Tibete vê número de autoimolações crescer

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20 Novembro 2012

Eles se chamam Lobsang Phuntsok, Tsewang Norbu, Sopa Rinpoche ou Lobsang Jamyang. No cartaz, o rosto deles aparece cercado por chamas, uma montagem fotográfica ingenuamente ousada. Eles são monges, envoltos em hábitos vermelho-escuro, ou jovens laicos de jeans. Uma data abaixo explica o momento do “sacrifício”. Desde 2009, segundo a contagem do site tibetano Phayul, de Dharamsala, 72 deles se imolaram pelo fogo, em sua esmagadora maioria no “Tibete do interior”, ou seja, sob tutela chinesa. Somente uma minoria sobreviveu.

A reportagem é de Frédéric Bobin, publicada pelo jornal Le Monde e reproduzida pelo Portal Uol, 19-11-2012.

Nas últimas semanas houve uma brusca aceleração dessa epidemia suicida no Tibete. Desde a abertura do Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC), no dia 8 de novembro em Pequim, seis tibetanos atearam fogo em si mesmos em dois dias. Em Rebkong, na região tibetana do Amdo (província chinesa de Qinghai), um dos focos dessa explosão de desesperança coletiva, milhares de manifestantes vêm desafiando a polícia desde então.

Entre os exilados de Dharamsala, essa crônica mortífera é seguida de uma mistura de paixão e de dor. “Isso me deixa doente, fisicamente doente”, se revolta Lobsang Yeshi, um monge originário do templo de Kirti (província chinesa de Sichuan) que fugiu do Tibete há dez anos – para o Nepal e depois para a Índia – atravessando os desfiladeiros gelados do Himalaia e arriscando sua vida. Em companhia de seu colega Kanyang Tsering, Lobsang Yeshi é, em Dharamsala, o mais informado sobre a atual onda suicida no Tibete, uma vez que seu antigo monastério de Kirti é um dos epicentros da tragédia.

“A polícia chinesa chega a espancar a multidão de espectadores que assistem às imolações”, conta Kanyang Tsering. Tomadas de impotência raivosa diante desses repetidos gestos de desafio, as autoridades chinesas do Tibete não encontraram nada melhor do que oferecer dinheiro a qualquer pessoa que forneça informações sobre suicídios em preparação. Em vão, de forma geral. Já a mídia chinesa minimiza o alcance político ao lhes atribuir motivações puramente particulares.

Invariavelmente, os “mártires” deixam uma carta enunciando os motivos de seus atos: a “liberdade para o Tibete” e a “volta do dalai-lama a Lhassa” – ele fugiu da capital do Tibete sob tutela chinesa em 1959 para se refugiar em Dharamsala. O fato de 72 tibetanos terem atentado à suas vidas para mostrar ao mundo esses dois pedidos é interpretado em Dharamsala como o sinal da profunda crise que tem minado o Teto do Mundo.

“É uma mensagem de desespero que mostra que a política de ocupação e de repressão da China no Tibete é um fracasso”, explica Lobsang Sangay, o novo chefe da administração no exílio, que herdou do dalai-lama em 2011 as funções de chefe político da diáspora.

O gesto é visto também como meio de despertar a conscientização das pessoas. “A meu ver, essas imolações se dirigem em parte aos governos do Ocidente que, tão ocupados em fazerem negócios com a China, se esqueceram do Tibete e legitimamente do sistema chinês”, ressalta Tenzin Tsundue, ativista tibetano cuja faixa vermelha que lhe envolve a testa se tornou famosa em todas as manifestações anti-Pequim na Índia.

Em Dharamsala, a dor também vem marcada por constrangimento, por um incômodo evidente diante do princípio da vida – sagrado no budismo – sendo desprezada pelo recurso ao suicídio, arma totalmente nova na história da luta tibetana. E Pequim não hesita em explorar a falha. Os “tibetólogos” chineses convocados afirmam que essas imolações “violam os preceitos fundamentais do budismo”. O argumento também é repetido no próprio Ocidente, suscitando um tanto de irritação em Dharamsala. “No Ocidente, alguns aderem à escola de um budismo clínico onde quase tudo é visto como violência”, se revolta o ativista Tensin Tsundue.

Os tibetanos de Dharamsala sugerem que se releia a abordagem sobre a questão do suicídio nos textos sagrados do budismo. Eles lembram, entre outras coisas, um episódio: antes de virar Buda, o próprio Sakyamuni se ofereceu em sacrifício a uma tigresa faminta para evitar que ela devorasse sua própria ninhada para sobreviver. Quanto ao uso da violência em si, a resistência armada – ajudada pela CIA – contra as tropas de ocupação chinesa a partir de meados dos anos 1950, mostrou que o movimento tibetano nem sempre foi de um pacifismo absoluto.

“O que qualifica a violência do ato suicida é sua motivação”, explica Thupten Nogdup, médium do oráculo do Estado em Dharamsala. “Se você se suicida em razão de sua situação pessoal, podem considerar isso como violento. Mas se você se suicida em nome da liberdade de seis milhões de pessoas [a população tibetana], então isso não é violência”. Assim se decide em Dharamsala a delicada questão da legitimidade espiritual do sacrifício supremo.

Deputado do Parlamento no exílio, Karma Yeshi não esconde sua irritação em ver os tibetanos sendo obrigados a se justificarem. “O que me parece contrário à ética é fazer julgamentos críticos [sobre o suicídio] quando se vive em um país livre.” “É particularmente injusto questionar a natureza do ato suicida”, concorda Dorjee Tseden, diretor nacional do Student for Free Tibet India, “em vez da verdadeira mensagem que há por trás, de que os tibetanos estão resistindo à opressão”.

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