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13 Abril 2011

"O islamismo foi derrotado pelo povo. Foi o povo que o ignorou e que não quis fazer a sua revolução em nome do Islã, e esse é o mérito das novas gerações da diáspora árabe e muçulmana no mundo."

Essa é a opinião do escritor marroquino de língua francesa Tahar Ben Jelloun, em artigo para o jornal La Repubblica, 11-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Ninguém havia previsto a revolta dos povos árabes. Nem os serviços de inteligência, particularmente eficazes e radicados, nem os analistas políticos, seja acadêmicos quanto jornalistas, nem a simples polícia ou sobretudo os líderes dos movimentos de obediência islâmica, dos mais radicais aos moderados. A centelha surgiu no dia 17 de dezembro de uma cidadezinha da Tunísia, depois de uma grande humilhação que levou Mohamed Bouazizi, vendedor ambulante de frutas e verduras, a se imolar, colocando fogo em si mesmo diante da prefeitura onde ninguém queria recebê-lo ou ouvir as suas lamentações.

Pôr fogo em si mesmo é algo totalmente estranho à cultura e às tradições árabes e principalmente à tradição islâmica que, como as outras religiões monoteístas, veta o suicídio porque o vê como uma afronta à vontade divina. Quem morre como suicida não tem direito a um funeral.

Outros cidadãos seguiram o exemplo de Mohamed Bouazizi, no Maghreb e em Mashrek. São todos muçulmanos, porém, no momento de se sacrificar, não levaram em conta a palavra de Alá. A primeira derrota do islamismo tem origem dessa desobediência a Alá. O fato de que centenas de milhares de pessoas tenham saído às ruas para protestar contra um regime corrupto e ditatorial, sem que jamais o Islã ou Alá fossem evocados é a demonstração de que as teses islamistas estão quase superadas e não conseguem mais ter adesão.

É compreensível que, na Tunísia, que havia sido laicizada pelo ex-presidente Bourghiba (1903-2000; deposto com as forças de Ben Ali no dia 7 de novembro de 1987) e que, no entanto, é em geral refratária ao fanatismo religioso, os manifestantes não tenham pensado em protestar em nome dos valores islâmicos. Pela primeira vez, a praça árabe não protestou contra o Ocidente nem contra Israel. O fato de que o Islã como constituição e referência principal para um novo poder tenha sido totalmente ignorado pelos milhões de pessoas que saíram às ruas é uma clara demonstração de como essa revolta se afasta dos hábitos consolidados.

A peculiaridade das revoltas árabes está na sua natureza espontânea e no objetivo que se colocam, o ingresso na modernidade, isto é, a afirmação do indivíduo e o seu reconhecimento como cidadão e não como súdito submisso. Nenhum dos partidos políticos existentes havia exigido essa modernidade de modo tão direto.

Mas é no Egito que a ausência dos islamistas durante as manifestações que conseguiram expulsar Mubarak no último dia 11 de fevereiro chama a atenção principalmente. Esse país é o berço do islamismo de 1928, quando nasceu a associação dos Irmãos Muçulmanos. Esse movimento sempre foi combatido pelo poder, porque Nasser fez com que um grande intelectual, Sayyid Qutb, o "maître à penser" dos Irmãos Muçulmanos, fosse enforcado no dia 29 de agosto de 1966, e porque Anwar Sadat foi assassinato no dia 6 de outubro de 1981 por um comando islamista que se infiltrou entre as forças armadas.

No último mês de fevereiro, o Egito foi "libertado" sem a participação dos islamistas. Os gritos de guerra que os manifestantes da Praça Tahrir pronunciavam faziam referência aos valores universais de democracia, dignidade, justiça, luta contra a corrupção e o latrocínio. As pessoas não exigiam apenas o pão, mas também valores fundamentais que farão com que os regimes corruptos não possam mais reinar em plena impunidade. É essa novidade que ajudou que a revolta penetrasse em outros países, também fechados e autoritários, como a Síria e o Iêmen.

Os islamistas exigem constantemente "uma higiene moral" do Estado, mas sacrificam sempre o indivíduo em benefício do clã, o clã dos crentes. Não se deram conta da evolução do povo, não perceberam o poder desse vento de liberdade que crescia em silêncio, até sem o conhecimento da maior parte dos protagonistas da revolta.

Essa é a novidade. Não foi a primeira vez que os egípcios saíram às ruas em massa. Não foi a primeira vez que a polícia os reprimiu com ferocidade. Não foi a primeira vez que jovens foram presos, torturados e até assassinados nos porões das delegacias de polícia. Mas foi a primeira vez que a cólera explodiu radical, profunda, irreversivelmente. E também foi a primeira vez que essa revolta assumiu características laicas, sem que os manifestantes o tivessem estabelecido.

Alguns militantes dos Irmãos Muçulmanos procuraram subir no trem da revolução em andamento, mas fizeram com que eles entendessem que não havia atmosfera, e os Irmãos Muçulmanos mantiveram um baixo perfil. Essa ausência, na dinâmica da revolução egípcia, teve consequências importantes no panorama político do país. Depois da partida de Mubarak e da transferência da direção do Estado para as mãos dos militares, os islamistas se reencontraram na disputa entre tantos partidos políticos, obrigados a colocar na surdina um fanatismo que se tornou anacrônico.

Como e por que os islamistas perderam o trem? Sobretudo porque os Irmãos Muçulmanos estão, há muito tempo, em crise em seu interior. As novas gerações não se entendem com as velhas. A retórica e os métodos de antigamente não funcionam mais. Essa crise foi deflagrada no momento da revolta popular. Os Irmãos Muçulmanos se encontraram novamente superados, marginalizados, ninguém mais acreditava nas suas ladainhas. Isso não quer dizer que o movimento irá desaparecer. Terá um lugar próprio no contexto democrático. Antes da partida de Mubarak, calculava-se que, no caso de eleições livres, os islamistas não superariam 20% dos votos. Hoje, essas estimativas estão sendo revistas para ainda menos.

Hoje, constatamos o desaparecimento da retórica islamista entre os jovens líbios que resistem à fúria do ditador Kadafi. Também nesse caso, a resistência de Bengasi é guiada pelas novas gerações, pessoas que, na maior parte dos casos, têm menos de 30 anos, que, em alguns casos, regressaram da Europa e dos Estados Unidos, onde trabalha e estuda. Chegaram com novos métodos de luta, particularmente Facebook, Twitter e as notícias difundidas por meio dos celulares. A retórica kadafiana não os atinge. Queimaram o "livro verde", uma confusão de pensamentos egocêntricos sem fundamento e sem interesse.

No início, quando os insurgentes tomaram a cidade de Bengasi, Kadafi procurou agitar o fantasma do medo e do terrorismo, declarando às televisões estrangeiras que se tratava de islamistas, de gente da Al Qaeda. Ele repetiu isso tantas vezes que se entendeu claramente que a sua tentativa era principalmente a de mandar uma mensagem aos ocidentais: atenção, se vocês acorrerem em socorro aos insurgentes de Bengasi, vocês darão uma mão à Al Qaeda.

A manobra não foi eficaz. Os rebeldes não exibiam o Alcorão, invocavam a ajuda das Nações Unidas, da América, da Europa. O mundo não podia abandonar uma população mal armada diante da artilharia do ditador que havia prometido que iria procurá-los "casa por casa, até dentro dos armários".

Quando o Conselho de Segurança, com a bênção da Liga Árabe e da União Africana, votou a resolução 1973, que autoriza os aliados a intervir em socorro do povo em perigo, Kadafi utilizou o mesmo estratagema, falando de cruzadas! Mas nem a França, nem a Grã-Bretanha nem ninguém mais foi à Líbia para esmagar muçulmanos. O único que esmaga e continua massacrando muçulmanos é Kadafi. A sua retórica islamistas está completamente defasada. Lembra aquilo que Saddam havia feito no momento da invasão ao Kuwait em 1991, quando havia acrescentado uma referência islâmica na bandeira e havia feito com que o filmassem em oração, ele que era um famigerado descrente.

Mas demos um passo atrás. O Ocidente, por muito tempo, acreditou que era preferível ter a ver com um ditador do que ter a ver com os islamistas. Acreditou que pessoas como o tunisiano Ben Ali ou o egípcio Mubarak fossem "bastiões" contra o perigo islamista. Os europeus fechavam os olhos e ajudavam esses regimes, faziam negócios com eles.

De repente, o islamismo adquiriu uma importância que não correspondia à realidade e aos fatos. Certamente, os Irmãos Muçulmanos contestavam o poder egípcio e se apresentavam como a alternativa diante do regime do partido único. A sociedade é atravessada por várias tendências políticas, e uma deles é islamista, mas não tem a amplitude e a força que certos observadores ocidentais lhe atribuíam. Certamente, a Al Qaeda procurou assentar-se no Maghreb, sequestrou pessoas, chantageou os Estados. Mas ninguém pensa que a Al Qaeda é o verdadeiro rosto do Islã.

Na Tunísia, a luta anti-islamista havia se tornado o álibi perfeito para permitir o enraizamento de uma ditadura, colocar a mordaça na oposição e fazer negócios sem sem perturbada. O líder do movimento islamista Ennahda, Rashed Ghannouchi, refugiado em Londres, disse, tendo recém voltado do exílio, que não quer instaurar uma república islâmica na Tunísia e que não pretende se apresentar para as eleições presidenciais.

A novidade que mudará radicalmente as relações entre o Ocidente e o mundo árabe é que o álibi do terrorismo islâmico não funciona mais. O islamismo irá continuar existindo, porque responde a uma exigência cultural e identitária. Mas é a ausência de democracia que favoreceu a sua expansão. Uma democracia bem assimilada levará em conta as correntes religiosas, assim como levará em conta as várias correntes laicas.

O islamismo foi derrotado pelo povo. Foi o povo que o ignorou e que não quis fazer a sua revolução em nome do Islã, e esse é o mérito das novas gerações da diáspora árabe e muçulmana no mundo. O vento da revolta dispersou, na sua evolução, as velhas ladainhas que procuraram fazer com que o mundo islâmico voltasse aos tempos do profeta Maomé (século VII). Mas os jovens têm uma nova chave de leitura do livro sagrado: uma leitura inteligente, racionalista e não literal. Esse é o elemento novo e revolucionário.

 

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