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25 Julho 2011

"Nova classe média não é definido pelo ter, mas pela dialética entre ser e estar", escreve Marcelo Côrtes Neri, economista-chefe do Centro de Políticas Sociais e professor da EPGE/FGV, em artigo publicado no jornal Valor, 26-07-2011.

Segundo ele, "Chacrinha - ícone da antiga classe C - já dizia: "Quem não se comunica se trumbica". Há hoje mais celulares que habitantes no Brasil. A posse de celular perdeu a capacidade de distinguir entre emergentes. Virou desgastado símbolo de uma "velha" nova classe média".

Eis o artigo.

Estudo recente do antropólogo Massimiliano Mollona, de Londres, divide os usuários de celular mundo afora em ciborgues, centauros e caubóis. Ciborgue seria uma espécie de 2 em 1, o celular se acoplaria de forma integral e indistinta na vida pública e privada da pessoa. O celular seria uma espécie de distintivo de estilo e performance ao público externo. Centauro seria o usuário mais cioso na separação do uso doméstico do público, este mais reservado. A dualidade da figura mítica do centauro se refletiria nessa espécie de um ser que aparenta ser dois. Os emergentes latino-americanos seriam ciborgues, os tradicionais europeus centauros. Finalmente, caubóis seriam meio refratários à tecnologia, tipo mais comum nos Estados Unidos e no Canadá.

De volta para o futuro da nova classe média. O tema tem ganhado destaque nos debates e seminários organizados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência e pelo Banco Mundial em Barcelona para empresas, Estado e estudiosos, respectivamente.

O Centro de Políticas Sociais (CPS) onde trabalho organizou três workshops sobre a nova classe média (vide vídeos em www.fgv.br/cps/ncm) mas o nosso público preferencial é o próprio cidadão comum.

Nova classe média foi o apelido que demos à classe C anos atrás. Chamar a pessoa classe C soava depreciativo, pior que classe A ou B, por exemplo. Nova classe média difere em espírito do termo "nouveau riche" que acima de tudo discrimina a origem das pessoas. Nova classe média dá o sentido positivo e prospectivo daquele que realizou - e continuar a realizar - o sonho de subir na vida: "the bright side of the poor". Mais importante do que de onde você veio ou está, é aonde você vai chegar. Concordo quando Eike Batista se intitula nova classe média - apenas, é claro, enquanto conseguir manter sua trajetória ascendente.

Nova classe média não é definido pelo ter, mas pela dialética entre ser e estar. É preciso distinguir meios dos fins, assim como o filme da foto atual. Nossas pesquisas comprovaram em três ocasiões entre 144 países que o brasileiro é o povo com maior nota de felicidade futura. A latência da nova classe média estava clara no boom de consumo surgido depois de cada plano de estabilização a começar pelo Cruzado - objeto da minha tese de mestrado no século passado. O congelamento de ativos do plano Collor tentou contê-lo. O trabalho que a inflação "mais grande" do mundo tinha para refrear impulsos, agora é desempenhado pela nossa taxa de juros real também recorde.

Chacrinha - ícone da antiga classe C - já dizia: "Quem não se comunica se trumbica". Há hoje mais celulares que habitantes no Brasil. A posse de celular perdeu a capacidade de distinguir entre emergentes. Virou desgastado símbolo de uma "velha" nova classe média. Daí a importância de entender as novas motivações dos usos do celular citadas, conforme ensina André Torreta, craque das tendências da classe C.

Na prática usa-se os marcadores de classe disponíveis. Há alguns anos usei coisas para "cualificar" a classe C brasileira: carro, computador, TV a cabo, casa própria financiada e crédito ao consumidor embora deva confessar que o melhor sinalizador era a variável menos charmosa: número de banheiros em casa. Agora mais do que assíduos frequentadores de templos de consumo, o que caracteriza a nova classe média brasileira é o lado do produtor. Ao contrário da fábula de cigarras consumistas, a nova classe C busca construir seu futuro em bases sólidas que sustentem o novo padrão adquirido.

Crédito e benefícios oficiais fazem parte da cena da classe C mas como coadjuvantes. O protagonista é o lado do produtor, do empregado formal em particular. A carteira de trabalho é o maior símbolo da classe C como ato consumado e o concurso público o seu objeto de desejo. Já o empreendedor continua sendo classe E aqui, dadas as dificuldades burocráticas, fiscais, creditícias e valores. Ao contrário do que reza a lenda, o Brasil não é celeiro de pequenos grandes empreendedores mas de grandes empreendedores. Do tipo fordista que depois de florescer no hostil ambiente de negócios tupiniquim, aspiram dominar seus respectivos segmentos no mundo.

Há deficiência crônica nas políticas públicas de apoio produtivo, do curso profissionalizante ao crédito produtivo popular, jogando contra o brasileiro, profissão esperança. O instrumento-chave para liberar o potencial produtivo do nosso trabalhador seria a educação regular que embora ainda esteja num nível classe E, tem melhorado na quantidade, na qualidade, nas prioridades da população (passou de 7ª para 2ª na lista de preocupações do brasileiro) como da elite empresarial. A falta de preocupação com a educação colocava a nossa elite econômica na classe E.

A classe C tupiniquim tem prosperado numa espécie de caminho do meio entre setores público e privado, entre um Estado guloso e generoso e um mercado pujante e promissor. Se o Consenso de Washington não é o ideal da nossa classe C, Caracas também não é aqui. Ser classe C também é consumir serviços públicos de melhor qualidade no setor privado. Aí incluindo colégio privado, plano de saúde e o produto prêmio que é o plano de previdência privada.

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