Para esquecer a crise financeira, Gregos buscam conforto em mosteiros

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24 Outubro 2012

Monte Atos, uma península autogovernada no nordeste da Grécia, vem atraindo peregrinos a seus mosteiros ortodoxos há séculos. Mas a crise da dívida levou a um forte aumento no número de hóspedes que procuram calma e consolo lá. As mulheres ainda não são bem-vindas, entretanto.

A reportagem é de Daniel Steinvorth, foi publicada na revista Der Spiegel e reproduzida pelo Portal Uol, 20-10-2012..

As manhãs sobre a montanha sagrada começam com golpes barulhentos. Um monge em frente à igreja de Agiou Andrea martela um bloco de madeira. O instrumento de percussão medieval, chamado simantron, é o toque de despertar para o primeiro serviço religioso do dia. Vários homens barbudos vestidos de preto correm pelo pátio. São 4h e está escuro como o breu, o ar se preenche com o som das cigarras.

Em poucos minutos, as lâmpadas de óleo serão acesas em Agiou Andrea, uma das 12 “sketes”, ou comunidades monásticas, de Monte Atos. Não há um único espaço vazio nos bancos do coro.

Sentados atrás dos monges que cantam e entoam ritmicamente, estão peregrinos da Grécia, Rússia e Romênia. Eles dormiram algumas horas em camas espartanas, sem eletricidade e água quente, e passaram a noite matando mosquitos.

Agiou Andrea não é um lugar para se esperar luxo. Mas ninguém veio aqui para isso. “Estou aqui para me lavar dos meus pecados”, diz Ilie, um jovem romeno que vive na Alemanha. “Aqui, estamos mais perto do céu do que em qualquer outro lugar.” Nikos, um empresário grego, chegou ao mosteiro para encontrar a si mesmo. “Para simplesmente desligar, meditar e esquecer o mundo material”, diz ele.

A “Montanha Sagrada” de Athos é um lugar especial para os cristãos ortodoxos. O terceiro dedo pouco habitado da Península de Halkidiki, no nordeste da Grécia, tem uma beleza selvagem, com quase 350 quilômetros quadrados de florestas densas e colinas. Diz a lenda que a Virgem Maria desembarcou aqui a caminho do Chipre e foi superada por sua beleza. Deus, então, deu a ela a montanha como presente. E como o “Jardim da Virgem Maria”, como o local é conhecido, é dedicado a apenas à “mais pura de todas as mulheres”, o acesso é proibido às outras mulheres. Pelo menos este é o motivo dado pelos monges que governam Atos como uma república monástica autônoma desde o século 10. Nem mesmo as fêmeas de animais são permitidas em Atos, com exceção das gatas.   

Vivendo pelo calendário juliano

Sempre que funcionários da União Europeia argumentam que a proibição deve ser retirada, os monges citam um documento bizantino mais de mil anos de idade que lhes promete soberania eterna sobre o Monte Atos. Os homens de lá não aceitam ordens do mundo exterior – principalmente da UE. Os monges vivem em outra era. Eles continuam reverenciando e invocando os nomes dos imperadores bizantinos, e ainda vivem pelo calendário juliano. Em Dafni, o único porto, a bandeira do Império Bizantino, que terminou 559 anos atrás, tremula ao lado da bandeira grega.

É esta renúncia desafiadora ao mundo externo que fascina muitos peregrinos. Mas, recentemente, não são só os fieis que estão chegando. Muitos gregos descobriram Atos como um lugar onde podem esquecer a crise.

Os monges têm reportado um maior fluxo de visitantes nos últimos anos. Aqueles que conseguem obter um visto para Atos, conhecido como “diamonitirion”, que dá o direito a uma estadia de quatro dias no máximo, podem se considerar sortudos.

Ilie, o romeno, recebeu uma autorização especial. Ele quer ficar lá pelo menos três meses. Para obtê-la, ele se registrou como voluntário em Agiou Andrea, onde ajuda na cozinha e na lavanderia. Ele diz que não há alegria maior para ele do que ter autorização para ser útil no lugar mais sagrado da Terra. “A maioria dos cristãos do Ocidente não leva a religião muito a sério”, diz ele. “Eles não acreditam com todo o coração.” As cruzadas, a tomada de Constantinopla e os ataques a mosteiros ortodoxos podem ter acontecido há séculos, acrescenta, mas continuam gravados na memória histórica dos monges.

Muitos monges, Ilie adverte, são, portanto, desconfiados de estrangeiros não-ortodoxos. Mas não são os únicos forasteiros em questão. Ultimamente, os políticos gregos também não são muito bem-vindos, principalmente por causa do escândalo imobiliário que engoliu o mosteiro Vatopedi há alguns anos. No final de 2005, o chefe do mosteiro, o abade Efraim, chegou a um acordo duvidoso com o governo liderado pelo então primeiro-ministro Costas Karamanlis: um lago no nordeste da Grécia que supostamente pertencia ao mosteiro Vatopedi (comprovado por documentos bizantinos, naturalmente) foi trocado por valiosos edifícios do governo.

O abade queria dinheiro pela terra, mas a perspectiva de criar um lucrativo império imobiliário também o atraiu. A venda dos edifícios rendeu ao mosteiro cerca de 100 milhões de euros (US$ 129 milhões). O Abade Efraim, disseram os jornais mais tarde , tinha realizado a façanha de transformar “ar e água em ouro puro”.

O escândalo levou à demissão de dois membros do governo, e Karamanlis teve de convocar uma nova eleição. Efraim foi preso em dezembro de 2011, para a indignação dos monges. Os verdadeiros culpados, segundo eles, estavam em Atenas. “Há muitas pessoas más que querem culpar os padres”, é tudo o que Ilie diz sobre o caso. Como muitos peregrinos, ele não está interessado em política. Em todo caso, Ilie diz que queria servir a Deus no ambiente mais austero possível. E Vatopedi, um dos mosteiros mais ricos, não se enquadra nessa categoria.

O dia está nascendo sobre a igreja de Agiou Andrea. A missa da manhã dura quase duas horas, e os visitantes têm que esperar até que ela acabe para receber um café da manhã simples. Eles precisam seguir as regras, e respirando um bom tanto de incenso com o estômago vazio é apenas uma delas. Ilie ensina como fazer corretamente o sinal da cruz e como beijar os ícones protegidos por vidraças sem bater a cabeça enquanto se está sonolento. “Isso sempre acontece comigo”, diz ele com um sorriso.

Após o café da manhã, os peregrinos se despedem. Os monges permitem que eles passem apenas uma noite em cada um dos mosteiros. Os peregrinos caminham até o próximo, passando por colinas e vales cobertos de oliveiras e pomares. A paisagem brilha em silêncio. O cenário todo é perfeitamente pacífico.

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