A vertigem do santo poder: função ou carisma, poder ou serviço?

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18 Abril 2011

Tendo encerrado depois de seis meses depois de uma duríssima luta, durante os quais morreram quatro cardeais, o conclave de 1740 se preparou para ouvir o discurso do cardeal de Bolonha, Prospero Lambertini. "Querem um santo?", disse sobriamente, sob o Julgamento da Sistina. "Elejam Gotti. Querem um político? Elejam Aldrovandi. Querem um bom homem? Elejam a mim".

A análise é de Giancarlo Zizola, publicada no jornal La Repubblica, 18-04-2011. O vaticanista escreve o artigo tendo presente o lançamento do filime "Habemus Papam" de Nanni Moretti.

A tradução é de Moisés Sbardelotto e a revisão da IHU On-Line.

No término do escrutínio, depois de apenas uma hora, o seu nome se repetiu em 49 das 50 cédulas, e ele assumiu o nome de Bento XIV. Com o seu estilo simples, mandou embora a retórica barroca que associa o trono pontifício ao terror do Sacro, e os jogos diplomáticos que visam a usá-lo como um poder entre os poderes. "Mesmo que toda a verdade esteja encerrada no meu seio", repetia com a discrição característica dos Grandes, "eu não encontro a sua chave".

A autocandidatura de Lambertini é uma exceção. Isso com relação aos candidatos renascentistas que se compravam o sólio ao som das moedas, mobilizavam os armeiros do seu próprio partido e tratavam os votos "apud latrinas", segundo as crônicas do conclave de 1458. Mas rompe também com a mitologia totalmente moderna dos candidatos que têm horror ao cargo, que entram em crise quando os escrutínios se orientam em seu favor e sofrem, segundo a vulgata, porque entendem naquele momento que as suas costas são inadequadas para o cargo.

"Um momento de terror", assim era designado aquele instante entre terra e céu, que transpassa todas as vezes o gesto crucial do Cristo de Michelangelo. Por isso, os rituais da glória que envolvem a eleição são balanceados pelos rituais da humilhação, a cinza sobre a cabeça do eleito, o trapo embebido em vinagre em cima de uma vara elevada na altura do seu rosto durante a coroação. Até a litania "Sic transit gloria mundi" repetida sem descanso pelo cerimoniário.

Essa abordagem aflitiva do papado que dá medo, da cruz monstruosa sobre as costas sempre muito frágeis, que só a graça divina poderá socorrer, ou a psicanálise de Nanni Moretti sedar, também reflete no fundo o estereótipo de um papado como projeção de um poder que transcende a história, mesmo que traduza o sentido de um abandono confiante, místico em alguns, aos desígnios celestes.

É ainda o Papa que Gérard Bassière faz escapar do Vaticano e imagina no volante de um táxi em Paris, perseguido pelas polícias de meio mundo, pelos telegramas do secretário de Estado e pelas orações das freiras de todos os claustros do universo. Ou o Papa de um sonho impossível como o Celestino V da Avventura di un povero cristiano, de Ignazio Silone. O Asdrúbal I de Luca Desiato também sonha em fazer com que sua tiara seja rouba, em perder a relíquia de São Pedro, em habitar no inferno de um subúrbio. E quanto ao João XXIV de Guido Morselli é mais um administrador delegado do que um pastor, move-se entre a Universidade Gregoriana formato MIT e o Ippac (Instituto para a Promoção da Psicanálise Católica). Um aperitivo de Habemus papam.

Ao contrário, Pier Paolo Pasolini vê uma saída nos próprios sinais da derrota da Igreja como aparato de poder. Essas rachaduras abrem caminho para um processo de renovação das suas relações com o mundo, e ele imagina um Papa que vai se acomodar com os seus colaboradores "em algum porão de Tormarancio ou de Tuscolano, não muito longe das catacumbas de São Damião ou de Santa Priscila".

Ao contrário, o Papa de Gabriel García Márquez em Outono do Patriarca segue o exemplo do pomposo Poderoso, sentado "com o seu anel no dedo sobre a sua poltrona de ouro", no ato de presentear, por meio dos seus fabricantes de calças privadas, 12 dezenas de calças de púrpura ao ditador sul-americano, ao qual, porém, nega no fim a canonização da mãe, desencadeando uma guerra.

O cardeal Sarto tinha medo até do trem. Considerava os carros ferramentas diabólicas. "Se o senhor não aceitar a eleição, o Senhor poderia permitir um acidente ferroviário em que Vossa Eminência poderia ser vítima junto com tantos outros. O senhor teria, diante de Deus, a responsabilidade por tantas vítimas". A intimidação do cardeal Satolli, segundo as crônicas, teve efeito: Sarto levantou os braços: "Seja feita a vontade de Deus". Assim foi eleito Pio X, que fará vítimas de outro gênero na luta indiscriminada contra os Modernistas.

A eleição de Bento XV foi de estreita medida. A Cúria que não gostava de Giacomo Della Chiesa lhe infligiu a humilhação de suspeitar que ele havia votado em si mesmo. Conseguiu-se identificar a sua cédula, e só então a manobra do partido curial foi derrotada. Della Chiesa havia votado em outro.

Não menos áspera foi a batalha no conclave de Pio XI. O cardeal Ratti, uma vez eleito, preferiu não responder à pergunta ritual do decano. Fez conhecer, em seguida, a sua aceitação e o nome. Quanto a Pacelli, eleito em um conclave rapidíssimo, a sua resposta foi com um salmo. "Miserere mei Deus".

A reação de Roncalli, de fato, não parece ter sido angustiada. "Eis-me pronto, ó Senhor, para viver e morrer contigo". Votado como Papa "de transição", João XXIII decidirá com a mesma paz a grande reviravolta do Concílio Vaticano II na Igreja do século XX.

Daqui parte um processo eclesial que focaliza a alternativa entre um papado como função ou como carisma, entre poder e serviço. Um dilema que emerge dramaticamente com a eleição de Albino Luciani, quando ficou claro que ele a sofria como um choque, que "não queria aceitar", referiu König, o cardeal de Viena. "Mas, uma vez aceito, se resignou". O trauma era tal que lhe tirava o fôlego, a sua voz era mal e mal perceptível quando ele disse que queria se chamar "João Paulo I". Sacudia continuamente a cabeça, recebendo os cardeais na sacristia: "Deus lhes perdoe. Sou um humilde Papa, um pobre Papa. Espero que vocês ajudem este pobre Cristo, o vigário de Cristo, a carregar a cruz".

Era de novo o senso de uma fragilidade, de uma desproporção humana, talvez de uma vertigem, mas desta vez talvez tinha a ver com as "lágrimas de Pedro", um tema muito vivo na tradição ortodoxa, que assume os contornos físicos, históricos da figura do chefe dos apóstolos, ardente na profissão de fé no Cristo, mas também seu traidor.

É o tema da crucificação de Pedro com os pés no alto, para simbolizar uma autoridade decapitada do poder e que desce deliberadamente até se misturar com a terra pisoteada pelos miseráveis, como Caravaggio a imortalizou em Santa Maria del Popolo (imagem acima). Pela qual as frustrações, as crises ascéticas, as angústias e as psicoses dos papáveis poderiam cobrir talvez os divãs psicanalíticos de Moretti e serem gravados ao vivo nos ábacos do Reino dos Céus.

Mas, até que um Papa não decida sair do preguiçoso álibi da "reforma espiritual" da Igreja e fazer as reformas estruturais do seu cargo absolutista, até que não se dê êxito à hipótese de mudança da monarquia pontifícia, com a sua Cúria, como havia pedido o Vaticano II e como o próprio Wojtyla havia proposto na encíclica Ut unum sint, o serviço petrino continuará sendo mal servido pelo sistema histórico incrustado nos seus flancos.

Isso o reveste de vestes tão pesadas que o tornam insustentável para um homem só, mesmo que subjetivamente dotado. E o Papa, se não for assistido por um conselho permanente representativo dos bispos dos vários continente, encontra-se muito sozinho para desenvolver a sua missão de governo, exposto às pressões da burocracia central e isolado do movimento da história e da sua própria Igreja.

 

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