecostal de Grenada, Mississippi, no que parece ser uma brincadeira, a imitação de um adulto. Mas depois a voz se torna gutural, profunda. "Vocês o ouvem? Rezem. Rezem. Rezem....". Os adultos ao redor dele se ajoelham. Choram. Batem no peito. O menino quase grita aos berros. "Arrependam-se. Rezem...". Alguns desmaiam. Alguns batem palmas. O menino também bate palmas. Por hoje, acabou. Vão em paz.

A reportagem é de Anna Lombardi, publicada no jornal La Repubblica, 21-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Kanon Tipton (foto) tem quatro anos e é o mais jovem pregador do mundo. Está no palco, perdão, no púlpito, desde quando era bebê. Ele tinha apenas 18 meses, quando este filho e neto de pregadores, engatinhando no palco onde o seu avô tinha recém-acabado de terminar um sermão, pegou um microfone nas mãos e começou a balbuciar. Repetindo aquela palavra: Pray, rezem, entre os aplausos da congregação. Uma performance que alguém filmou com o celular e colocou no YouTube: transformando o bebê em um fenômeno da rede – 4 milhões de acessos na primeira semana – o que, para seus pais, é uma revelação.

Quem conta a história de Kanon – e a de outras crianças "em missão em nome de Deus" – é um documentário da National Geographic. Crianças veneradas como santos, que cheiram também a um pouco de enxofre, já que, em torno deles, desencadeiam-se estranhos giros de negócios feito de ofertas espontâneas, é claro, mas também de vendas de DVDs, fotos, livros. E das muitas pregações em que, para garantir um lugar no Paraíso, é necessário adquirir um bilhete.

Como no caso de Terry Durham, taumaturgo mirim de 16 anos que vive em Jacksonville, Flórida. Sua mãe o abandonou ainda de fraldas, com o irmão gêmeo, para a sua avó. E foi justamente a avó que reconheceu os seus poderes quando Terry tinha apenas quatro anos: e o fez ser ordenado "pastor" aos seis anos por uma congregação de bispos pentecostais, que também lhe atribuíram um nome artístico: Little Man of God, homenzinho de Deus.

Ele se descreve como tímido, com o único sonho – um dia – de cantar como Michael Jackson. "Mas quando eu subo no púlpito – diz –, o Espírito Santo me possui. Eu não sei o que faço, o que eu digo". Para hospedar as suas performances, tentaram até alugar o Kodak Theatre de Los Angeles, o teatro do Oscar. No fim, deslocaram o evento para um teatro mais escondido: poucos tinham desembolsado as centenas de dólares necessárias.

Um pouco mais ao sul, no Rio de Janeiro, vive Matheus Moraes (foto), 12 anos, um menininho moreno e de cabelos encaracolados, que distribui bênçãos e milagres nas favelas. Seus pais dizem que ele adquiriu os seus poderes depois de uma longa doença. Ele começou a catequizar os rejeitados da megalópole brasileira aos quatro anos. E agora a sua presença é muito requisitada nas prisões, onde os presos dizem receber um grande conforto com as suas visitas de oração.

Kanon, Terry Matheus certamente não são os únicos. Tente digitar no YouTube as palavras "baby preacher": vão se deparar com o vídeo de uma pequena pregadora africano de dois anos. Com os sermões da brasileira Ana Carolina Lucena Dias, de 14 anos. Com o espanhol Elijha, de quatro anos. Com as pregações balbuciantes de Elizabeth Kaneshiro, de apenas três anos. Porque ninguém sabe quantos são, efetivamente, os pregadores mirins, e não existem dados precisos sobre o fenômeno. Salvo que está em crescimento. Tanto é verdade que, em Louisville, Kentucky, existe até um festival: três dias de sermões, abertos também a quem tem mais de 16 anos.

O fenômeno também não é novo. Ainda nos anos 1940, Marjoe Gortner (foto) (o seu nome deriva do acrônimo de Maria e José, no inglês), tinham alcançado uma certa notoriedade depois de ter contado, com apenas três anos, que tinha visto o Senhor enquanto tomava banho. Ele começou a catequizar os fiéis em todos os Estados Unidos, celebrando até casamentos durante uma década. Até que seu pai fugiu levando embora todo o dinheiro.

Marjoe acabou em uma comunidade hippie. Até 1971: quando contou aos diretores de cinema Howard Smith e Sarah Kernochan a sua história feita de mentiras construídas e calculadas, ameaças, horas e horas de testes e repetições forçadas daquilo que diria durante os sermões. Smith e Kernochan fizeram um filme a partir disso, Marjoe justamente: que, em 1972, ganhou o Oscar de melhor documentário.

"Não há nada de mal em ajudar uma criança que viu a luz a melhorar as suas potencialidades", diz agora, candidamente, Damon Tipton, o pai do pequeno Kanon. "Nós o ajudamos a valorizar o que ele já tem dentro dele. Se amanhã ele pedir para não subir mais ao púlpito, eu não vou forçá-lo. Mas ele é feliz com aquilo que faz. É inspirado". Pelo Pai Nosso ou pelo pai dele?

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