A secular relação entre Igreja e sexualidade

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13 Novembro 2011

"Há um rico filão de teologia queer que está profundamente enraizado no discurso religioso e que agora deve sair". Stephanie Knauss, teóloga de 35 anos, está convencida disso. Em Trento, ela está terminando um projeto de estética teológica no Departamento de Ciências Religiosos da Fundação Bruno Kessler e está entre os palestrantes do congresso de Pádua Inquietações queer.

A reportagem é de Fabio Bozzato, publicada no jornal Il Manifesto, 10-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Pequena e determinada, Knauss faz parte do Conselho Nacional de Teólogas e está trabalhando em um livro sobre a representação da sexualidade na mídia, dos filmes à publicidade, passando pelo cibersexo. "Um olhar de antropologia teológica – explica – que busca pôr no centro a fisicidade das pessoas e a sua relação com o discurso religioso".

Eis a entrevista.

Falando de Igreja, é inevitável começar dos escândalos dos abusos sexuais.

Acredito que a Igreja vive desde sempre o problema da relação entre corpo e sexualidade. Estamos em Pádua: pense-se em Antônio, atormentado pelos desejos dos sentidos. Ou nas tentações de Jerônimo. Quando a Igreja detinha o poder político e o religioso, a questão podia ser escondida e controlada. Agora que ela só tem o poder religioso, a batalha sobre os corpos deve ser disputada com a sociedade secular, incluindo a ideia sobre o uso dos corpos, entendidos não como fim, mas como meio.

Você acredita que, com relação ao buraco negro da sexualidade, o fato de ser uma comunidade célibe e monossexual tem o seu peso?

Sim e não. Para a hierarquia, isso pode ser verdade e investe sobre a ideia e o exercício do poder, portanto, sobre a relação entre poder e sexualidade que estão sempre conectadas entre si. No entanto, "a Igreja" é muito mais. Penso nos mosteiros masculinos e femininos, separados ou vizinhos. Penso nas paróquias, que reúnem uma parte importante e leiga da sociedade. Acho que a questão dos abusos propõe à Igreja novamente o problema da sua identidade. Não me refiro só ao celibato, que agora é urgente enfrentar. Mas também a como queremos nos relacionar hoje com uma sociedade que, em sua maioria, é constituída por pessoas não crentes. E não o contrário.

Então, como você explica essa obsessão com os temas sexuais?

Certamente, a Igreja defende um poder simbólico. E é um poder forte. Penso na quantidade de símbolos religiosos usados pela publicidade: da cruz à queda do paraíso, são uma bagagem de símbolos usados no imaginário do mercado. Mas isso deveria interrogar a Igreja sobre o seu ser um mundo que perdeu o contato com a realidade até dos seus fiéis. Eu não tenho provas, mas aqui nos movemos muitas vezes sem provas. Não há, por exemplo, nenhuma pesquisa séria sobre a sexualidade do clero, muito menos sobre a homossexualidade. É isso é uma pena.

Que contribuição a teologia pode dar sobre as questões da liberdade sexual e do movimento queer?

Há um filão de teologia queer que está profundamente enraizado nos textos e no discurso religioso. Fazê-lo crescer pode ajudar a abrir espaços de liberdade para todos. O fato é que muitos argumentos contra gays e lésbicas sempre foram sustentados por referências religiosas. Ainda hoje, as mesmas explicações são usadas nos ambientes políticos conservadores, na Itália como nos EUA, para refutar, por exemplo, a questão do casamento entre homossexuais.

No entanto, conceitos como respeito, dignidade, amor não são variações heréticas, mas sim fundamentos teológicos. Essa teologia progressista já é majoritária no senso comum, porque já se separa a relação entre homem e mulher da obrigação da procriação. Por isso, deveria ser mais simples começar uma discussão sincera sobre a homossexualidade. Nesse sentido, é útil a contribuição do mundo judaico, com o qual se compartilham os textos antigos. No judaísmo, sem uma figura "papal", a reflexão se articulou muito mais, e os âmbitos progressistas têm um espaço valioso importante.

Porém, ainda se reconhece à Igreja uma enorme autoridade moral e um grande peso político.

Seria preciso entender a que nos referimos. Concordo em alguns momentos, como o papa que condena a guerra no Iraque: nesse momento, foi um gesto que parecia isolado, mas que logo se tornou grande. No entanto, no mérito da moral sexual, de que autoridade falamos? Parece uma tela que reflete a luz das suas próprias palavras. Quantos fiéis seguem os preceitos sobre esses temas? Talvez, uma ínfima minoria. E eu também poderia dizer que, nesse campo, ela tem muito menos autoridade sobre o seu próprio povo do que outras Igrejas, por exemplo as evangélicas, com mais capacidade de convencimento e de controle. O que me surpreende é que a Igreja parece muda em âmbitos onde ela poderia ter muito a dizer sobre o sofrimento social, sobre a crise. Vocês já ouviram vozes religiosas de autoridade se levantarem sobre essas questões?


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