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08 Agosto 2011

Um livro de 1687, produzido pelos missionários jesuítas na China, apresenta a história intrigante e infinitamente triste da presença cristã nos séculos XVI- XVIII naquelas terras.

A análise é Alberto Melloni, historiador da Igreja italiano e professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 08-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Intitula-se Confucius Sinarum Philosophus um livro de 1687, produzido pelos missionários jesuítas na China, no qual estão atados todos os fios da história infinita, intrigada, intrigante e, enfim, infinitamente triste da presença cristã nos séculos XVI- XVIII naquelas terras.

Esse era o terceiro encontro entre a fé cristã e o país do meio. O primeiro havia ocorrido graças à vitalidade missionário siríaca: bispos e catequistas persa que percorrem a rota da seda – o caminho sobre o qual caminham formas de vida monástica ainda a serem estudadas – e falam sobre Jesus com as categorias do budismo, até representá-lo sentado sobre o lótus, com as mãos perfuradas, sobre uma estrela de Xi`an, esculpida para testemunhar os conteúdos da fé, cujos ecos chegam à administração imperial.

O segundo encontro se realiza no século XIII, quando o papado pensa em uma possível aliança com o império mongol. E, dessa pregação, existe um resíduo de inimaginável preciosidade e fragilidade: a chamada Bíblia de Marco Polo, da qual uma pesquisa totalmente italiana – promovida pela Fscire, Treccani, Iseo e a Biblioteca Medicea-Laurentina – permitirá que se conheça a vida lendária a quem comprar a valiosa edição fac-símile e a quem visitar a mostra sobre as "Rotas da Seda", que neste outono [europeu] abrirá as portas em Roma.

O terceiro encontro é o que tem como protagonista a primeira geração de missionários: os mais célebres, padre Michele Ruggieri, ainda mais o padre Matteo Ricci e o seu coirmão Paolo Xu Guang Qi, já são conhecidos. Menos conhecido é o destino de uma obra central para esse grupo, que agora está no centro de uma edição do Instituto Histórico da Companhia de Jesus (Confucius Sinarum Philosophus, 1687, editado por Thierry Meynard, 448 páginas).

Havia sido precisamente Ruggieri quem, antes de ser chamado a Roma, tinha iniciado a tradução dos Quatro Livros (Si Shu) de Confúcio: O grande estudo, O justo meio, Os diálogos e os tratados de Mêncio pareciam ser um instrumento adaptado para ensinar a língua e a cultura chinesas aos novos missionários.

Ruggieri chegou à cidade em 1590, mas o seu método não teve sucesso, e só uma pequena parte do seu trabalho foi publicado em latim. Matteo Ricci continuou essa tradução e a completou para o uso de quem quisesse aprender os ideogramas. Essa versão serviu para vários jesuítas chineses durante algumas décadas. Reformulado o percurso de estudos, no dia 13 de abril de 1662, em Jianchang, era publicado o volume da Sapientia Sinica: uma nova tradução do primeiro e do terceiro livros de Confúcio, o Daxué e o Lunyu, na tradução continuada pelo siciliano padre Prospero Intorcetta, que chegou à China em 1657 com o padre Martino Martini, e aprovada pelos seus superiores. Cinco anos depois, com a ajuda de um grupo de coirmãos, Intorcetta publicava em Guangzhou a Sinarum Scientia Politico Moralis, com outros tratados e a vida de Confúcio.

Para essas duas primeiras comunidades jesuítas, de fato, era tão óbvio quanto útil considerar o confucionismo como um ritual "civil" e uma filosofia moral que não impedia, ou melhor, convergia com a revelação cristã: eles consideravam, de fato, os ritos de obséquio ao imperador e aos antepassados como perfeitamente integráveis à prática religiosa católica.

O sucessor de Ricci como superior da comunidade de Pequim, padre Niccolò Longobardo, havia tentado combater essa tendência, defendendo que Confúcio era portador de um "ateísmo oculto": mas havia ficado em minoria, e um memorando seu sobre o assunto foi destruído por ordem dos superiores. Dez anos depois, no entanto, novos missionários franciscanos de origem espanhola, como Antonio de Sancta Maria Caballero, lançam uma ofensiva doutrinal contra os "ritos chineses", que viam como superstições a serem combatidas com todos os meios.

A atitude do papado havia sido, de outro lado, oscilante: Inocêncio X, eleito graças ao atraso de Mazzarino em levar ao conclave o veto francês contra esse cardeal da família Panfili, se inclinou aos franciscanos espanhóis e proibiu os ritos em 1645. Alexandre VII, o papa filho dos banqueiros sienenses da família Chigi, avalizou a prática dos jesuítas em 1656, mas sem abolir o decreto anterior.

Na tensão contínua, foi realizado uma espécie de "sínodo dos missionários" entre o início de dezembro de 1667 e o final de janeiro de 1668, em Guangzhou, onde estavam confinados por edito imperial: dele participaram os jesuítas de ambas as opiniões, os dominicanos defensores da linha de Ricci e os franciscanos. Um documento de 42 pontos foi aprovado, e, nessa sede, a maioria aprovou uma deliberação, a de nº. 41, que estabelecia que se "tolerassem" os ritos: mas, em vez de aplacar os ânimos, isso animou o partido do conflito, que denunciou os missionários aos seus superiores.

Para se defenderem, o padre Intorcetta decidiu criar um grupo de trabalho para traduzir os clássicos confucianos: com ele, um austríaco e dois flamengos – entre eles, o padre Philippe Couplet, que, em uma viagem de 1685, levará a Florença a Bíblia de Marco Polo – e assim partem da China novas traduções.

Intorcetta, como Ruggieri em seu tempo, vai a Roma para defender as suas teses, cartas na mão, mas volta sem sorte. Em 1681, Couplet, ao invés, é enviado, que chega à Europa e consegue ver Luís XIV, que também queria enviar missionários para a China: graças ao apoio de Melchisédek Thévenot, bibliotecário do Louvre, o trabalho de tradução de três gerações de jesuítas tornou-se, no dia 28 de maio de 1687, o Confucius Sinarum Philosophus, sive Scientia Sinensis.

Couplet, que morreu durante a viagem de retorno à China no dia 15 maio de 1693, não conhecerá o destino da obra. E nem as desventuras da questão dos ritos chineses, condenados por Clemente XI, em 1704, submetidos ao controle de um legado papal, culminando no juramento pedido em 1715 aos missionários chineses.

Aquele que Montesquieu chamava de "o papa dos doutos", Bento XIV (ao qual Gaetano Greco dedicou agora uma ampla biografia, publicada pela editora Salerno, e do qual Maria Teresa Fattori organizou uma edição dos tratados à qual o cardeal Caffarra e o cardeal Bertone deram o seu patrocínio) encerra a questão: "Ex quo singulari", inicia a constituição apostólica de 1742, que proíbe os ritos chineses. E, de fato, envia novamente ao quarto encontro entre o cristianismo e a China, o que talvez ainda deve chegar ou talvez já começou.

A questão do significado da obra cultural – e, portanto, junto e inseparavelmente filosófico e político – com o qual a China oferece ao cristianismo e ao catolicismo romano o maior e mais solene banco de prova: como na passagem do mundo do judaísmo ao helênico, mais uma vez o universalismo cristão se encontra diante de uma passagem decisiva, na qual as complexas tecnicalidades político-diplomáticas e as rugosidades de um sistema formalmente inspirado no ateísmo marxista empalidecem diante desse horizonte dos "confins da terra", que foi indicado tanto aos cristãos dos primeiros tempos, quanto aos jesuítas do século XVII, e aos cristãos do século XXI como o único para o qual olhar.

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