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08 Março 2011

A decisão de fiscalizar o uso de imagens religiosas no desfile de carnaval da cidade do Rio de Janeiro, tomada por instituição religiosa, suscita questões teológicas e pastorais. Símbolos da fé cristã apareciam apenas no carro que levou o cantor Roberto Carlos através da avenida Marquês de Sapucaí, no segundo dia dos desfiles, mostrou a reportagem de Diana Brito, publicada na Folha de S. Paulo da segunda-feira, 7.

O comentário é de Antonio Carlos Ribeiro e é publicada pela Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação - ALC, 09-03-2011.

A tensão – conhecida de vários carnavais passados – surgiu quando um grupo de tecnocratas do saber divino percorreu o barracão da escola, fotografou a alegoria, levou as fotos para avaliação da autoridade em imagens do sagrado e exigiu mudanças, ameaçando acionar a justiça, sob o argumento de proteger a iconografia religiosa.

Com uma perspectiva voltada à imagética, de traço barroco medieval – dando a impressão que cairá sobre as cabeças dos fiéis – a autoridade eclesial assumiu a decisão de que a imagem de Jesus não ficaria evidente. A instituição não permite a associação de uma imagem sagrada a uma festa popular. Ao invés da reflexão teológica – que exige tempo, disposição e vontade – optou-se por descaracterizá-la, colocando asas, cabelos claros ou véus que cobrissem o rosto.

A solução foi prática e rápida. Arriscando-se a abusar da paciência cultural, os censores se ativeram apenas às extravagâncias. A escola satisfez o capricho, desfilou, e a sociedade leu os detalhes da negociação, que condimenta a expressão artística crítica das diversas sociedades. Com uma única exceção. Como em 1989, quando a estátua do Cristo Redentor foi proibida, a solução foi o carnavalesco cobri-la com plástico e cercar o carro de "mendigos".

A decisão eclesial imposta pelo braço judicial, com o Estado laico a serviço da fé, levou o conflito patológico à imprensa em 1989. A publicidade midiática transformou o enredo "Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia", de Joãosinho Trinta, num desfile antológico. As contestações "rigorosas" e "punitivas" propiciaram elementos para discutir da espiritualidade e de costumes até a subalternidade ideológica da justiça. A refrega das disputas apaixonadas - o futebol e o carnaval – cedeu espaço à resposta previamente anunciada.

Mas faltou reflexão teológica diante de atropelos como anúncio impositivo do evangelho, da perseguição a teólogos, da campanha feroz para impedir a eleição de uma deputada comunista que defendia o aborto – misturando a condição de "mulher", "esquerdista" e "abortista" até a colocação de fetos de plástico sobre o altar – sem qualquer sensibilidade. Como o estranho zelo mortal do venerável Jorge, de O Nome da Rosa, de Umberto Eco.

Em meio à patológica violência cultural, o dogma e a ausência do debate. A expressão de fé conservadora, disposta ao uso de armas que vão do conselho ao pé do ouvido às fogueiras ideológicas, fazem o contraponto da ultra-direita e a vida cultural da metrópole, e da prática pastoral irrefletida e os centros de excelência teológica, a maior parte migrados para as Ciências da Religião, em busca de liberdade.

No centro da crise, a revelação pelo tornassol, esse indicador ácido-base que apresenta coloração de acordo com a acidez, visto como metáfora teológica da prática aguerrida da direita católica que transforma essa expressão do cristianismo na heresia apolinarista, já rejeitada no Concílio de Constantinopla (381d.C). O mesmo que concluiu o Credo Niceno-Constantinopolitano e incluiu no terceiro artigo a frase "que com o Pai e Filho é juntamente adorado e glorificado", de Gregório de Nissa, Basílio Magno e Gregório de Nazianzo, redescobrindo o Espírito Santo.  Em vão.

A dificuldade desses cruzados modernos, além do uso letal da internet, é agarrarem-se à idéia de que Jesus Cristo teria um corpo humano e uma mente divina. Se admitissem a máxima cristã: Quod non est assumptum non est sanatum [O que não foi assumido também não foi redimido], talvez aceitassem a humanidade plena de Jesus, pela qual o Filho de Deus assumiu as profundezas da experiência humana – incluindo o medo e a solidão da morte – e na qual poderia redimir até quem desceu à mansão dos mortos.

O Cristo sublimado está próximo da visão dos ricos e poderosos, e se expressa em sua piedade, também sublimada. Eles preferem o abstrato, o intocável e o etéreo. Até porque este não cria possibilidade de contestação. Esse Cristo deve ser mantido aureolado, entronizado e numa redoma de vidro. Lutero preferiu o Cristo crucificado, sem medo de mergulhar no mais profundo da dor humana. Só crê nisto quem sabe que, por mais que caia, ainda estará amparado em suas mãos.

Ao rejeitar uma cristologia do Jesus Cristo sublimado, assentado à destra do Pai, formalizado para a adoração, dependente dos ritos, dulcissimamente piedoso, perigoso à instabilidade emocional, o sambista intuiu o Cristo dos Evangelhos. Aquele da fronte ensanguentada, que nos encontra em meio ao sofrimento, a quem ao olhar as feridas encontramos as nossas, que Johann Sebastian Bach mostrou poética e musicalmente em Jesus Christus meine Freude [Jesus Cristo minha alegria], conhecido como Jesus Cristo Alegria dos homens.

Para substituir a compreensão do Concílio Ecumênico, esses guerreiros da cultura cristã medieval relacionaram essa autenticidade com o sacrifício, o suplício físico e o dolorismo, que Délumeau explicitou em O Pecado e o Medo. Isso explica a autoflagelação orgasmica, a tortura incessante do filme A Paixão de Cristo – sangue coagulado em mel, de Gibson – e a excitação diante da guerra. Parecem cultos, mas são guerreiros. De causa íntima!

O dolorismo não salva. A teologia cavalariça não entendeu a adoração verdadeira. A dramática crucificação de Gibson só diz algo a quem não vê os pequenos cristos cotidianos. Apenas o demônio. Em moinhos de vento.

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