Niilismo ou espírito secular? A vaidade do Eclesiastes

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02 Outubro 2012

No vazio de vida e na insignificância em que estamos imersos, o Eclesiastes nos faz sentir a urgente necessidade de um desvelamento, de uma "revelação". Seria um livro de expectativa, quase uma invocação messiânica.

O constitucionalista italiano Gustavo Zagrebelsky proferiu a conferência no festival Torino Spiritualità, falando no ciclo dedicado ao livro do Eclesiastes, do Antigo Testamento, que ainda hoje é capaz de interrogar o espírito humano profundamente. De pai do ceticismo a precursor da arte do viver, ao longo dos séculos, sucederam-se muitas exegeses. Zagrebelsky nos convida a não nos resignarmos à vaidade do mundo.

O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 26-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O filho de Davi, rei em Jerusalém, não é um sistemático. A sua linguagem é aos saltos, aos pedaços e fatias, às adições e contradições. Tal composição permitiu que os intérpretes do Eclesiastes espelhassem a si mesmos no texto com muita liberdade, em vez de espelhá-lo.

Como desafogo de um espírito radicalmente desencorajado ou desiludido com relação ao verdadeiro, ao justo, ao bom acerca de tudo o que tem valor em si mesmo, considerou-se esse pequeno livro de um precursor da arte de viver sem excessos ("não seja demasiadamente justo, nem se torne sábio demais": 7,16) à la Montaigne ou como o testemunho de um desesperado da vida ("quero sentir a alegria, mas para que serve?: 2, 2) à la Leopardi, para citar apenas dois nomes.

Viu-se nele um pai do ceticismo, do niilismo, do desespero e finalmente do hedonismo egoísta, como fármaco e remédio ao taedium vitae de Lucrécio e de Sêneca ou ao spleen de Baudelaire. Mas a exaltação da vida, sobretudo juvenil, fez pensar também em uma apologia da alegria de viver. Outros, no denegrimento dos bens do mundo, viram um "antídoto à idolatria" das coisas vãs e breves (E. Bianchi): hoje, o sucesso, o dinheiro, os produtos da tecnologia.

Essas são interpretações atualizantes mais ou menos arbitrárias. Alguns, seguindo Renan, viram traçado até mesmo o perfil psicológico do judeu moderno, completamente secularizado e assimilado ao mundo: uma visão que pode ser facilmente generalizada. Mas, no fundo, toda interpretação é atualização e reflete o rosto do intérprete nas condições do tempo que é seu.

Como texto sem certezas "ontológicas", que coloca o ser humano em um espaço não governado pela dura verdade do ser divino que se revela ou que é revelada, ele foi considerado uma expressão do "espírito secular": o espírito da busca e da experimentação pragmática de "técnicas de sobrevivência" material e espiritual. Ou, finalmente, falou-se de "espírito de expectativa", subjacente à exaltação da vaidade do mundo.

No vazio de vida e na insignificância em que estamos imersos, o Eclesiastes nos faz sentir a urgente necessidade de um desvelamento, de uma "revelação". Seria um livro de expectativa, quase uma invocação messiânica. Finalmente, o denegrimento do mundo pode ser entendido como um impulso, uma preparação para a acolhida de um mundo que virá, um "pôr-se no limiar" de algum evento ou advento portador de sentido (P. De Benedetti). Essa é a piedosa interpretação cristã, já a partir da oração Vanitas vanitatum de João Crisóstomo: uma interpretação que a desvalorização luterana do mundo e a espera pela salvação apenas "por graça" acentuariam.

Aqui, não é preciso tomar posição. O texto é fixo, as palavras são repletas de significados, e as interpretações são livres. A única coisa que não se pode negar é a existência do fio condutor, a vaidade das vaidades que liga todo o discurso, do início ao fim, em um movimento circular, que reproduz literalmente a lei universal que move em um circuito fechado as coisas do mundo, debaixo do sol.

Um livro atual?

Na época em que o livro foi escrito foi (entre os séculos III e II a.C.) ele devia sê-lo. Não faltam referências polêmicas, hoje quase incompreensíveis, a eventos contemporâneos. Em geral, o Eclesiastes é um filho do seu tempo, um tempo de incertezas com relação aos valores da tradição, assediados por influências céticas provenientes da cultura helenística, pelo surgimento de seitas fanáticas como a dos Essênios, e por movimentos políticos radicais para a restauração da pura fé dos pais, sem que valores novos aparecessem no horizonte: um tempo do "não mais" e do "ainda não". O Eclesiastes reage com destacada indiferença, como os grandes céticos que indicam nos pequenos prazeres o eficaz alívio das dores de uma vida sem esperança.

E hoje? Se olharmos para o sucesso que o nosso texto encontra, e em medida crescente, na literatura exegética, na poesia, no teatro, na música, no senso comum que se apropriou de tantas expressões do Eclesiastes, assumindo-as como suas e esquecendo a fonte; se dermos ao juvenilismo hodierno, ao medo do envelhecimento e aos exorcismos contra a morte o significado de uma marca do tempo, para além do seu aspecto grotesco e desesperado, talvez possamos acreditar no Eclesiastes [ou Qohélet] como um filósofo para os nossos dias e assumir como nossa a palavra de Ceronetti: qohéletite [eclesiastite].

Esse encontro hodierno também poderia ser um sintoma de algo, como de uma infecção do espírito. Ou poderia ser o sinal da esperança em algo que deve nascer. Para entender mais a respeito, seria preciso a interrogação, nada menos, sobre as características profundas do espírito da época atual, em comparação com o espírito ao qual o Eclesiastes, há 22 séculos, deu voz.

Pode-se morrer de qohéletite. E também morrer percorrendo uma estrada de prazeres. Quem já não ouviu o fascínio poético das poderosas imagens que descrevem a insignificância dos dias da vida "debaixo do sol"? Quem não diria: é exatamente isso, eu também sei que é assim? As palavras do Eclesiastes caem em um terreno preparado para acolhê-las. E quem nunca disse: tomamos da vida, momento a momento, o prazer efêmero que pode dar, sem pensar no futuro? Também para isso o terreno está preparado.

E se Deus "pedir contas a você" (11,9), será possível lhe dizer: mas justamente tu me colocaste na desesperada condição mortal e não me disseste como sair dela. Sim, devo me lembrar do meu criador (12, 1), mas, exatamente porque eu me lembro dele e sei que sou o que ele quis que eu fosse, eu processo assim. Condene-me se puder!

Portanto, a voz do Eclesiastes é sedutora. Mas é também convincente? Ele se apresenta despojado de todo orgulho, e também nisso consiste o seu poder sedutor. Mas a sua modéstia é só aparente. Ele não diz: isto ou aquilo é vaidade, mas tudo, verdadeiramente tudo, é vaidade ou, melhor, vaidade das vaidades. Na verdade, aqui não há modéstia, mas sim a máxima prova de orgulho. É um colocar-se acima de tudo e de todos.

Mas esse ato de orgulho se eleva demais e arruína a si mesmo. Se tudo é vão, de fato, eu também sou e, especialmente, as palavras do próprio Eclesiastes. Se não são vãs, então não é verdade que tudo é vão, e pode haver outra coisa que contradiga "não vãmente" essas palavras. Além disso, o Eclesiastes, na sua "vaidade", constrói até mesmo uma ética, a ética do vão gozo da vida. Com base em qual princípio ou autoridade proeminente ele pode dizer que tudo é sem valor, salvo no que é dito por ele mesmo? Sairíamos dessa dificuldade se disséssemos que o nosso texto não fala da "vaidade" da vida, mas só dos "vaidosos" que encontramos na vida: estes sim seriam vãos e vazios, mas o próprio Eclesiastes poderia não estar entre eles pois ele toma distância (como em 7, 8) da vaidade dos vaidosos.

A vaidade e o vazio, portanto, poderiam não lhe dizer respeito. Mas, embora as interpretações possam variar, uma como esta valeria para aplainar os inacessíveis cumes do texto em uma visão banalizadora, mas ignoraria o dado mais evidente: o Eclesiastes não se professa, de fato, como diferente de todos os outros mortais; não se declara isento da lei geral da vaidade da vida. Ao contrário, ele também está completamente enredado na vaidade do mundo, no absurdo de todas as vidas que se desdobram debaixo do sol, destinadas a ser igualizadas na morte. Ele se considera um "pedaço" da insensatez geral; ou, melhor, uma testemunha de autoridade dessa condição geral.

Não devemos considerar os precedentes como vãos exercícios lógicos. Em vez disso, devemos rejeitar como falazes e tentadoras todas as afirmações de autorreflexivas acerca do valor (verdadeiro ou falso, vão ou não vão) das afirmações mesmas. Estas, sim, são insensatas. Uma proposição não é verdadeira ou falsa porque isso é dito por quem a pronuncia. É preciso um fundamento, um critério externo. Pois bem, pode ser tanto que o Eclesiastes tenha razão quanto que se equivocou. Mas, para poder dizer uma coisa ou outra, precisamos buscar a verdade fora das suas palavras. Não há verdade no Eclesiastes. Há muita sugestão e poesia autossatisfação de uma alma deprimida, ideologia – qohéletite – típica de um tempo de crise. Nas sua palavras, há "fome de vento". Ou, talvez, há a generalização de uma existência individual de fracassos.

Mas por que devemos conceder-lhe a autoridade de falar por todos e para sempre, e de condenar como insensata em geral a busca de algo que valha e como ilusória a ação voltada a construir, na vida individual e coletiva, algo que não seja vão?

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