Bento XVI visita os encarcerados

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19 Dezembro 2011

Ratzinger visita a penitenciária de Rebibbia, no subúrbio de Roma: "A superlotação é uma dupla pena". Ele também responde às perguntas dos presos que pedem a anistia e lhe doam uma torta. O abraço com um deles.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no sítio Vatican Insider, 18-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Dos Estados Unidos, surgem rumores incontrolados sobre um agravamento das suas condições de saúde. Mas, na realidade, em Rebibbia, Bento XVI apareceu em ótima forma e transformou a visita pastoral ao Novo Complexo do Instituto Penitenciário Romano em uma ocasião de relançamento da pastoral carcerária. Os presos gritavam em coro "anistia" ao longo da sua passagem.

O pontífice condenou "a superlotação e a degradação" que tornam "ainda mais amarga a detenção". Há 60 anos, Pio XII dirigiu os votos de Natal aos detidos por meio de uma mensagem de rádio, e ainda hoje é exposta em muitas casas a foto de João XXIII sorridente, abraçado em 1958 pelos presos do Regina Coeli ("Eu sou o seu irmão Giuseppe", ele se apresentou). Se é verdade que a civilização de um país pode ser medida pelas condições dos cárceres, também é verdade que, do calor das visitas aos institutos penitenciários, surge a humanidade de um pontificado.

Hoje, último domingo do Advento, Bento XVI faz o bis em uma penitenciária, depois do dia transcorrido, há quatro anos, na prisão juvenil em Casal Del Marmo e, por uma feliz coincidência, traz de presente a Rebibbia o decreto "esvazia-prisões". Não é justo que os presos devam padecer "uma dupla pena". Por isso, o papa pede que as "instituições" verifiquem "estruturas, recursos, pessoal" com relação às "exigências da pessoa humana", até mesmo com o recurso a "penas não detentivas".

O momento mais comovente foi o abraço de um detento. Um breve abraço no papa, poucos segundos para dizer, com um fio de voz: "Este é da parte de todos os detentos da Itália". Quem levou essa mensagem ao Santo Padre foi Gianni, o detento que surpreendeu Bento XVI com o seu discurso sobre o significado da confissão e da absolvição. Físico e mãos de boxeador, cabelos grisalhos cortados muito curto e um par de óculos que denunciam a sua paixão pela leitura, Gianni é chamado de "o teólogo" pelos operadores do instituto. "A sua resposta me convenceu muito. O pecado, me explicou Sua Santidade, não tem só efeitos 'verticais', não se refere só ao pecador e Deus, mas também tem efeitos horizontais sobre toda a comunidade", resume Gianni, demonstrando merecer o título recebido.

Mas o evento de hoje permitiu que os presos de Rebibbia falassem sobre os seus problemas e pedissem à ministra da Justiça, Paola Severino, a "anistia". Fiéis ao preceito de Jesus, há séculos, os seus vigários (especialmente quando uniam poder temporal e espiritual) deixam o palácio para levar uma palavra de conforto aos detentos e para verificar a situação em que vivem. Nas pegadas do seu antecessor Roncalli, em 1964, foi Paulo VI quem subiu os três degraus do Regina Coeli, aqueles que, segundo uma antiga lenda, é preciso subir para poder se chamar "romano de verdade". Coube depois ao primeiro bispo estrangeiro de Roma, na metade do milênio, isto é, Karol Wojtyla, realizar no início e no fim do seu pontificado a romaníssima peregrinação à terra carcerária: a primeira vez em 1983, em Rebibbia, para se encontrar com o seu agressor, Ali Agca; a segunda, ao Regina Coeli, durante o Jubileu.

E, dois anos depois, no Parlamento, em plena emergência da superlotação, João Paulo II elevou a voz para invocar um sinal de clemência para com os presos. "Fomos encorajados pelo fato de que, entre seus primeiros procedimentos, o ministro buscou solucionar o problema da superlotação das prisões", disse Gianni, que, depois, se detém nas emoções de um dia tão especial: " Sou um homem de fé. Cresci entre os padres, e a igreja no meu bairro foi, para mim, uma segunda casa. Rezo muito sozinho e peço a Jesus frequentemente que cuide de nós. Rezei muito também por hoje, para que o Senhor me desse a força de falar com o papa. Eu pareço muito forte, corajoso, mas nas últimas noites eu não dormi por causa da emoção".

Uma torta Sacher e um Strüdel: são os presentes simples que os detentos da prisão de Rebibbia ofereceram ao papa. Uma pequena "merenda" que ocorreu lodo depois do encontro na capela da prisão romana: Bento XVI, de fato, fez uma breve visita à estrutura da casa penitenciária, parando por alguns minutos na salinha da cooperativa social, sempre acompanhado pela ministra Severino.

Depois de provar os doces, o papa voltou para a parte externa da estrutura. Bento XVI respondeu às perguntas de seis detentos da prisão de Rebibbia, entre os quais um homem do Benin e um italiano do departamento de enfermagem que mencionou o problema da soropositividade, depois dos discursos introdutórios. O encontro com os presos terminou com a Oração atrás das grades, composta por um dos presos, e com a oração do Pai Nosso e a bênção do papa.

Saindo da igreja, no pátio frontal, Bento XVI abençoou um cipreste plantado em memória à visita. "Um cordial obrigado por esta acolhida. Desejo-lhes um Bom Natal. Sabemos que vamos para a luz de Deus", disse o papa, despedindo-se dos detentos em torno das 11h20. Quem o saudou foi o cardeal Agostino Vallini, vigário do papa para a diocese de Roma, os capelães Pe. Sandro Spirano e Pe. Roberto Guarnieri, o chefe do departamento da Administração Penitenciária, Franco Ionta, e o diretor do instituto, Carmelo Cantone.

Entre os prisioneiros que o saudaram na saída, um pequeno grupo gritaram por "anistia". Significativa foi a frase dirigida pelo pontífice a um detento: "O senhor também disse que falam de modo feroz do senhor. Infelizmente, é verdade, mas também há outros que falam e pensam bem do senhor". O papa sublinha que, na família pontifícia, com as quatro memores domini, muitas vezes se fala dos prisioneiros. "Devemos suportar que alguns falem de modo feroz. Também fazem isso contra o papa – disse Bento XVI –, mas devemos seguir em frente, levantarmo-nos. Eu farei o melhor para convidar a todos a pensar de modo não depreciativo, mas sim humano de vocês".

Além disso, "é preciso pensar que todos podem cair, mas Deus quer que todos cheguem a ele, reconheçam a própria fragilidade, sigam em frente com dignidade e encontrem alegria na vida. Reconheçamos que as passagens obscuras também têm um significado próprio e nos ajudam a nos tornarmos mais nós mesmos e filhos de Deus. O Senhor lhes irá ajudar, e nós estamos perto de vocês".

"Em Rebibbia, Bento XVI fez um gesto que se insere em uma longa tradição de obras de misericórdia dos pontífices, mas algumas significativas referências biográficas o personalizam emotivamente", diz o historiador Giovanni Maria Vian, diretor do L'Osservatore Romano. "Alistado à força e enviado para o leste, a centenas de quilômetros de casa, com menos de 18 anos, Joseph Ratzinger conheceu o internamento e, portanto, compreende perfeitamente o sofrimento que provoca a privação da liberdade", destaca Vian. "Nessa condição de reclusão injusta, ele conseguira um caderno e um lápis para descrever em versos gregos o seu próprio estado de ânimo". Além disso, antes de subir ao sólio de Pedro, Ratzinger prestou serviços por duas décadas na Cúria Romana, onde, sublinha Vian, "era costume desenvolver o apostolado nas prisões romanas, como os secretários de Estado Tardini e Casaroli estavam acostumados a fazer, por exemplo".

Para o papa teólogo e pastor, a chave de leitura está sempre na pregação. "Uma vida sem Deus não funciona, por ser privada de luz", disse Bento XVI ao instituto penitenciário juvenil da capital. "Entre adolescentes marginalizados e além disso estrangeiros, o pontífice reatou os fios da memória e voltou como estudante para a 'Alemanha ano zero', devastada pela loucura nazista e pelos bombardeios dos aliados", comentou Vian. "Em Casal del Marmo, recomendou que se abandonasse o pecado e se optasse por voltar a Deus, percorrendo ao mesmo tempo um processo de libertação interior".

Em Rebibbia, Bento XVI garante: "Podemos estar convencidos de que o nosso governo e os responsáveis farão o possível para melhorar a situação". E assegura: "Eu vim especialmente para lhes mostrar a minha proximidade pessoal e íntima, mas certamente esta visita pessoal a vocês também é um gesto público que lembra aos nossos concidadãos e ao nosso governo que há grandes problemas e dificuldades nas prisões italianas".

O papa também fez referência ao ministro da Justiça italiano, sublinhando: "Ouvimos o ministro da Justiça, como ele sente com vocês a sua realidade. Podemos estar convencidos de que o nosso governo e os responsáveis farão o possível para melhorar a situação e lhes ajudar a encontrar uma boa realização da justiça que lhes ajude a voltar para a sociedade com toda a convicção da sua vocação humana e todo o respeito que ela exige".

O pontífice ainda especifica: "Enquanto posso, gostaria sempre de dar sinais de como é importante que as prisões promovam a dignidade humana e não a ataquem. Esperemos que o governo tenha a capacidade de responder a essa vocação".

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