''Eu sei que muitos pensam que sou louco, mas o humanismo está no fim''. Entrevista com Pier Paolo Pasolini

Revista ihu on-line

Populismo segundo Ernesto Laclau. Chave para uma democracia radical e plural

Edição: 508

Leia mais

Gênero e violência - Um debate sobre a vulnerabilidade de mulheres e LGBTs

Edição: 507

Leia mais

Os coletivos criminais e o aparato policial. A vida na periferia sob cerco

Edição: 506

Leia mais

Mais Lidos

  • O arcebispo do povo, entre oração e bicicleta

    LER MAIS
  • CNBB estimula Jornada de Oração e Jejum pelo Brasil por ocasião do Dia da Pátria

    LER MAIS
  • O país da Casa-grande

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

19 Dezembro 2011

Uma entrevista inédita com o escritor italiano Pier Paolo Pasolini, gravada em Estocolmo, na Suécia, no dia 30 de outubro de 1975, pouco antes da sua morte. "Não há mais católicos e marxistas no meu país. Venceu a revolução consumista". O texto completo está publicado no novo número da revista Espresso.

A reportagem é do jornal La Repubblica, 16-12-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O senhor foi escritor, ainda é. Como decidiu fazer cinema?


Isso tem raízes distantes. Quando eu era jovem, tinha 18-19 anos, por um momento pensei em ser diretor. Depois, veio a guerra, e isso cortou por longos anos toda possibilidade e toda esperança. E depois houve circunstâncias: depois que eu publiquei o meu primeiro romance, Ragazzi di vita, que teve sucesso na Itália, fui chamado para fazer roteiros. Quando gravei Accattone, era a primeira vez que eu encostava em uma câmera. Ele nunca tinha feito nem uma fotografia, e nem agora eu sei fazer uma fotografia.

O senhor prefere atores não profissionais. Como trabalha? Busca um ambiente e, quando o encontra, escolhe as pessoas depois?

Não é exatamente assim. Se eu faço um filme de ambiente popular, pego pessoas do povo, isto é, não profissionais, porque acredito que é impossível para um ator burguês fingir que é um operário ou um agricultor. Soaria falso de modo intolerável. Ao contrário, se eu faço um filme de ambiente burguês, já que não posso pedir que um engenheiro, um médico ou um advogado venha ser ator para mim, eu pego atores profissionais. Naturalmente, falo da Itália, e da Itália de dez anos atrás. Se eu estivesse na Suécia, provavelmente pegaria atores, porque não há mais diferença entre um burguês e um operário na Suécia. Falo de um fato físico. Na Itália, há uma diferença assim como entre um branco e um negro.

Nos seus últimos filmes, não há elementos religiosos, não é?

Não estou tão certo de que não haja elementos religiosos nos meus últimos filmes. Nas Mille e una notte, também havia uma espécie de inspiração religiosa em todo o filme. Não havia religiosidade confessional, temas religiosos diretos, mas uma situação de mistério e de irracionalidade havia. Todo o episódio de Ninetto, que é a parte central das Mille e una notte...

O senhor participou do diálogo entre católicos e marxistas na Itália?

Não há mais marxistas e católicos na Itália, não há mais católicos na Itália.

Explique, então, qual é a situação.

Na Itália, ocorreu uma revolução, e é a primeira da história italiana, porque os grandes países capitalistas tiveram pelo menos quatro ou cinco revoluções, que tiveram a função de unificar o país. Penso na unificação monárquica, na revolução luterana reformista, na revolução francesa burguesa e na primeira revolução industrial. Mas a Itália, ao contrário, teve pela primeira vez a revolução da segunda industrialização, isto é, do consumismo, e isso mudou radicalmente a cultura italiana em sentido antropológico. Antes, a diferença entre operário e burguês era como entre duas raças. Agora, essa diferença quase não existe mais. E a cultura que foi mais destruída foi a cultura camponesa, que era então católica. Assim, o Vaticano não tem mais sobre as costas essa enorme massa de agricultores católicos. As igrejas estão vazias, os seminários estão vazios. Se você vai a Roma, não vê mais filas de seminaristas que caminham pela cidade, e, nas duas últimas eleições, houve um triunfo do voto secular. E os marxistas também foram mudados antropologicamente pela revolução consumista, porque vivem de outro modo, em uma outra qualidade de vida, em outros modelos culturais e também foram mudados ideologicamente.

São marxistas e consumistas ao mesmo tempo?

Há essa contradição, todos aqueles que são declaradamente marxistas, mesmo que votem em marxistas, são ao mesmo tempo consumistas. Não só isso: o Partido Comunista Italiano aceitou esse desenvolvimento.

Mas quando o senhor fala de marxistas, fala do Partido Comunista ou de outras facções?

Sim, dos comunistas, socialistas, extremistas. Por exemplo, os extremistas italianos jogam bombas e depois, de noite, assistem à televisão, Canzonissima [programa de variedades da RAI], Mike Bongiorno [famoso apresentador de TV italiano].

Ainda existe a sociedade de classes?

As classes existem, mas – e este é o ponto original da Itália – a luta de classes é no plano econômico, não mais no plano cultural. Agora, a diferença é econômica entre um burguês e um operário, mas não há mais diferença cultural entre os dois.

E o novo movimento fascista?

O fascismo acabou, porque se apoiava em Deus, família, pátria, exército, todas as coisas que agora não têm mais sentido. Não há mais italianos que, diante da bandeira italiana, se comovam.

Há, portanto, uma dissolução da sociedade italiana de hoje, não é verdade?

Eu considero o consumismo um fascismo pior do que o clássico, porque o clérico-fascismo, na realidade, não transformou os italianos, não entrou dentro deles. Foi totalitário, mas não totalizante. Só um exemplo que posso dar: o fascismo tentou, durante todos os 20 anos em que esteve no poder, destruir os dialetos. Não conseguiu. Ao contrário, o poder consumista, que diz querer preservar os dialetos, os está destruindo.

Faça uma profecia, seja Tirésias. Há esperança no futuro?

Deveria ser mais Cassandra do que Tirésias. Perguntei hoje a dez jovens suecos com quem falei, fiz-lhes esta pergunta: vocês ainda se sentem mais próximos da civilização humanista ou já se sentem dentro da civilização tecnológica? E me parece que eles responderam, tristemente, contudo, que eles se sentem como a primeira geração de cerca de 30 gerações diferentes daquilo que tem havido até agora. E, para concluir, tudo o que eu disse, eu o disse a título pessoal. Se vocês conversarem com outros italianos, eles lhes dirão: "Aquele louco do Pasolini"...

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Instituto Humanitas Unisinos - IHU - ''Eu sei que muitos pensam que sou louco, mas o humanismo está no fim''. Entrevista com Pier Paolo Pasolini