Holanda deve proibir abate religioso de animais

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13 Junho 2011

Motty Rosenzweig é o único açougueiro kosher remanescente na Holanda e, caso uma nova lei seja aprovada, será o último.

O Parlamento holandês prepara-se para aprovar uma lei que acaba com a isenção para matadouros religiosos das normas que exigem que os animais sejam "atordoados" ou anestesiados antes de serem mortos. Como as regras judaicas e muçulmanas não permitem que os animais estejam inconscientes quando são mortos, na prática a lei baniria as práticas kosher (judaica) e halal (islâmica) de morte de animais. Para Rosenzweig, é o mais recente sinal da crescente intolerância religiosa em um país onde a mentalidade de tolerância vem sendo um valor característico desde o século XVII.

A reportagem é de Matt Steinglass, publicada pelo Financial Times e reproduzida pelo jornal Valor, 14-06-2011.

"O país mudou", diz Rosenzweig. Seu avô, que também tinha a mesma profissão, morreu no Holocausto, assim como 75% dos judeus da Holanda. "Eles estão nos fazendo sentir que nos querem fora, que querem que deixemos o país."

Muitos judeus e muçulmanos veem a proibição como parte de uma crescente hostilidade à imigração e à diversidade. Geert Wilders, político holandês da extrema-direita, defendeu que a Holanda proíba a burca, depois de a França ter restringido seu uso público; políticos como o premiê britânico, David Cameron, proclamaram o fim do multiculturalismo; e partidos anti-imigração, como o Finlandeses Verdadeiros, da Finlândia, são cada vez mais bem-sucedidos nas eleições.

Ainda assim, os defensores veem a proibição como uma continuidade da tradição holandesa de liderança em ética progressista. A proposta na Holanda veio do Partido pelos Animais, única legenda do mundo baseada especificamente na defesa do direito dos animais e que tem representantes no Parlamento nacional.

Marianne Thieme, sua jovem e carismática líder, diz que os líderes religiosos contrários à lei tentam frear a história.

"Aqui em nossa sociedade não aceitamos mais que os animais precisem sofrer", diz Thieme. Grupos religiosos se opuseram com frequência a mudanças sociais progressistas, acrescentou. "Vimos a mesma coisa com os direitos das mulheres."

Muitos veterinários acreditam que os animais sofrem mais durante a morte se não estiverem "atordoados" e continuam conscientes durante mais tempo enquanto morrem. Um estudo encomendado pelo governo à Universidade de Wageningen cita a Federação de Veterinários da Europa e Temple Grandin, uma especialista americana no assunto, como defensores da ideia.

Grupos judeus e muçulmanos, no entanto, criticaram o estudo universitário e destacam que Grandin defende o aperfeiçoamento das práticas kosher e não a sua proibição. Ela foi coautora de estudo nos anos 90 com outro especialista, Joseph Regenstein, da Universidade Cornell, e concluiu que as mortes de animais, quando bem realizada pelas práticas kosher, podem ser tão misericordiosas como nos mais modernos métodos não religiosos.

Regenstein criticou o estudo da Universidade Wageningen e vem fornecendo evidências para esforços legais da comunidade judaica para vetar a lei.

De fato, os abatedouros kosher dizem que suas regras têm como propósito justamente evitar o sofrimento. De seus dez anos de treinamento, Rosenzweig passou os primeiros dois aprendendo a deixar as facas tão afiadas que os animais não deveriam sentir nada quando a garganta é cortada. As facas são retangulares, sem ponta, impedindo o esfaqueamento penetrante.

Os padrões de abate halal variam de forma mais ampla, mas há tentativas de resolver isso. Yusuf Altuntas, que comanda o grupo oficial de contato entre a comunidade muçulmana holandesa e o governo, organizou conferências por toda a Europa para melhorar os padrões halal. Ele diz, porém, que políticos holandeses não tentaram se engajar nesse processo antes de decidir sobre a proibição.

Independente da avaliação científica, a questão é altamente política. A proposta de Thieme foi apoiada pelo Partido da Liberdade, de Wilders, que frequentemente usava valores laicos holandeses, como o apoio aos diretos dos homossexuais, contra os muçulmanos e outras minorias.

O governo, do Partido Liberal, essencialmente laico, decidiu apoiar a lei. O Partido Trabalhista, de oposição, também a apoiou, favorecendo a sua ala defensora dos direitos dos animais em detrimento de seu significativo eleitorado muçulmano. Ironicamente, os principais opositores são os democrata-cristãos, juntamente com um pequeno partido calvinista, o SGP. Ambos se identificam com grupos religiosos conservadores fora de sintonia com normas laicas.

De certa forma, o conflito aliou judeus e muçulmanos. O Amsterdam Jewish-Moroccan Council organizou protestos contra a nova lei, com imãs e rabinos marchando juntos.

"Compreendo que as emoções estejam lá em cima", afirmou Thieme, "porque você acha que sua comunidade religiosa está fazendo as coisas da melhor forma possível há milhares de anos, e é doloroso ser confrontado com fatos científicos que mostram de outra forma".

Para Rosenzweig, o conflito continua desalentador. "As pessoas não estão interessadas em como o abatedor kosher realmente trabalha", diz. "Eles dizem: a forma como fazemos aqui é a forma boa. E, se você quiser fazê-lo de uma forma ultrapassada e bárbara, volte a seu próprio país."

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