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28 Junho 2011

A fé – longe de ser sacrifício da inteligência – é, em suma, seu extraordinário estímulo e alimento.

A opinião é do teólogo italiano e arcebispo de Chieti-Vasto, Bruno Forte, em artigo para o jornal Il Sole 24 Ore, 24-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O 60º aniversário da ordenação sacerdotal de Joseph Ratzinger-Bento XVI, no dia 29 de junho, será certamente ocasião de múltiplas leituras da contribuição que ele deu à Igreja e à sociedade do nosso tempo. Gostaria de me limitar a oferecer aqui uma única chave de interpretação da sua obra como pensador e pastor, colhendo nela especialmente os traços do homem totalmente "a serviço da palavra de Deus que busca e tenta ser ouvida entre as milhares de palavras dos homens" (como ele mesmo escreveu sobre si há alguns anos no prefácio do livro de Aidan Nichols, Joseph Ratzinger).

Quem busca e tenta ser ouvido não tem nada do pretensioso possuidor da verdade, que quer impô-la aos outros a golpes de clava: Ratzinger faz e acolhe perguntas verdadeiras e jamais oferece respostas que não sejam rigorosamente argumentadas. Dentre tantas, a prova disso é o diálogo ocorrido em janeiro de 2004, em Munique, entre ele e o filósofo Jürgen Habermas sobre "Os fundamentos morais pré-político do Estado liberal".

Se Habermas pode ser considerado um dos mais influentes pensadores alemães do momento, Ratzinger não é só o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé que hoje se tornou Papa Bento XVI, mas também o fino intelectual que, por exemplo, em 1992, foi acolhido na Académie des Sciences Morales et Politiques do Institut de France, ele, homem da Igreja alemão. O diálogo entre os dois – que em nada foi um diálogo de surdos – mostra por si só como pode ser fecunda a atenção àquilo que o pensador de fé e pastor universal propõe hoje à reflexão e às escolhas de cada um.

Joseph Ratzinger entende a obra do pensamento e do empenho histórico como simples e puro serviço à verdade: eis por que o verdadeiro ídolo negativo é identificado por ele no relativismo, isto é, naquela posição que, afirmando o pluralismo das verdades – mais ou menos ligadas ao arbítrio do sujeito –, exclui a ideia da verdade a ser servida e amada, substituindo-a pela única certeza de que tudo é relativo.

A esse forte sentido da verdade, Ratzinger chega não por meio de uma aventura individual sem raízes profundas, mas sim atingindo a comunhão da Igreja de Deus como verdadeiro "homem eclesial",  no contexto da grande tradição do pensamento ocidental: dos últimos estudos sobre o amadíssimo Agostinho e sobre Boaventura, à frequentação dos mestres da herança de Munique (Sailer, Görres, Bardenhewer, Grabmann e Schmaus, só para citar alguns), passando pelo diálogo com a sabedoria grega, sobretudo platônica, e com a filosofia moderna e contemporânea, o seu percurso se alimenta de um extraordinário patrimônio cultural, que ele atualiza e reelabora a fim de dizer de modo novo a mensagem antiga da revelação cristã para a inquieta cultura do nosso tempo, marcado por mudanças tão rápidas quanto profundas.

Pode-se dizer verdadeiramente que a sua teologia e a sua filosofia, mais do que um aristocrático "amor à sabedoria", são expressão de uma humilde e convicta "sabedoria do amor", a ser oferecida com generosidade aos outros, em escuta e em diálogo com todos.

Na análise de Ratzinger, crer "significa dar o próprio consenso àquele `sentido` que não somos capazes de fabricar por nós mesmos, mas só de receber como um dom; então, basta-nos acolhê-lo e abandonar-nos a ele" (Introdução ao Cristianismo, 41 ). A fé nasce, em suma, do encontro entre o movimento de autotranscendência do homem e a oferta absolutamente gratuita e indedutível da graça de Deus. Esse encontro não é óbvio: ao contrário, ele deve ser vivido em toda a sua dimensão agônica, marcada pela experiência da real alteridade do Outro: "O Credo cristão retoma, com as suas primeiras palavras, o Credo de Israel, assumindo também, no entanto, ao mesmo tempo, a luta de Israel, a sua experiência da fé e a sua batalha por Deus, que tornam-se assim uma dimensão interior da fé cristã, que não existiria de fato sem tal luta" (73).

A visão que Ratzinger tem da razão e da fé não é nada ingênua: há patologias da religião e há patologias da razão, como aquelas que levaram à violência dos totalitarismos e ao uso de terríveis armas de destruição. Essa observação, no entanto, não exime a fé do dever do diálogo com a razão, e Ratzinger não hesita em declarar que existe uma "necessária correlação entre razão e fé, razão e religião, que são chamadas a purificação recíproca e ao aperfeiçoamento mútuo, e que têm necessidade uma da outra e devem reconhecer uma à outra".

A fé – longe de ser sacrifício da inteligência – é, em suma, seu extraordinário estímulo e alimento. A razão que quer dar razão daquilo que existe, exercitada até o fim, abre-se ao estupor diante do mistério, onde habita o Outro, que quem crê reconhece como o Deus, ao mesmo tempo soberano e próximo...

O único Deus ao qual quem crê se confia é, portanto, o mistério do mundo, o sentido último da vida e da história, a razão irrefutável para desconfiar da miopia de tudo o que é penúltimo, o fundamento em relação ao qual se experimenta "a tensão entre poder absoluto e amor absoluto, entre incomensurável distância e estreitíssima proximidade" (109).

É precisamente o paradoxo da coexistência dessas duas características que ajuda a compreender em que sentido o Deus da fé é o Deus vivo: não um objeto morto, sobre o qual é possível exercer o jogo da inteligência, mas sim o Sujeito vivo e operante, ao qual é possível corresponder com a consciência e a liberdade da aceitação de uma aliança de amor. Não um Deus concorrente do homem, mas sim o Deus humano, cuja glória é o homem vivo!

O cumprimento do desejo humano no Deus vivo é, ao mesmo tempo, a sua superação em um nível que o desejo mesmo jamais poderia alcançar. "A verdadeira humanidade do homem é a humanidade de Deus, da graça, que enche a natureza" (154). Fé e razão, longe de serem inimigas, são chamadas ao encontro e à colaboração: "É importante – afirma Ratzinger na conclusão do seu diálogo com Habermas – que os dois grandes componentes da cultura ocidental se deixem envolver em uma correlação polifônica, em que se abram à complementaridade essencial entre si, de modo que possa crescer um processo de purificação universal, em que, em última instância, os valores e as normas essenciais, de algum modo conhecidos ou previstos por todos os homens, possam alcançar uma nova força de iluminação, para que possa voltar a ter força operante aquilo que mantém o mundo unido".

A correspondência de Habermas a essa proposta mostra como ela – avançando a partir da cátedra universal do Sucessor de Pedro – pode falar verdadeiramente à cultura do nosso tempo, no Ocidente mas não só. São os homens e as mulheres de pensamento tão responsáveis a ponto de corresponder do modo mais sério a esse apelo, a serviço da qualidade da vida e do futuro de todos?

A esperança é que o serviço sacerdotal de Joseph Ratzinger-Bento XVI, por definição dirigido a oferecer o sagrado aos homens, encontre plenamente essa correspondência fecunda.

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