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18 Dezembro 2011

Para muitas abordagens cristãs teológicas, o nome atribuído ao fluxo que dá a todos uma possibilidade de vida não encerrada no horizonte de uma existência puramente terrena assume o nome de Espírito. Poder-se-ia afirmar que o Espírito é o itinerário com o qual o Pai do "nosso Senhor Jesus Cristo" se faz presente até lá onde o Deus trinitário não é abertamente conhecido.

A reflexão é do filósofo italiano Piero Stefani, grande conhecedor do judaísmo e diretor-científico da Fundação do Museu Nacional do Judaísmo Italiano e do Holocausto (MEIS, na sigla em italiano), com sede em Ferrara. O texto foi publicado no seu blog de reflexões bíblicas, Il Pensiero della Settimana, 19-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Às vezes, nos perguntamos se a mística pode ser uma via de encontro entre as religiões. A resposta é certamente negativa se se trata de "religiões". O discurso muda se, conformando-se a uma terminologia consolidada, falamos de diálogo entre experiências religiosas. No caso da mística, o núcleo do problema parece, porém, se articular de uma forma ainda diferente. Nessa área, embora sendo verdade que nos encontremos diante de uma experiência impossível de separar de alguma filiação religiosa, situamo-nos, de fato, em um céu colocado além das barreiras conectadas com uma determinada identidade. É isso mesmo?

A experiência cognoscitiva mística não tem nada a ver com o empirismo, não é um saber controlável e verificável. Ela, porém, não tem nada a ver com a dimensão prática de um pedido dirigido a Deus para obter qualquer benefício, nem se nos relacionamos com Ele na perspectiva de obter um prêmio ou de evitar um castigo. O Mestre Eckhart, para ridicularizar esta última hipótese, usava a comparação de uma pessoa que embarcava em uma viagem de milhares de léguas para ir a Roma a fim de ver o papa e, uma vez admitido à sua presença, pedia-lhe um feijão. Quando a presença de Deus – ou a sua ausência noturna – preenchem todo o horizonte, não é possível pedir nada mais do que Ele.

Quando se insiste no termo conhecimento, escancara-se o tema crucial do sujeito que deve estar diante de Deus sem se perder completamente n’Ele. Justamente por essa razão, há aqueles que defenderam que não pode haver nenhuma mística autêntica sem uma mediação capaz de permitir uma relação mais intensa sem que ela envolva a fusão com Deus, que resultaria na dissolução do sujeito na infinidade do divino.

O grande místico muçulmano al-Hallaj (século X) escreveu expressões tão audazes que teve que pagar com o preço da vida. Entre elas, estão aquelas que falam a linguagem da identificação: "Eu sou Aquele que eu amo, e Aquele que eu amo sou eu; somos dois espíritos, que habitam um só corpo. Se tu me vês, vês a Ele: se vês a Ele, me vês (...) O teu espírito se misturou ao meu como o vinho com a água pura". Aqui, a fusão parece ser completa. É realmente assim? Al-Hallaj também nos transmitiu uma abissal reflexão sobre a manutenção e a transcendência contemporâneas da própria filiação religiosa.

Refleti sobre religiões,
tentando compreendê-las;
descobri que são ramos diferentes
de um só tronco.
Não peças a ninguém
que abrace uma determinada religião,
assim o afastarias
do seu Princípio.
Ele, o Princípio
está na busca dele
n’Ele ficam claros
todos os símbolos e os sentidos:
ele então compreenderá.
[1]

O discurso do grande místico não é "relativista". Só quem é prisioneiro de rígidos preconceitos dogmáticos poderia, de fato, tomá-lo como tal. Certamente, é verdade que podemos chegar ao único tronco partindo de mais ramos. No entanto, não é menos certo que isso acontece por causa do fato de que é o próprio Princípio que vai à tua busca, alcançando-te lá onde tu estás. Tal linguagem pressupõe, em termos doutrinais, como nos acostumamos a denominar uma concepção pessoal de Deus.

O léxico de al-Hallaj é tendencioso. Em muitas tradições religiosas, não se compreenderia o que significa afirmar que o Princípio está à tua busca. O abismo divino sem forma nem rosto não vai à procura das suas próprias criaturas. Para as fés que têm a certeza no Deus criador, o problema da pluralidade de vias não deve ser articulado perguntando-se se há muitos itinerários através dos quais os seres humanos possam chegar a Deus. O discurso, de fato, deve ser proposto partindo do outro extremo. Portanto, é preciso tentar compreender de que modos Deus vai em busca das suas próprias criaturas, fazendo com que a seiva do único tronco alimente os mais diversos ramos.

Para muitas abordagens cristãs teológicas, o nome atribuído ao fluxo que dá a todos uma possibilidade de vida não encerrada no horizonte de uma existência puramente terrena assume o nome de Espírito. Poder-se-ia afirmar que o Espírito é o itinerário com o qual o Pai do "nosso Senhor Jesus Cristo" se faz presente até lá onde o Deus trinitário não é abertamente conhecido. Transcritos em termos cristãos, os versos de al-Hallaj se tornariam uma celebração da ação do Espírito. A maneira suprema com a qual o Princípio vai em busca das suas próprias criaturas assume agora este rosto. Pode-se falar de modo autêntico só apegando-se à linguagem específica do próprio ramo. Porém, a partir dele, é dado, de modo assimétrico e, por isso, não diretamente dialógico, ampliar o olhar a outros ramos alimentados pelo mesmo tronco. "Então compreenderás" que muitas são as vias por meio das quais Deus alcança as suas próprias criaturas, e múltiplos são, portanto, os itinerários com os quais os homens fazem experiência de Deus.

Notas:

[1] Citado em G. Scattolin. Esperienze mistiche nell’islam. I primi tre secoli, EMI, Bologna 1994, 128-129.

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