Esqueçam o que eu não disse, pede "católica missionária"

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02 Julho 2011

Bastaram 12 minutos. Foi o tempo necessário para que Myrian Rios, de 52 anos, quebrasse o marasmo do seu mandato de deputada estadual no Rio. Desde que tomou posse, em 1º de fevereiro, a ex-atriz e ex-mulher do cantor Roberto Carlos tinha passado praticamente despercebida na Assembleia Legislativa. Um discursinho aqui, outro ali, nada que merecesse destaque. Seu auge até agora tinha sido a eleição para a Comissão de Turismo da casa.

A reportagem é de Marcia Vieira e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 03-07-2011

No dia 21, da tribuna da Alerj, falando de improviso, Myrian misturou homossexualidade com pedofilia num discurso que caiu na internet na semana passada e despertou a ira dos internautas. Em menos de 24 horas a página no Facebook Cala a boca, Myrian Rios já tinha 10 mil seguidores.

E Myrian se calou. Sem dar entrevistas, passou a semana negando em três notas distribuídas por assessores o que de fato dissera. Missionária da Canção Nova, braço da Igreja Católica, Myrian subiu na tribuna para criticar a PEC 23, projeto do deputado petista Gilberto Palmares que inclui orientação sexual no texto da Constituição estadual que proíbe discriminação por raça, sexo, religião ou deficiência física .

"Essa PEC é uma porta para a pedofilia", vislumbrou Myrian no seu discurso. E justificou: "Por exemplo, digamos que eu tenha duas meninas em casa e minha babá seja lésbica. Se minha orientação sexual for contrária e eu quiser demiti-la, não posso. Vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus se ela não vai cometer pedofilia contra elas. Eu não vou poder fazer nada".

Myrian se animou e foi além, repetindo o discurso de um colega de bancada, o evangélico Silas Malafaia. "Se eu contratar um motorista homossexual e ele tentar, de uma maneira ou outra, bolinar meu filho, não posso demiti-lo. Eu quero a lei para demitir sim, para mostrar que minha orientação sexual é outra." E terminou o discurso pedindo que "o Espírito Santo possa hoje cair fogo do céu" (sic).

A fúria dos homens veio antes, assim que o vídeo foi postado na internet. "Myrian Rios deve ser muito burra", disparou em seu blog o autor de novelas Walcyr Carrasco. "Só mesmo a falta de inteligência faz alguém confundir orientação sexual com pedofilia. Se ela afirma que não quis dizer isso, pior. Então, não sabe nem criar um discurso coerente."

Myrian Rios é uma novata na política. Entrou no PDT, partido fundado por Leonel Brizola, para concorrer a uma vaga na Alerj na esteira dos candidatos celebridades, como o jogador de futebol Bebeto. Conseguiu 22.169 votos. Só foi eleita graças ao campeão de votos daquela eleição, o apresentador Wagner Montes, que com seus 528.628 votos ajudou a eleger 11 deputados do partido. Myrian foi a última entre os eleitos do PDT.

Antes da eleição, Myrian andava sumida. Mineira, desembarcou no Rio no final dos anos 70 para tentar a carreira de atriz. Aos 18 anos estreou em novela. Fez também ensaios sensuais para revistas masculinas. Mas seu maior papel foi o de mulher do rei Roberto Carlos. Myrian tinha 21 anos, Roberto, 38. Ficaram casados por uma década.

Myrian, sensual com seu ar de menina ingênua acentuado pela célebre franjinha, inspirou sucessos do Rei, como Cama e Mesa, aquela canção que diz: "Você é o doce / Que eu mais gosto / Meu café completo / A bebida preferida / O prato predileto / Eu como e bebo do melhor / E não tenho hora certa / De manhã, de tarde, à noite / Não faço dieta".

Quando o casamento acabou a carreira de atriz estava abalada. Myrian passou anos afastada das novelas para acompanhar Roberto Carlos. Ainda tentou voltar em 2001, em O Clone. Mas novamente sua vida pessoal chamou mais atenção do que o papel na novela de Glória Perez.

Myrian teve um filho com André Gonçalves, que na época fazia a fama de conquistador namorando uma atriz depois da outra. Pedro Arthur é seu segundo filho. O primeiro, Edmar, é do seu casamento com o médico Edmar Fontoura.

A atriz deu uma reviravolta em 2003. Virou missionária da Canção Nova. Vai à missa todos os dias, faz jejum uma vez por mês. A partir daí, sempre, seja qual for o assunto, fala em Deus. Quando foi convidada para se filiar ao PDT, disse: "Política para mim é uma missão. O principal são os valores morais e cristãos". Quando foi eleita, se manifestou pelo Twitter: "Agradeço a Deus por essa vitória".

Diante da saraivada de críticas às suas declarações sobre homossexuais, agarrou-se à religião. Na terça-feira, atordoada com as manifestações, leu uma nota no plenário. "Fui mal interpretada. Sou católica missionária, prego o respeito, o amor ao próximo. Deus ama todas as pessoas. Sem distinção. Não sou preconceituosa."

Dois dias depois, Myrian soltou outra nota: "Lamentavelmente, alguns trechos (do discurso) foram pinçados de minha fala, descontextualizados e mal interpretados. Entretanto, continuarei defendendo os direitos e opções da pessoa humana, sempre pautada pelas orientações da fé católica que abracei". No dia seguinte, novo desmentido e novo apelo a Deus.

O presidente regional do PDT, José Bonifácio, tentou minimizar o estrago do discurso de Myrian. Culpou a inexperiência na política, apelou para o passado artístico. "Ela é uma pessoa que teve vida de atriz. Ela não discrimina os homossexuais que vão ao gabinete dela", disse.

Gilberto Palmares (PT), autor do projeto, ficou indignado. "A Alerj tem que cobrar dela um pedido de desculpas. Infelizmente, o que a deputada falou não é um pensamento exclusivo dela."

No dia do fatídico discurso de Myrian, a PEC 23 foi derrotada. Dos 70 deputados, 39 votaram contra e apenas 2 a favor.

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