O combate à Aids na África e o papel das religiosas

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19 Dezembro 2011

Depois de uma longa carreira na academia, a maioria dos estudiosos esperam por uma aposentadoria livre das demandas do ensino, da escrita e das viagens. Para Margaret Farley, a vida como professora emérita de Ética Cristã da Universidade de Yale significou aprofundar o seu compromisso com o combate à pandemia do HIV/Aids no continente africano.

A reportagem é de Jamie L. Manson, publicada no sítio National Catholic Reporter, 15-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Quem pensaria que eu estaria fazendo este trabalho nesta fase da minha vida?", disse-me Farley durante uma recente entrevista em seu escritório na universidade. "O que eu aprendi, porém, é que, quando você entra nesta estrada, você não quer sair".

Farley encontrou o caminho para este trabalho aparentemente por acaso. Em novembro de 2001, a USAID, uma organização não governamental (ONG), estava planejando um simpósio internacional como parte do Dia Mundial da Aids. O foco era sobre o papel das comunidades religiosas na resposta à questão do HIV/Aids global.

Quando um dos principais conferencistas teve que cancelar sua presença, com apenas algumas semanas de antecedência, os organizadores do simpósio viram-se lutando por um substituto adequado. Farley, uma renomada teóloga moral de renome internacional e Irmã da Caridade, era uma substituta ideal.

Os membros da equipe do USAID ficaram tão comovidos com o discurso de Farley, que perguntaram se ela poderia oferecer um estudo mais aprofundado da pandemia africana do HIV/Aids. Embora Farley tinha sido tocada pessoalmente pela Aids, tendo perdido um querido sobrinho por causa da doença alguns anos antes, ela ainda não havia assumido essa questão como um problema global.

Farley recrutou professoras e diversas alunas (incluindo eu) da Yale Divinity School para ajudá-la a discernir a iniciativa mais eficaz. Elas decidiram organizar uma consulta que reunisse mulheres africanas de 50 países diferentes para discutir a dor e a luta que elas enfrentavam em sua batalha contra o HIV/Aids.

"Quisemos nos focar nas mulheres porque elas carregam uma parte desproporcional do fardo da pandemia. Elas não são apenas as mais vulneráveis à infecção, mas também atuam como cuidadoras primárias dos que estão infectados", disse ela.

Na África subsaariana, as mulheres representam 60% das pessoas com o vírus HIV.

A consulta foi um evento poderoso. Foi uma rara ocasião em que as mulheres de um espectro tão grande de países africanos se reuniu em um lugar para compartilhar suas histórias sobre o HIV/Aids. Durante três dias, em palavras e em rituais, essas mulheres encontraram uma nova solidariedade, enquanto expressavam seus medos, suas angústias e suas esperanças.

Ao longo do evento, Farley encontrou um grande número de mulheres católicas, várias delas religiosas. Ela viu uma oportunidade de ter um impacto concreto sobre a sua batalha contra a pandemia. "As religiosas já têm uma grande rede in loco", disse Farley. Uma comunidade religiosa providenciaria um ponto de entrada ideal para a expansão e a organização do projeto.

"As relações entre irmãs fornecem uma rica fonte de informações, de contatos e de recursos", afirmou. "Elas também são respeitados pelas pessoas a quem e com quem ministram".

Farley convidou a irmã da Misericórdia Eileen Hogan para se juntar a ela nesse esforço. Juntas, elas criaram a All Africa Conference: Sister to Sister (AACSS) (allafrica-sistertosister.org) e receberam o aval das Irmãs da Misericórdia das Américas para responder à profunda necessidade das mulheres africanas.

Mas Farley aponta rapidamente que as irmãs dos Estados Unidos não se veem como mulheres africanas empoderadas. Ao contrário, eles apenas facilitam o empoderamento mútuo das mulheres africanas.

"Essas mulheres são muito fortes, mas não têm recursos", comentou Farley. "E o patriarcado está muito vivo em suas culturas".

O papel essencial de Farley e Hogan é arrecadar fundos e oferecer alguma assistência básica na organização das conferências. "Mas um dos nossos princípios orientadores mais importantes sempre foi o de pôr a agenda das conferências nas mãos dos afetados pela doença", disse Farley.

Elas ajudaram a planejar de três conferências regionais em toda a África, começando com um evento em Nairóbi em 2003. Mulheres de oito países participaram desse primeiro encontro. Farley e Hogan se juntaram a eles, mas foram deliberadas com relação às formas em participariam. "Tudo isso tinha que ser abordado partindo de uma reflexão sobre o que significa trabalhar de forma culturalmente cruzada. Nós não estávamos indo para lá como missionárias ocidentais", lembrou Farley.

Foi um encontro emocionante. "Elas choraram e choraram, porque finalmente conseguiam falar: a Aids está em suas famílias e em sua Igreja. Está em toda parte, mas ninguém falava sobre isso".

Com o encontro concluído, as mulheres africanas reconheceram uma necessidade crucial de mais conferências. "Elas sabiam que, se pudessem romper o silêncio, então ele também seria rompido nos seus ministérios e entre suas colaboradoras leigas".

No ano seguinte, mulheres de seis países se reuniram em Pretória, na África do Sul. Em 2005, a Nigéria foi o local escolhido para a terceira conferência, com a participação de mulheres de cinco países.

A partir desses eventos iniciais, as mulheres africanas passaram a planejar seus próprios encontros. Hoje, mais de 1.000 mulheres de 21 países africanos participam das conferências da AACSS.

"Começamos treinando formadoras, e agora elas fazem o treinamento por conta própria", disse Farley. "Elas escolhem os oradores e projetam o programa para cada evento".

As conferências geralmente duram uma semana e levam em consideração questões relacionadas à sexualidade, justiça de gênero, cultura, saúde e medicina. Durante os dois últimos dias do encontro, as mulheres são guiadas na criação de planos de ação para levar para seus locais de origem.

Farley e Hogan nunca estão na agenda, mas, se convidadas a falar sobre um tema específico, elas organizam uma sessão especial. Naturalmente, Farley é frequentemente convidada a abordar questões acerca de teologia moral. "Eu faço uma apresentação que oferece várias formas de se pensar sobre uma questão ética", afirmou.

Claro, as mulheres também querem saber a opinião de Farley. "Eu lhes digo para debater sobre a questão e depois me dizerem o que elas pensam", disse. "Não importa o que eu acredito. O que é importante é o que faz mais sentido para elas".

O ano que vem irá marcar o 10 º aniversário da AACSS. E, para Farley, alguns dos progressos mais encorajadores na África podem ser vistos ao lado da estrada.

"Quando começamos em 2002, o silêncio reinava em torno da sexualidade e do comportamento sexual. Pouca educação era fornecida", disse. "Agora, enquanto você dirige por muitas partes da África, você vê informações sobre a Aids em outdoors. A mídia e as novas estratégias governamentais africanas romperam os tabus".

A partir de todos os desenvolvimentos que elas já promoveram na educação e na comunicação, Farley também vê o trabalho da AACSS como profundamente eclesiológico. "A Sister to Sister anuncia a minha visão de Igreja mundial. Ela demonstra que estamos todas juntas nisso e que todos nós somos Igreja igualmente".

Embora a AACSS tenha uma missão clara e profunda, Farley disse que vê esse projeto como o oposto do trabalho missionário. "A maioria das pessoas costumava pensar que o Evangelho devia ser levado para todo o mundo. Mas, agora, não é suficiente dizer que o Evangelho pode ser ouvido em todo o mundo. Agora, o Evangelho deve ser anunciado a partir do mundo todo", disse ela.

"As irmãs africanas estão à altura desse tipo de trabalho de uma forma que poucas outras pessoas na nossa Igreja estão", comentou Farley.

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