Síria: o mosteiro onde os fiéis se encontram

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05 Dezembro 2011

Um diário do deserto. Os artigos que o padre Paolo Dall'Oglio escreveu a partir de 2007 para a revista mensal internacional Popoli [dos jesuítas italianos] estão agora reunidos no livro La sete de Ismaele (Ed .Gabrielli, 144 páginas, introdução de Stefano Femminis).

O livro é enriquecido pelo prefácio – do qual antecipamos uma parte – do jornalista e escritor Paolo Rumiz, que visitou o antigo mosteiro em que se sedia a comunidade monástica de Deir Mar Musa (www.deirmarmusa.org), fundada pelo padre Dall'Oglio em 1991 e dedicada à acolhida e ao diálogo inter-religioso, particularmente com o Islã.

Nos últimos dias, o religioso recebeu do governo sírio um decreto de expulsão por causa do seu compromisso em favor da reconciliação. Estão em andamento negociações com a Igreja local, para que a efetividade do decreto seja suspensa e o jesuíta possa ficar.

O prefácio de Paolo Rumiz foi publicado no jornal Avvenire, publicação dos bispos italianos, 04-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Deir Mar Musa. O nome me chamava como uma miragem, como a nostalgia de algo antigo, algo que eu tinha esquecido, mas que continuava se agitando no fundo da alma. Essa fortaleza da fé, encastelada nos últimos precipícios do Monte Líbano diante do deserto da Síria, era uma etapa inevitável da minha viagem à Terra Santa. Eu procurava os cristãos do Oriente, porém, quem me falou pela primeira vez do mosteiro dirigido pelo jesuíta Paolo Dall'Oglio não foi um padre, mas sim um muçulmano da Itália. "Vá ver – disse ele – um lugar onde a sua fé aprendeu a conviver com o Islã". E acrescentou as palavras lisonjeiras sobre a capacidade desse prior muito sui generis de compreender o mundo muçulmano, embora mantendo ereta a barra do cristianismo neste difícil posto avançado.

Assim, eu fui, e a longa estrada de aproximação ao longo da Anatólia até as terras altas do Tigre (onde comunidades cristãs de língua aramaica de quase dois milênios de idade resistiam milagrosamente à pressão do nacionalismo islâmico turco) tinha subvertido muitas das minhas falsas certezas. Eu acreditava, antes de tomar aquela longa estrada, estar me afastando do centro de gravidade, dos pontos de referência mais forte da minha fé, e, ao contrário, constatava que, justamente me afastando de Roma, eu sentia a presença de uma mensagem cristã mais límpida, cristalina, cada vez mais perto da sua fonte originária, e cada vez menos perturbado por tentações de hegemonia e poder.

Era como se me fosse possível tomar consciência da minha identidade e da minha cultura religiosa de origem só em terras onde o cristianismo era decisivamente minoritário, se não até perseguido.

Tinham passado – não nos esqueçamos – apenas quatro anos desde o atentado às Torres Gêmeas, e o discurso do conflito de civilizações havia sido simplificado pela arte dos semeadores de cizânia como confronto religioso. Era também para reagir a essa simplificação que eu havia empreendido essa viagem entre os meus primos do Oriente, uma viagem que me levava fatalmente a invadir – um dia sim, um dia não – os territórios do judaísmo e da fé muçulmana.

Assim, em uma noite de temporal iminente, quando eu cheguei ao mosteiro fortificado de Mar Musa, já tinha me dado conta de que religiosos de primeira linha como Paolo Dall'Oglio se encontravam, com a sua simples presença, não apenas combatendo as infinitas susceptibilidades do mundo muçulmano, mas também descontando sobre a sua pele (com muitas exceções, é claro) as incompreensões e os preconceitos dos seus referentes do Ocidente. Destes, o prior de Mar Musa nunca quis falar comigo, mas era a minha firme convicção que eles existiam.

Tive a confirmação, lá em Mar Musa, de que, para ser reconhecido, o cristianismo também precisava entender como Cristo e os discípulos eram vistos pelos outros povos do Livro. No seu inigualável L'Usage du monde, Nicolas Bouvier relata a viagem realizada nos anos 1950 até o subcontinente indiano. Na etapa afegã, ele narra que encontrou no bazar de Cabul uma representação de Jesus que ascendia ao céu, rodeado por apóstolos armados.

Para um muçulmano, era talvez concebível que um profeta da bondade de Isa aceitasse ser capturado sem se defender, mas era absolutamente inadmissível que os seus homens renunciassem a defendê-lo. Vis, covardes, eles não tinham reagido. E, acima de tudo, renunciando a matar malvados, eles favoreceram a cadeia do mal. A representação de discípulos armados não era senão o desejo dos muçulmanos de tornar mais apresentável o martírio daquele santo homem.

Ainda mais interessante era a visão dos judeus ortodoxos, assim como me havia sido vividamente explicada por um rabino de Jerusalém, italiano de nascimento. O maior defeito de Cristo? Ele não havia se casado, não tinha filhos. Quem não tem filhos não é um homem e não escuta os mandamentos de Elohim: crescei e multiplicai-vos. E, então, me disse, como alguém que nem mesmo é homem pode ser deus? E o que dizer dos discípulos, esses desocupados ociosos que tinham renunciado à fadiga da terra e do trabalho? Que garantias de seriedade podiam dar esses solteirões errantes capazes de viver só às custas dos outros? Sim, era fundamental escutar histórias assim, ouvir o parecer dos "outros" para contar a "nossa" identidade com maior força e consciência.

Uma noite, rezamos juntos, naquele mosteiro que nada mais era do que a "recepção" de um arquipélago de grutas eremíticas espalhadas nas rochas circundantes. Ecoaram antigas ladainhas, ouvi a beleza da oração cristã formulada em árabe, e a palavra-chave em torno da qual tudo girava era nur, luz. Paolo Dall'Oglio cantava dentro de uma igreja escura, onde a luz, justamente, era só um raio que entrava por uma fresta voltada ao Oriente.

Foi a partir dessa viagem que eu comecei a buscar a minha fé nas periferias, nos postos avançados, nas trincheiras de mundos considerados de risco ou no fundo de estados marcados como "gentalha" pela geopolítica banalizada do Ocidente.

Em Antioquia – encontrando a minha companheira de viagem, Monika Bulaj –, uma mulher que havia se convertido ao cristianismo e sofria não poucas retaliações por causa disso, tinha aberto uma pequena cortina na sua casa e mostrado, atrás dela, uma folha de jornal ilustrado com a representação de Cristo. Ela suspirou e explicou por que tinha decidido segui-lo. "Como você pode não confiar em alguém com um rosto desses?", resumiu, antes de encher novamente o nosso saco de viagem com frutas secas e café que deviam ter-lhe custado uma fortuna.

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