Os "indignados" e a boa prática do compartilhamento

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31 Outubro 2011

Uma análise dos acampamentos às assembleias de bairro, a experiência de um movimento social que se tornou um modelo, apesar das suas dificuldades para elaborar formas organizacionais que vão além da delegação e da representação.

A reportagem é de Benedetto Vecchi, publicada no jornal Il Manifesto, 25-10-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O 15 de maio é uma data que, na Espanha, é considerada o símbolo de um movimento que se espalhou de Madri para muitos países, até chegar a Wall Street, a rua sinônimo da "ditadura das finanças" contra a qual o movimento luta. Nesse dia, uma manifestação convocada pela "Democracia Real Ya" não se conclui, como é de costume. Boatos afirmam que a manifestação não vai se concluir com o comício habitual. Começa uma longa assembleia que vai durar até tarde da noite. Mas, depois, acontece que, em vez de defluir, milhares montam acampamento. Não deixarão essa praça por semanas e semanas.

Para além da hagiografia, os indignados constituem, porém, um momento de descontinuidade com relação aos movimentos que o precederam. Descontinuidade nas práticas; descontinuidade na relação com as organizações tradicionais do agir político (partidos e sindicatos). Que fique bem claro: os indignados espanhóis não inventaram nada; muitas das coisas que eles afirmam fazem parte do léxico dos movimentos sociais – por exemplo, a prática do consenso que rejeita as lógicas com base nas quais, para tomar uma decisão, sempre há uma maioria em seu favor e uma minoria que discorda –, mas as suas palavras de ordem têm a capacidade de se tornar "lugar comum".

Como testemunha o livro Indignados (Ed. Riuniti, com artigos de Jaume Botey, Rafael Díaz-Salazar, Óscar Mateos, Jesús Sanz, 62 páginas), há um fator novo que explica a rápida difusão do movimento. No centro das suas palavras de ordem há uma crítica radical da democracia representativa, muitas vezes equiparada a uma forma específica de oligarquia, e o convite para que aqueles que estão "sem voz" tomem a palavra. Outro aspecto, não menos importante, é que os indignados se qualificam como trabalhadores precários, desempregados e todos empobrecidos pela crise econômica, que querem combater a "ditadura das finanças" e as políticas econômicas neoliberais.

Posições que levarão os indignados a olhar com indiferença, senão com hostilidade, ao convite para votar na esquerda nas subsequentes eleições administrativas e regionais: nos seus textos, não há muita diferença entre os socialistas de Zapatero e o partido polar.

Wikipédia do movimento

Portanto, uma crise da democracia representativa e oposição às políticas neoliberais. São essas as características que fazem crescer o consenso dos indignados. O próximo passo é o de dar vida a formas organizativas adequadas à rejeição da representação depois que os acampamentos se desmobilizaram.

Assembleia de bairro, campanhas contra a precariedade, desenvolvimento de grupos de trocas alternativas ao mercado, luta contra a austeridade por meio de autorreduções, piquetes contra os despejos. Um tecido molecular de iniciativas que encontram a continuidade na socialização das experiências durante as assembleias descentralizadas. Desse ponto de vista, é interessante a leitura feita pelo sociólogo catalão Manuel Castells.

Estudioso das mídias e da "galáxia internet", Castells estabeleceu uma relação direta entre algumas modalidades da comunicação na rede e a organização dos indignados espanhóis. O modelo é o chamado wiki, onde qualquer pessoa pode participar, sem filtros. A decisão ocorre depois de uma longa discussão que modifica propostas, pontos de vista. Se na rede isso tem algum poder – porque os modelos wiki têm a finalidade de produzir softwares e enciclopédias muitas vezes mais eficientes do que as "tradicionais" –, para os movimentos sociais, significa a prática de uma "democracia real", em que o termo eficácia assume um outro significado.

De fato, a conjugação temporal da agenda política dos indignados não depende do que é estabelecido pelo poder político, econômico e pela mídia dominante. Em suma, uma suspensão do tempo, em nome do compartilhamento, estrela-guia do movimento, que não esconde as diversidades em seu interior, mas as usa para que a decisão política tomada seja, de fato, compartilhada para além do princípio da maioria e da minoria.

A tese de Castells sobre a analogia entre a rede e o movimento certamente é fascinante, mas não é isenta de contradições, a tal ponto que todas as propostas dos últimos anos de pensar em organizações reticulares dos movimentos sociais tiveram que lidar justamente com a dificuldade de elaborar procedimentos compartilhados de decisão política. Seguindo o léxico"indignado", qual é, de fato, o lugar onde ocorre o compartilhamento? A assembleia, com todas as limitações que as assembleias têm.

Além disso, diz-se que os indignados expressam o seu poder político porque conseguem comunicar as suas propostas. Mas fazendo isso um movimento social se reduz a prática comunicativa, isto é, a opinião pública, delegando a pequenos grupos o agir político, removendo assim a centralidade da luta contra as políticas de austeridade que tiveram seu papel no crescimento do indignados.

Nem é desejável que um movimento social seja apresentado como uma forma de vida em busca da sua regra (desse ponto de vista, é interessante a reflexão da distância entre forma de vida e regra feita por Giorgio Agamben em Altissima povertà, Neri Pozza editores). Mas um movimento social não se caracteriza por ser uma inocente prática comunicativa, nem só como estilo de vida, mas sim como um espaço de politização das relações sociais.

A austeridade que advém

É sobre esse ponto que a indignação abre espaço aos elementos relativos à dimensão material que está por trás do sentimento nobre, mas que corre o risco de se tornar afásico, da indignação. E que obriga a acertar as contas não só com a crise das constituições formais, mas também com as constituições materiais, que, mais do que a indignação, prefere a indisponibilidade, a recusa. Precariedade, financeirização do welfare state e da vida ativa, empobrecimento obrigam a reabrir a discussão. E é sobre esses pontos que os indignados espanhóis discutem muito animadamente nas assembleias locais, como, por outro lado, surge desse livro volume.

Não é abordado o porquê os indignados se difundiram. Essa ausência não é um limite, mas sim a consciência de que a Puerta del Sol não é comparável ao que aconteceu em outros países, particularmente na Itália e nos Estados Unidos. De fato, surgem diversidades "nacionais", constituições materiais e composições sociais que se articulam de forma diferente, apesar da dimensão transnacional da crise econômica. Em todo o caso, como em um roseiral, surgem todos os nós que os indignados ainda estão tentando desfazer.

No Il Manifesto, Massimo de Carolis fez uma pergunta: Como pensar uma política extraparlamentar? Pergunta que captura o coração do problema, mas que certamente não encontra respostas convincentes na reproposição de dicotomias – desobediência versus insurreição, ou revolta versus tumulto – que precisamente os movimentos sociais destes anos tinham considerado como arqueologia de um passado que não existe mais.


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