''É preciso um Vaticano III''. Entrevista com Marcel Gauchet

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01 Outubro 2012

Intelectual francês, autor de Désenchantement du monde (Ed. Gallimard), Marcel Gauchet faz um balanço incisivo da situação da Igreja Católica. O filósofo, criado na religião católica, mas que hoje se diz agnóstico, abre pistas de reflexão para o futuro.

A reportagem é de Marie-Lucile Kubacki, publicada na revista La Vie, 25-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Cinquenta anos depois do Vaticano II, qual balanço o senhor faz do pós-Concílio, agora que o cristianismo não é a religião majoritária na Europa? O Concílio ainda é pertinente para o mundo atual?


Ele está superado! O Concílio foi um empreendimento de recuperação tardia com relação a uma enorme evolução que havia ocorrido por mais de um século, ao término da qual a Igreja se encontrava em uma posição delicada com relação ao mundo moderno, ou seja, depois de 1945 e a conversão global das mentalidades crentes, cristãs, ao universo democrático. A prova dos totalitarismos havia deixado a sua marca, e a situação era insustentável. Mas o mundo continuou se movendo, e tudo o que aconteceu desde então colocou o Concílio em uma posição precária. Eu penso que ele não é mais totalmente uma referência. O Vaticano II havia desfeito o Vaticano I. É preciso um Vaticano III que refaça um aggiornamento da mesma amplitude...

Em que o Vaticano II lhe parece superado?

Em tudo o que diz respeito ao estatuto da liberdade das pessoas. Na época do Vaticano II, havia dois problemas: a liberdade religiosa, que era o ponto-chave, evidentemente, e de outro lado a liberdade política. Para esses pontos, a coisa foi resolvida e não se fala mais nisso. Resta agora a questão do estatuto da liberdade das pessoas, que é muito mais profundo, porque estão em jogo os fundamentos morais dos indivíduos! O que é a liberdade pessoal? Qual é o sentido desse enorme problema que compreende a sexualidade, a reprodução, a família e a intimidade fundamental das pessoas? Esse não é um problema simplesmente da instituição, é um problema doutrinal que necessitaria de uma revisão muito profunda, porque a separação da sociedade é total.

Qual pode ser, portanto, o lugar da Igreja Católica nessa sociedade em plena mutação?

Cabe à Igreja dizer! Mas, de certo modo, há uma legitimidade da religião que não é mais discutida por ninguém. Não estamos mais no combate clássico "ou a influência da religião sobre a sociedade ou a destruição da religião", que, por exemplo, tornou totalmente dramática a separação das Igrejas e do Estado. Exceto pelos fanáticos que existem por toda parte, e há fundamentalistas da laicidade tão aberrantes quanto os fanáticos do outro lado, ninguém mais contesta a legitimidade do fato religioso. É uma mudança enorme que eu acho que deve ser bem avaliada. Em um mundo em que a mensagem política se esgotou completamente, o discurso religioso tem uma vocação eminente para ser um elemento da consciência política viva. É nessa direção que há um espaço a ser tomado.

Uma espécie de vigia espiritual...

Sim. Resta uma pergunta muito forte nas nossas sociedades que têm relações muito complexas entre o não crente declarado e o "simpatizante", que não é o aderente ou o militante, para retomar a linguagem política, mas que conta na paisagem. Estamos em um mundo em que a Igreja Católica não tem mais muitos praticantes, mas pode ter muitos simpatizantes. Deveria haver um reexame radical de todas essas questões, o que por enquanto não é feito. Os seus responsáveis não sabem avaliar a amplitude do que está acontecendo. Para eles, há uma fronteira clara: ou se é católico, ou não se é. Mas não é mais assim que as coisas ocorrem na nossa sociedade. A Igreja não deve ignorar os seus simpatizantes.

Como o senhor vê a Igreja Católica atual?

O balanço é contrastado. O que é novo é que não se pode mais falar da Igreja como de uma instituição homogênea. Ela é muito diversa, atravessada por direções contraditórias, por atitudes divergentes e, particularmente, ela não resolveu completamente o seu problema de adaptação à sociedade em que vive. Há uma tentação tradicionalista muito forte: como o número de fiéis diminui e a influência da Igreja sobre a vida social está em declínio, muitos são tentados a recuar para a cidadela para formar novamente uma Igreja muito sólida, minoritária e identitária.

Por outro lado, há uma Igreja que aposta na abertura à sociedade: essa Igreja é consciente de que, embora ocupe uma posição minoritária, a sociedade fundamentalmente não lhe é hostil. As duas tendências coexistem, sem que o problema seja enfrentado. A hierarquia católica freou muito a sua vontade de autoridade tradicional, portanto, reina um certo liberalismo que facilita o desenvolvimento de tendências divergentes, mas ela se recusa a tomar uma posição precisa sobre um certo número de pontos essenciais e, assim, se encontra em uma atitude de expectativa. Tudo continua sendo possível.

O senhor diz que a sociedade não é fundamentalmente hostil à Igreja, mas se percebem, no entanto, alguns enrijecimentos com relação ao religioso.

Sim, há tendências hostis, mas também um espaço verdadeiro para a palavra evangélica. Eu acredito nisso profundamente. Além disso, essa palavra pode ser ouvida mais do que nunca, na medida em que passamos de um cristianismo sociológico, devido ao conformismo social, a um cristianismo que se baseia na fé, mais valorizável de um ponto de vista autenticamente cristão.

Isso significa que os católicos adquiriram uma maior legitimidade, tendo sido levados a renunciar à ambição de uma forma de hegemonia religiosa?

Precisamente. Mas isso não significa que não haja uma minoria que ainda sonha. Ela também pode ser barulhenta, mas não me parece que reflita o mundo católico de maneira muito significativa. Fatalmente, encontram-se alguns traços nas posturas de uns e de outros, mas eu penso que há uma ruptura. No entanto, mesmo que se tenha tomado esse caminho, a escolha não é nem refletida, nem explicitada, e é um dos elementos que explicam a incerteza atual. O problema é que é difícil, ainda hoje, fazer um balanço das relações entre a Igreja Católica e o mundo moderno. Isso nunca foi feito, e, nesse sentido, o Concílio, afirmando a vocação da Igreja a entrar no mundo, abriu um processo que está longe de se concluir.

Há uma recepção do Concílio específica para a França por causa do maio de 1968?

Sem dúvida. O maio de 1968 foi uma verdadeira deflagração nas fileiras da Igreja. Em certas ordens religiosas, isso foi muito espetacular. Graças ao 1968, penso que houve uma abertura à sociedade que se difundiu para fora da França, na medida em que a Igreja francesa tem uma certa influência. Isso contribuiu enormemente para fazer da Igreja francesa uma das mais abertas do catolicidade atual. Quando eu ouço os bispos franceses, noto uma enorme diferença com relação ao que se pode ouvir em outros lugares. Eles são muito mais liberais e muito mais conscientes do fato de que, junto com a diminuição objetiva da influência do cristianismo na sociedade, nessa sociedade há uma escuta da mensagem evangélica mais profunda do que antes.

Qual é o maior problema da Igreja hoje: as questões de ética e de moral ou os integralistas?

A reaproximação com os integralistas, para mim, só interessa verdadeiramente à instituição no sentido mais estrito do termo. Que isso tem uma importância na gestão pastoral da sociedade, eu também posso pensar! Mas, globalmente, é um problema muito secundário, que é um pouco resolvido pelo fato de que se estabeleceu uma espécie de tolerância com relação a todas as formas cultuais ou sacramentais. Volta-se um pouco à Igreja tridentina, em que se deixava que as comunidades locais gerissem os seus assuntos no plano litúrgico.

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