“O allendismo existe no Chile, não no poder político, mas no meio do povo”, diz neta de Allende

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Por: André | 06 Novembro 2012

Uma sequência de fotografias em preto e branco adornam o salão desta casa simples de Ñuñoa, uma localidade de classe média de Santiago. Os retratos capturam uma cena cotidiana: uma criança, de cabelo cacheado, joga bola com seu avô, que a beija e abraça.

A reportagem é de Rocío Montes e está publicada no jornal espanhol El País, 04-11-2012. A tradução é do Cepat.

O homem é célebre no mundo inteiro: o presidente Salvador Allende, socialista, que no dia 11 de setembro de 1973, preferiu tirar a vida em La Moneda e não se entregar aos militares golpistas. A menina é Amaya Fernández Allende: atualmente tem 41 anos e é dona da casa e das imagens tomadas pouco antes do desastre. Não tem lembranças do seu avô – “eu não tinha nem dois anos quando houve o golpe” –, mas sua figura marcou sua história: “Admiro-o. para mim é um orgulho ser sua neta e também uma responsabilidade. Mas sou uma pessoa diferente. Eu sou Maya”.

E o allendismo, existe? “O allendismo existe no Chile e não necessariamente nos partidos nem nos poderes políticos, mas nas pessoas simples, no povo”. Por exemplo, “nas marchas estudantis, a figura de Allende esteve muito presente. Os jovens admiram sua lealdade e entrega ao povo”. E o pinochetismo? “Se existe está soterrado”.

Nas eleições municipais de 28 de outubro, Maya Fernández – a única dos netos de Allende que optou pela política no Chile – estreou nas ligas maiores ao converter-se na prefeita eleita de sua localidade. Em uma das grandes surpresas das eleições, destronou por 18 votos a Pedro Sabat, um dirigente da coalizão de direita que estava há mais de uma década à frente de Ñuñoa.

“Em Cuba tem que haver uma mudança”, disse a neta de Allende que viveu até os 20 anos em Havana

A socialista acredita que o país mudou: “Os estudantes nos deram uma grande lição, porque o Chile estava dormindo em relação a determinados temas vitais”. E identifica duas chaves do sucesso de sua campanha: “Um programa com alta participação popular e um árduo trabalho em terreno. Aqui mudou a forma de fazer política. As pessoas querem participar, estar e ser ouvidas”.

Maya Fernández é filha de Beatriz Tati Allende, a segunda das três filhas do presidente, e do ex-agente de inteligência cubano Luis Fernández Oña. Tati era a mais próxima ao seu pai, médica, assim como ele, e a mais política e de ideias revolucionárias. Quando Allende chegou ao Governo em 1970 converteu-se em sua colaboradora mais influente. No dia do golpe de Estado esteve com ele até que o presidente, no meio do bombardeio, a obrigou a se retirar. Ela, grávida de sete meses e mãe de uma menina de quase dois anos – Mayita –, retirou-se do palácio a contragosto. Enquanto o resto da família se exilou no México, Tati refugiou-se em Havana junto com seu marido e a sua filha. Ali deu à luz a Alejandro, que passou a se chamar de Fidel Castro. Quatro anos depois, em 1977, a filha de Allende se suicidou na capital cubana, mergulhada numa profunda depressão. Tinha 34 anos. As crianças, 6 e 3.

“Aqueles que a conheceram a recordam com muita admiração. Era muito enérgica, exigente politicamente, com muita entrega e lealdade. Sempre me doeu a questão da Tati. Teria gostado que ela estivesse viva. Mas minhas dores me fizeram acreditar na vida”, disse Maya, que tem dois filhos. O maior tem 11 anos; a menor, de dois, parece extraída das fotografias penduradas na parede: é idêntica a ela. Tem quase a mesma idade que Maya em 1973 e o mesmo cabelo cacheado. Chama-se Beatriz, em honra à avó.

Maya e Alejandro cresceram em Havana. “Eu era uma menina mais de bairro. Nunca foi uma carga ser reconhecida como neta de Allende”, disse com acento cubano e tom decidido. Hortensia Tencha Bussi, a avó materna, ia com regularidade do México para ver os seus dois netos. Numa destas visitas a menina conheceu Fidel Castro. Mas, esclarece, “a relação com ele não era, em nenhum caso, rotineira”. E o que opina sobre o regime hoje? “Em Cuba tem que haver mudanças”, disse a neta de Allende. “É bom para a democracia, em todas as partes do mundo, que uma mesma pessoa não se reeleja permanentemente. Na ilha há pessoas bem formadas que poderiam ser grandes dirigentes políticos”.

Em 1992, ela e seu irmão retornaram ao Chile para se reencontrar com a família – que havia retornado ao país –, e “fincar raízes”. Alejandro, que inverteu seus sobrenomes para deixá-los na ordem correta, estudou jornalismo e, depois de assumir sua homossexualidade, deixou o país e se radicou na Austrália junto com seu parceiro. Ela estudou biologia e veterinária e entrou no Partido Socialista, onde teve durante anos uma militância discreta. Em 2008, animou-se para se candidatar para vereadora por Ñuñoa – elegeu-se – e, em 2010, fez parte do comitê central do partido. Ao contrário de sua tia Isabel, senadora, Maya Fernández não é uma figura conhecida no país.

Em 2013, comemoram-se os 40 anos do golpe de Pinochet. Maya Fernández acredita que ainda há feridas abertas. “Meu avô morreu como quis: entregando-se ao povo, aos seus ideais. Sabemos onde está e podemos levar-lhe flores, cartas. Mas há muitas famílias que ainda não sabem o paradeiro de seus entes queridos”, disse. Ela, contudo, não acredita que seja bom ancorar-se no passado: “Eu creio que meu avô teria gostado de ter um olhar de futuro e de se concentrar nos grandes desafios. O principal, a superação da profunda desigualdade que persiste no Chile”.

“Defenderemos os nossos votos”

O Governo de Sebastián Piñera enfrentou acusações de diversos setores políticos devido à ineficácia na recontagem de votos e na entrega das atas. Na sexta-feira passada, cinco dias depois das eleições, o Serviço Eleitoral (Servel) entregou os resultados provisórios com 100% dos votos contados. Durante toda a semana passada, esta situação gerou incertezas em relação às autoridades eleitas por margem estreita de votos.

Uma das principais disputas é a de Ñuñoa, onde o Servel deu como vencedora a candidata socialista Maya Fernández por uma diferença de 18 votos. A Renovação Nacional, o partido do prefeito em exercício, Pedro Sabat, levou no sábado o caso ao Tribunal Eleitoral Regional. De acordo com o advogado Marcelo Brunet, “duas das 34 mesas de votação da comuna não teriam sido incluídos nos cômputos finais”. E isto, disse, beneficiaria a Sabat.

Maya Fernández confia em seu resultado: “Eles estão no direito de fazê-lo, mas nós vamos defender os nossos votos. Estamos muito tranquilos, temos as atas ordenadas e vamos continuar demonstrando – embora a diferença tenha sido pequena – que vencemos”.

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