Congresso Continental de Teologia, algo mais do que um congresso

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Por: Jonas | 01 Novembro 2012

Para Cecilio de Lora, o Congresso Continental de Teologia, realizado na Unisinos, contou com “aproximações bíblicas e hermenêuticas; sistemáticas e metodológicas; a partir de perspectivas sociais e também científicas, por parte de teólogos sacerdotes e leigos, homens e mulheres, católicos e protestantes”. Seu artigo é publicado no sítio Ameríndia. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

De 7 a 11 de outubro deste ano, 2012, aconteceu na Unisinos, em São Leopoldo - RS, Brasil, o Congresso Continental de Teologia, aos 50 anos do Vaticano II e 40 anos da teologia latino-americana e caribenha. A organização, precisa e delicada, esteve sob a responsabilidade da Ameríndia e de outras agências latino-americanas, com a direção geral de Agenor Brighenti, o bom teólogo brasileiro, hoje à frente da Ameríndia.

Esse Congresso veio sendo preparado há três anos, a partir dos Congressos Regionais na extensão geográfica americana e caribenha. Não foi algo improvisado, mas maduramente refletido e minuciosamente preparado. Foi uma alegria coincidir com as datas inaugurais do Sínodo Romano para uma Nova Evangelização, no início do Ano da Fé. Um sinal de comunhão eclesial, em que pastores e rebanhos buscam apaixonadamente a realização do Reino de Deus, a paixão de Jesus.

No Congresso estiveram presentes 750 participantes, leigos e leigas, religiosas e religiosos, sacerdotes e bispos (17 provenientes do México, Chile e Brasil), católicos e protestantes de diversas confissões (sobretudo anglicanos), latino-americanos, caribenhos, europeus e até asiáticos. Esta diversidade, alegre e harmoniosa, foi uma manifestação, espontânea e prazerosa, da autêntica catolicidade.

Para além do Congresso, esta assembleia cristã foi um verdadeiro Kairós, ou seja, um momento de graça, de comunhão, de esperança... Antes de resenhar outros momentos importantes do encontro, convém ressaltar esta impressão profunda pela qual todos nós saímos do encontro. No ambiente, ressoavam as últimas palavras, sinceras e dolorosas, do cardeal Martini, antes de morrer no dia primeiro de setembro (2012), sobre a necessidade de superar o distanciamento da Igreja cansada... 200 anos atrás da realidade... Porém, também as de Aparecida: “A Igreja necessita de forte impulso que a impeça de se instalar na comodidade, no cansaço e na indiferença, à margem do sofrimento dos pobres do Continente. Necessitamos que cada comunidade cristã se transforme num poderoso centro de irradiação da vida em Cristo. Esperamos um novo Pentecostes que nos livre do cansaço, da desilusão, da acomodação ao ambiente; esperamos uma vinda do Espírito que renove nossa alegria e nossa esperança” (DA 362). Esperança e alegria poderiam resumir adequadamente o que foi vivido na Unisinos.

Com efeito, em todos os seus aspectos, esperança e alegria marcaram o Congresso: na participação entusiástica de todos e todas em todos os eventos que começava com a primeira Eucaristia do dia, às 6h30min, até a última Conferência da noite, que se iniciava às 20h00s; na liturgia inicial de cada dia, de preparação criativa e delicada, estética e religiosamente estimulantes; nas relações cordiais, sem distinções – alguns destacavam a horizontalidade e outros a liberdade -, verdadeiramente comunitárias no melhor dos sentidos evangélicos... Tinha-se a impressão de que o Congresso era ponto de chegada de buscas múltiplas e plurais, como também ponto de partida para uma nova tarefa teológica, pastoral... a partir de Cristo, como nos recomendou Bento XVI em sua primeira encíclica, e que vigorosamente a nossa Igreja latino-americana e caribenha acolheu (DA 12). Tudo isso, fiéis ao Espírito que sopra hoje de maneira forte e nova. Vários conferencistas sublinharam a importância, teológica e vital, de uma pneumatologia que também parta de pressupostos culturais, espirituais e doutrinais de nossas Igrejas latino-americanas.

Os conteúdos foram profundos, enriquecedores, bem articulados. Na sessão inaugural do domingo, dia 7, falaram: Agenor Brighenti, grande inspirador de todo o caminhar antes e durante o Congresso, e o bispo brasileiro dom Demétrio Valentini que durante todo o tempo acompanhou os trabalhos, sendo ele próprio responsável de um seminário sobre “Teologia e renovação eclesial”.

A segunda-feira, dia 8, esteve centrada nas “Novas interpelações e perguntas”, a terça-feira, dia 9, nas “Hermenêuticas cristãs”; a quarta-feira, dia 10, na “Práxis e mística”; e na quinta-feira, dia 11, ocorreu a jornada conclusiva, com as “Prospectivas para a teologia”.

Ao longo destes dias, houve a apresentação de Conferências gerais para todo o Congresso, pela manhã e ao fim do dia. Além disso, aconteceram vinte Oficinas, continuadas durante três dias, sobre diversos temas relacionados com o desenvolvimento da teologia latino-americana em diversas perspectivas, muito ricas, animadas por especialistas bem conhecidos. Na continuação, alguns painéis abertos, de interesses atuais. Esta logística contou com delicada organização, livre participação e enriquecimentos mútuos. Mais adiante, todos os materiais do Congresso serão publicados, primeiramente de forma virtual e depois impressa. Por isso, não é o caso, nesse momento, apresentar os ricos e variados conteúdos, algo impossível. Cabe, sim, destacar que houve aproximações bíblicas e hermenêuticas; sistemáticas e metodológicas; a partir de perspectivas sociais e também científicas, por parte de teólogos sacerdotes e leigos, homens e mulheres, católicos e protestantes... Uma gama variada, muito rica, da qual parece importante ressaltar, aqui, a figura de Gustavo Gutiérrez.

Gustavo – hoje frei Gustavo Gutiérrez – é uma pessoa bem conhecida, cuja presença era esperada com interesse e emoção. E em agradecimento, é claro, pois os quarenta anos de sua obra “Teologia da Libertação” é um ponto de referência importante para o Congresso. Porém, estando disposto a viajar, uma queda lhe impediu de vir (“os acidentes são sempre acidentais”, dizia-nos com bom humor ao começar sua exposição). Esta palestra aconteceu por videoconferência. Sua aparição na tela arrancou longos aplausos, intermináveis e emocionantes, com toda a assembleia em pé. Não é por acaso que é considerado o pai da teologia da libertação. Com seu estilo habitual, profundo, comprometido e até em ocasiões agudamente irônico, Gustavo sublinhou a insubstituível centralidade do pobre no processo da teologia da libertação. Quando lhe perguntaram, em nome dos jovens, o que se podia esperar deles no desenvolvimento desta teologia, Gustavo respondeu quase lapidarmente “vigor, rigor e proximidade com o pobre”. Gustavo, enfim, trouxe para a assembleia a lembrança emocionada de José Comblin (“o professor”) e de Ronaldo Muñoz, recentemente falecido, que tanto contribuíram por meio da vida e obra para o desenvolvimento da teologia da libertação.

Além da cortesia, parece também importante destacar a presença e contribuição de Andrés Torres Queiruga, teólogo vindo expressamente da Espanha para falar no Congresso, convidado por seus organizadores. Sua primeira palestra teve como título “Teologia e novos paradigmas”, sendo enriquecedora, trazendo novos pontos de vista ao nosso fazer teológico. Na segunda conferência abordou o tema da “Teologia latino-americana e teologia europeia: interpelações mútuas”, questão não isenta de sérias confrontações interculturais. O espírito acadêmico e a personalidade próxima e cheia de simpatia, do professor emérito de Santiago de Compostela, foram muito apreciados. Ainda ressoa sua expressão mística e profética: Deus nem quer, nem sabe, nem pode fazer outra coisa que amar.

A teologia da libertação vive e goza de boa saúde. Antes de tudo, foi importante e gratificante o encontro de três gerações de teólogos da libertação, a primeira das quais, liderada por Gustavo, era generosa e carinhosamente apelidada de dinossauros. Aqui, não são apresentadas listas que podem ser incompletas e, portanto, perigosas. Contudo, entre todos e todas – um bom grupo de teólogas, leigas e religiosas – houve um rico e contínuo diálogo. Particularmente, foi importante a reunião de estudantes de teologia, para firmar acordos e compromissos que, posteriormente, foram compartilhados com a plenária, sendo calorosamente acolhidos e apoiados.

A teologia da libertação continuará enquanto houver pobres e pobreza. O título da Mensagem Final, “Perto de Deus... perto dos pobres”, tomado quase literalmente de Aparecida (392), destaca esta centralidade bíblica e teológica, já sublinhada em Medellín (1968). Além disso, esta teologia se abre criativa e esperançadamente aos novos horizontes, inesquecíveis hoje em dia: o da ecologia, o da justiça e a paz, num mundo que globaliza a pobreza, o da mulher, o da teologia indígena e afrodescendente... Enfim, sonhou-se com uma Igreja como João XXIII quis e configurou o Concílio: Luz dos Povos, Povo de Deus, em comunhão com as tristezas e alegrias de nossos povos..., tudo isso matizado por nossas Conferências Episcopais (Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida), a última das quais nos convida, mais uma vez, a um novo Pentecostes, que renove nossa alegria e nossa esperança. Isto, o Congresso Continental da Unisinos quis e viveu.

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