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29 Outubro 2011

"Quando eu olho para a nossa Igreja que não cessa de endurecer suas posições [...], acho que é muito triste e deprimente, porque a Palavra de Deus não está sendo proclamada e anunciada. Sim, é triste, porque na nossa Igreja, teríamos necessidade de ouvir uma Palavra que liberta, uma Palavra que conforta, que une, que preenche a lacuna das nossas divisões entre cristãos e entre crentes, uma Palavra que enche de esperança aqueles que vivem um fracasso amoroso, ou que procuram assumir suas diferenças sexuais, uma Palavra que salva sem qualquer discriminação."

A reflexão é de Raymond Gravel, sacerdote do Quebec, Canadá, publicada no sítio Culture et Foi, comentando as leituras deste domingo, 31º Domingo do Tempo Comum. A tradução é do Cepat.

Eis o texto.

Referências bíblicas:
Primeira leitura: Ml 1, 14b-2, 10;
Segunda leitura: Ts 2, 7b-13;
Evangelho: Mt 23, 1-12.

Após as duas controvérsias dos dois últimos domingos, eis agora um Jesus, o de Mateus, que se volta para a multidão e os discípulos para criticar severamente os escribas e fariseus. Já deixei bem claro que este é o Jesus de Mateus, porque o próprio Jesus certamente não foi tão duro com os fariseus; ele tinha amigos entre eles, e mesmo se tivesse qualquer diferença com eles, ele seria incapaz de tratá-los dessa forma. É o evangelista Mateus que endurece as críticas de Jesus, porque ele e sua comunidade estão em profundo atrito com os escribas e fariseus.

Além disso, quer seja Jesus ou Mateus, são os dirigentes civis e religiosos do povo que são visados e denunciados na primeira parte do Evangelho de hoje. E isso por três razões:

1. Sua hipocrisia. Eles dizem as coisas, mas eles mesmos não as fazem, há uma distância entre o discurso e a ação.

2. Sua interpretação. Da palavra que eles devem transmitir; esta torna-se um fardo para as pessoas, ao mesmo tempo que deve ser libertadora.

3. Seu orgulho. Eles gostam de ser vistos e saudados publicamente... Eles pensam que são o próprio Deus.

A segunda parte do evangelho diz respeito à multidão e aos discípulos, isto é, àqueles que ouvem a Palavra de Deus; que eles não agem, que eles não imitam os dirigentes. E a conclusão é contundente: "Quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado" (Mt 23, 12).

Entretanto, para nós que relemos o texto de hoje, o nosso primeiro instinto é dizer: "Isso não nos diz respeito... É para os líderes e seguidores de Jesus ou o evangelista Mateus..." Bem, não exatamente! Também diz respeito a nós hoje... aos nossos dirigentes e a cada um de nós.

1. Críticas e conselhos na época de Mateus. Cristo reconhece que os escribas e fariseus têm autoridade para ensinar a Palavra de Deus: "Eles têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés" (Mt 23, 2). E que isto está certo: "Vocês devem fazer e observar tudo o que eles dizem" (Mt 23, 3a). Basicamente, eles têm a responsabilidade de ensinar e que são capazes de transmitir a Palavra... Mas...

Primeira crítica. "Mas não imitem suas ações, pois eles falam e não praticam" (Mt 23, 3b). O que significa isso? Todos os comentaristas que eu li interpretam este versículo dizendo que os escribas e fariseus não praticam o que ensinam: há uma distância entre o discurso e a prática, como se a palavra dispensasse da ação. Provavelmente era verdade que era mais fácil dizer do que fazer; vivemos a mesma realidade hoje. Esta crítica é fundamentada, mas há mais do que isso...

Segunda crítica. "Amarram pesados fardos e os colocam no ombro dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo" (Mt 23,4). Portanto, há também um problema de interpretação e de atualização da Palavra de Deus. Como a Palavra de Deus pode se tornar um fardo? A Palavra de Deus liberta, salva, conforta e dá esperança. Na segunda leitura de hoje, São Paulo disse aos tessalonicenses: "O motivo do nosso contínuo agradecimento a Deus é este: quando ouviram a Palavra de Deus que anunciamos, vocês a acolheram não como palavra humana, mas como ela realmente é, como Palavra de Deus, que age com eficácia em vocês que acreditam" (1Ts 2, 13). E depois São Paulo elogiou os tessalonicenses pelo fato de que a Palavra de Deus foi eficaz, uma vez que eles praticaram a pureza (não no sentido moral, mas no sentido da justiça e direito) e o amor fraternal.

Na verdade, não temos nada a exigir da Palavra de Deus; não há nenhum fardo a impor aos outros. Nós simplesmente temos de transmitir a Palavra de Deus, interpretá-la e atualizá-la, tendo em conta a realidade das pessoas, para que ela possa libertá-las, salvá-las, confortá-las e enchê-las de esperança.

É a mesma crítica que é feita aos sacerdotes, na primeira leitura de hoje, pelo profeta Malaquias: "Vocês, porém, se desviaram do caminho e fizeram muita gente fugir do ensinamento. Vocês quebraram a aliança de Levi – diz Javé dos Exércitos" (Ml 2, 8).

Terceira crítica. "Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros. Vejam como eles usam faixas largas na testa e nos braços, e como põem na roupa longas franjas, com trechos da Escritura. Gostam dos lugares de honra nos banquetes e dos primeiros lugares nas sinagogas; gosta de ser cumprimentados nas praças públicas, e de que as pessoas os chamem mestre" (Mt 23, 5-7).

Essa terceira acusação deixa claro que os escribas e fariseus não estão servindo o povo de Deus; eles se servem a si mesmos, se aproveitam do prestígio do cargo que ocupam para se impor ao povo. Eles pensam que são o próprio Deus. E é porque, o que é dado como depósito, aos discípulos é mais drástico: "Quanto a vocês, nunca se deixem chamar mestre, pois um só é o Mestre de vocês, e todos vocês são irmãos. Na terra, não chamem a ninguém Pai, pois um só é o Pai de vocês, aquele que está no céu. Não deixem que os outros chamem vocês líderes, pois um só é o Líder de vocês: o Messias" (Mt 23,8-10). Isso não significa que não se possa ser rabino, padre, professor... mas se o for, é como servo que se deve ser... para estar a serviço dos outros, não para o nosso próprio serviço ou a serviço do nosso prestígio, de acordo com a função que se exerce. Não é por acaso que Mateus acrescenta: "O maior de vocês deve ser aquele que serve a vocês" (Mt 23, 11).

2. Hoje. Caso eu atualizar o Evangelho de Mateus, acho que não há muito a mudar nas críticas que são feitas por Cristo à Igreja do primeiro século. A Palavra de Deus, que os dirigentes da Igreja têm a competência de transmitir, não deve apenas ser dita ou proclamada, mas também colocada em prática. E esta palavra deve ser interpretada e atualizada para que possa libertar, confortar, salvar e dar esperanças.

Quando eu olho para a nossa Igreja que não cessa de endurecer suas posições sobre a participação na Eucaristia, sobre o lugar das mulheres na Igreja, sobre o celibato dos sacerdotes, sobre a homossexualidade, sobre a sua moralidade sexual e sobre as suas recusas em se adaptar ao mundo de hoje, como se o mundo estivesse errado ao se recusar a novas realidades vividas pelas mulheres e homens de hoje, acho que é muito triste e deprimente, porque a Palavra de Deus não está sendo proclamada e anunciada. Sim, é triste, porque na nossa Igreja, teríamos necessidade de ouvir uma Palavra que liberta, uma Palavra que conforta, que une, que preenche a lacuna das nossas divisões entre cristãos e entre crentes, uma Palavra que enche de esperança aqueles que vivem um fracasso amoroso, ou que procuram assumir suas diferenças sexuais, uma Palavra que salva sem qualquer discriminação. Encontramos um endurecimento que divide, que condena, que desespera... encontramos fardos pesados demais para suportar que nada tem a ver com a Palavra de Deus.

Como chegaríamos a isso? A missão da Igreja é transmitir a Palavra, isto é, deixar que Deus fale ao mundo de hoje. Não é fazendo exigências, erguendo barreiras e criando proibições, que nós damos a Deus o seu direito de Palavra. No entanto, Deus quer nos falar ainda hoje, através das novas realidades que são as nossas, através das mulheres e dos homens do nosso tempo... Quem somos nós para impedi-lo?

Acredito, sinceramente, que alguns dirigentes de hoje levam o seu papel muito a sério; eles pecam por orgulho, como os escribas e fariseus do tempo de Jesus e do tempo de Mateus. As faixas largas foram substituídas por mitras bordadas e com franjas com sobrepeliz de renda. Os novos escribas gostam sempre dos lugares de honra em suas poltronas estofadas; eles gostam de ser chamados: Meu Pai, Monsenhor, Sua Excelência, Sua Eminência, Santíssimo Padre... E eles pensam que são os únicos possuidores da verdade sobre Deus, sobre a Igreja e o mundo. Esta é uma tristeza muito grande... E os crentes de hoje não são estúpidos; eles não os seguem mais. Eles deixam que se pavoneiem até se asfixiarem... Talvez, nesse momento, Deus possa falar?

Para terminar, eu gostaria de compartilhar esse comentário de Santo Agostinho sobre uma passagem de São João: "Eles serão todos ensinados por Deus" (Jo 6, 45): "Todos os cidadãos deste Reino serão ensinados por Deus, eles não terão que ouvir as palavras de homens. E mesmo quando ouvirem palavras de homens, o que eles entendem lhes é que ainda dado no interior, os ilumina em seu interior, lhes é revelado interiormente. O que fazem os homens que anunciam a verdade para o exterior? O que eu faço por mim mesmo agora, quando eu falo? Eu faço ressoar nos seus ouvidos o som das palavras. Se, portanto, aquilo que está dentro de você não revelar o sentido, para que falar, para que abrir a boca? O agricultor está fora, o Criador está dentro. O que planta e o que rega agem a partir de fora, e é isso que fazemos, e quem planta não é ninguém, nem quem rega, mas quem faz crescer, Deus, é o único que conta (1Cor 3, 7). Isso significa que "Eles serão todos ensinados por Deus’".

 

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