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21 Novembro 2012

Pode-se impunemente "roubar" tuítes ou posts de contas de pessoas que desconhecem o fato ou citar textos de menores de idade sem pedir permissão? Nos Estados Unidos, espalha-se a convicção de que o crescimento da internet criou a necessidade de definir um código de ética e de respeito pela privacidade digital.

Há um mês, o instituto Poynter havia dedicado um simpósio a esse tema, e na semana passada falou-se novamente a respeito em Chicago, no International Digital Ethics Symposium. Lá, surgiu com clareza como blogueiros e jornalistas constantemente violam os códigos de ética do jornalismo e, portanto, como é necessário atualizar as regras para adaptá-las à era digital.

A análise é da jornalista norte-americana Fruzsina Eördögh, em artigo publicado no sítio ReadWrite, 09-11-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A ascensão da internet criou uma necessidade real de definir um código de ética e privacidade digitais. Eu não consegui parar de pensar nisso desde que eu participei da segunda edição do International Digital Ethics Symposium na semana passada. O evento abriu os meus olhos sobre como blogueiros e jornalistas digitais rotineiramente violam códigos de ética jornalística estabelecidos – assim como para a necessidade de atualizar essas regras para a era digital, protegendo ao mesmo tempo as pessoas sobre as quais escrevemos, particularmente os menores.

E isso não tem a ver apenas com os jornalistas. Para mim, os momentos de descoberta foram as palestras sobre o potencial da pesquisa de violar os direitos de privacidade e criar conflitos éticos.

"Roubando" tuítes e posts do Facebook

Os acadêmicos e pesquisadores se concentraram sobre as implicações da utilização de dados de sujeitos desconhecidos do YouTube, Facebook, Tumblr e Twitter. Como jornalista de tecnologia que cobre a cultura digital, eu usei muitas vezes essas mensagens das mídias sociais para escrever artigos sem a permissão do autor. Eu também raramente fiz o esforço de ir ao encontro dos autores para que eles soubessem que estavam sendo citados. Em mais de um dos meus artigos, eu recebi queixas das pessoas que foram citadas sem a sua permissão, incluindo alguns que usavam pseudônimos. Eu até fui bloqueado por um jornalista que eu admiro por (supostamente) ter usado os seus tuítes para fazer com que ela parecesse má.

Em minha defesa, eu não estou sozinha no uso das mensagens de outras pessoas das mídias sociais sem a sua permissão. Todo mundo faz isso agora, até mesmo publicações tradicionais, como a Fox News e a CNN regularmente puxam tuítes para posts de reação aos acontecimentos – e ninguém se importa. Às vezes, essas mensagens das mídias sociais são coletadas para celebrar a proeza da previsão de um homem, outras vezes para denunciar os racistas.

E os pesquisadores também podem ser culpados. Você postou um tuíte entre julho de 2010 e outubro de 2011? Se você respondeu "sim", você faz parte de um conjunto de dados usado por pesquisadores, dos quais há agora ao menos 244.

Durante o auge da polêmica Violentacrez, o site The Awl publicou um artigo sobre como todos esquecem que qualquer coisa que é postado na internet é público e fica à disposição para jornalistas (e pesquisadores). Mesmo uma comunicação entre amigos. Annette Markham, professora convidada da Universidade de Umea, na Suécia, abordou algo semelhante quando chamou essa falta de privacidade de uma "presunção" no Twitter: como os sujeitos tornam as suas informações e mensagens públicas, eles não têm nenhum direito à privacidade.

Essa noção é falsa. Os usuários têm o direito de saber o que está acontecendo com as suas comunicações e eles não têm que participar de enquetes, pesquisas nem mesmo de artigos de mídia se não o quiserem. Às vezes, a comunicação entre amigos realmente é apenas uma comunicação entre amigos. Coletas os seus dados poderia até ser uma violação de direitos autorais.

E as crianças?

Valerie Fazel, da Arizona State University, levantou a questão das implicações éticas da utilização do texto de menores – o texto, nesse caso, seriam os vídeos do YouTube – para fins de pesquisa. (Para aqueles sem uma bússola moral, o texto de menores é tratado com um código de ética diferente do texto de adultos.)

Os jornalistas têm que entender que, mesmo na cultura blogueira de hoje, em que as pessoas são pagas para ser profissionalmente irritantes, as crianças, mesmo assim, devem ter as mesmas proteções que recebem da mídia tradicional: fale com os pais e tente obter a permissão para citá-las, especialmente se você estiver retratando a criança em uma luz negativa.

A linha fica cruzada com mais frequência do que você pensa: o site BuzzFeed fez isso recentemente durante a noite das eleições coletando uma amostra de tuítes que usavam epítetos raciais ou que falavam sobre o assassinato do presidente. Essa violação da ética parece ser acidental: os escritores apenas copiaram os tuítes, depois os colaram em um documento e clicaram em "publicar". Protocolo padrão. Ninguém se preocupou em checar as idades dos autores das mensagens, pois quem tem tempo para isso?

Em uma inspeção mais próxima dos usuários do Twitter incluídos, porém, eu verifiquei que ao menos um terço eram claramente menores de idade. Eles não só pareciam jovens, mas também tuitavam sobre as dores do amor do colégio. A reação forçou alguns desses usuários a fechar as suas contas no Twitter, com apenas alguns deles reclamando no Twitter. (Outros fizeram coisas piores, deleitando-se em ficar famosos na internet por serem racistas.) Quatro solicitaram que o BuzzFeed removesse os seus tuítes, o que foi feito.

É improvável que os pais desses menores irão se queixar. Eles provavelmente não leem o BuzzFeed, e os seus adolescentes provavelmente não lhes contaram sobre o incidente. Mas esses pais têm todo o direito de ficar furiosos com o BuzzFeed (e com os seus próprios filhos, é claro).

Qual é o próximo passo para a ética jornalística?

Dada a prevalência dessas práticas, ainda é possível que os jornalistas digitais mantenham padrões éticos aceitáveis? Até pelo fato de eu ter pontificado sobre os padrões éticos de outras publicações, eu também poderia ser vista como fora de linha por apenas ter lincado a tuítes escritos por menores de idade sem pedir a sua permissão.

Quer você aprove ou não a forma moderna por meio da qual os jornalistas casualmente se apropriam dos posts das mídias sociais, claramente já passou da hora de reavaliar o que é e o que não é ético na era digital. Coletar tuítes pode violar direitos autorais e citar a comunicação das crianças pode violar o senso comum, mas essas potenciais consequências ainda devem parar os jornalistas. Todo mundo está fazendo as regras enquanto as coisas estão andando, sem pensar a longo prazo.

Antes de tentarmos tornar as pessoas responsáveis, precisamos ter uma compreensão comum sobre o que está certo e o que não está. O Poynter realizou o seu primeiro simpósio sobre o tema em outubro – e esse é apenas o começo de um longo e árduo processo. O que é bom. Afinal, estamos falando do nosso futuro digital coletivo.

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