Tráfico de seres humanos se torna grande problema na China; crianças são vendidas por até R$ 26.200

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26 Setembro 2012

Xiao Chaohua e sua mulher, Xiong Shuifeng, nunca se esquecerão do dia de São Valentim de 2007. Desde as 21h daquele 14 de fevereiro, passou a ser dolorido viver. Nessa hora, nesse dia, seu filho Xiao Xiaosong, de cinco anos, foi raptado perto de sua casa em Huizhou (província chinesa de Guangdong), e nunca mais foi visto, apesar de terem o procurado sem descanso.

A reportagem é de José Reinoso, publicada no jornal El País e reproduzida pelo Portal Uol, 25-09-2012.

"Xiaosong e sua irmã mais velha, na época com 10 anos, saíram para fazer compras em um supermercado que estava a 50 metros de nossa loja de roupas. Passaram 20 minutos e eles não voltaram, então fui atrás deles. Vi minha filha vendendo rosas com a filha do dono do supermercado, perguntei de seu irmão e ela me disse que não sabia onde ele estava", conta o pai, protegendo-se de ouvidos indiscretos, em um salão de chá junto a uma estação de metrô em Pequim.

Passaram-se mais de cinco anos. Seus pais acreditam que o pequeno foi raptado por uma rede de traficantes e certamente vendido, como acontece com milhares de crianças todos os anos na China.
Xiao Chaohua, 37, fala devagar, com o olhar perdido na lembrança e na dor árida de tanto procurar. Veio à capital para ganhar algum dinheiro e fazer contatos que talvez o ajudem. Carrega consigo uma sacola com um grande cartaz plastificado e fotocópias para pregar nas paredes com a foto e os dados de seu filho e de outras crianças também desaparecidas.

O tráfico de seres humanos se tornou um grande problema na China nas últimas décadas. É difícil saber quantas crianças são roubadas a cada ano. O número oscila entre 10 mil e várias dezenas de milhares, segundo as fontes. A maioria nunca volta a ver suas famílias. O governo só fornece números dos resgatados, e as organizações internacionais tampouco querem entrar em detalhes, dada a problemática da questão no país asiático. "O Ministério da Segurança é quem publica os dados oficiais. Em 2011, recuperou 8.660 crianças e 15.458 mulheres", afirma Pia McRae, diretora na China da ONG Save the Children. Ademais, existe uma discrepância sobre a definição de criança, já que para o governo chinês os maiores de 16 anos são adultos, enquanto os padrões internacionais situam a fronteira nos 18 anos.

Chaohua suspeita de duas pessoas. "Uma é uma mulher de meu povoado que se casou com um cara condenado a sete anos por tráfico de mulheres e afinal só permaneceu dois na prisão. Desconfio dela porque ela distraiu minha mulher na mesma hora em que meu filho desapareceu. A polícia não faz nada, e sempre me disse para que eu o procurasse. A outra é um cara de Sichuan, que estava brincando com meu filho. Levei-o à delegacia, prenderam-no por 24 horas e assim que o soltaram, ele sumiu. Não consegui encontrá-lo nesses cinco anos. Temo que, se ele morrer, eu fique sem a única pista que poderia levar a meu filho. Em sua casa está somente sua mãe idosa, que posso fazer com essa mulher?"

Na China, as crianças são vítimas do tráfico humano por várias razões: para vendê-las a famílias que não têm filhos - geralmente querem meninos, já que na China existe preferência por eles -, para casamentos - nesse caso, trata-se de meninas e mulheres jovens, que são compradas em zonas remotas por camponeses que têm dificuldade para encontrar mulheres ou porque são muito pobres ou porque padecem de algum problema físico -, para a prostituição ou para exploração do trabalho. Algumas das crianças acabam sendo adotadas por famílias estrangeiras.

O problema foi agravado pela política do filho único, que limita a maioria das famílias a um único filho nas zonas urbanas e a dois nas zonas rurais se o primeiro for mulher. Segundo a imprensa chinesa, o preço de uma menina varia entre 30 mil e 50 mil yuans (R$ 9.694 a R$ 16.244 ), e o de um menino entre 70 mil e 80 mil yuans (R$ 22.794 a R$ 26.200).

Alguns dos bebês são vendidos por famílias pobres demais para alimentar mais uma boca ou que não querem o bebê quando é menina, ou por mulheres que deram à luz diretamente para ganhar algum dinheiro.

A perda das crianças transtorna completamente a vida das famílias e arruína suas economias. "Em um negócio você precisa sorrir para os clientes, mas eu não conseguia", diz Xiao Chaohua. "Fechamos a loja de roupas, onde também morávamos, e nos mudamos para outra parte da cidade onde encontramos trabalho em uma fábrica de sapatos. Enviamos a menina para morar com seus avós. Minha mulher está com um distúrbio mental desde então".

Como todos os pais cujos filhos foram raptados, ele critica a inércia oficial. "A polícia não quer ajudar. E quando alguns pais tentam ir a Pequim para pedir ao governo que faça algo, os policiais os detêm e os devolvem ao seu vilarejo. Colocam nossos números da carteira de identidade na lista negra e controlam nossos telefones".

A queixa é comum entre todas as famílias na mesma situação. Sun Zhuo, de quatro anos, foi roubado no dia 9 de outubro, também em 2007, em Shenzhen (Guangdong), por um homem que o atraiu com brinquedos, segundo contou um vizinho ao seu pai. "A polícia nos disse que só podia registrar o caso passadas 24 horas. Durante seis dias não fizeram nada. Disseram que os traficantes não iriam comer meu filho porque não conseguiriam digeri-lo", conta o pai, Sun Haiyang, 39, por telefone. "Fui ao supermercado, olhei a gravação das câmeras e vi um homem comprando comida para ele. A testemunha garantiu que era o mesmo homem que havia visto. A polícia disse que não podia fazer nada porque ele só era visto de costas. No nono dia, encontrei uma imagem com ele de frente e voltei à delegacia. Responderam que isso tampouco ajudava, que eu precisava dizer como se chamava o homem. Para quê serve a polícia, então?", diz esse homem. Farto, Sun recorreu às redes de televisão e aos jornais, e pregou milhares de fotos do menino por toda parte. Sem resultados.

Para essas famílias, encontrar seus filhos é uma tarefa quase impossível. A maioria dos sequestros é levada a cabo por quadrilhas organizadas que contam com até centenas de membros e estruturas que se estendem por províncias, o que lhes permite afastar rapidamente as crianças de seus lugares de origem e apagar pistas.

He Zhisheng, cujo filho de seis anos, He Dingtao, foi raptado junto com um amigo de sete em 2009, diz que já não sabe mais onde procurar. Quando recebeu a ligação deste jornal, estava indo de trem para Wuhan (capital de Hubei). "Ouvi que havia um menino parecido com o meu", explicou. No dia seguinte, a decepção.

Em alguns casos, os criminosos chegam de carro e levam embora as crianças em plena luz do dia, como aconteceu com Ye Ruicong, que tinha nove meses quando foi arrancado dos braços de sua irmã em 2007. "Em vez de perseguir o carro, a polícia interrogou durante três dias a mim e a minha filha sobre o ocorrido", diz por telefone, furiosa, sua mãe Deng Huidong.

Algumas famílias aceitam a situação com resignação e dor. Mas cada vez mais recorrem aos microblogs (serviços de mensagens curtas na internet) e às páginas especializadas, onde podem colocar fotos e dados e compartilhar informações. Também distribuem caixas de fósforos e baralhos com fotos e telefones de contato.

Xiao Chaohua não recorreu só à internet. Quando junta um pouco de dinheiro, sobe em sua van forrada de fotos de crianças desaparecidas e percorre vilarejos em busca de sua agulha num imenso palheiro de 1,3 bilhão de pessoas.

O governo intensificou as campanhas contra o tráfico humano e periodicamente anuncia na televisão uma grande batida policial. Em julho passado, deteve 802 pessoas em uma operação realizada em 15 províncias. A investigação começou quando foi detectada a chegada de mulheres grávidas a uma clínica no norte da província de Hebei, vizinha a Pequim, onde os clientes compravam bebês. A dona da clínica foi presa. Outros quatro suspeitos foram detidos em um ônibus em Henan quando pretendiam vender quatro crianças. Esses criminosos costumam receber sentenças rigorosas, inclusive a pena de morte.

"A China é um país muito grande, que está passando por uma mudança social e econômica sem precedentes. Está enfrentando um desafio muito difícil com um problema complexo como o do tráfico humano, inclusive de crianças. No entanto, vemos que o governo fez progressos, especialmente na última década, e está tomando medidas tangíveis para combatê-lo", afirma MacRae.

Porém, os pais se queixam da indolência policial e da falta de apoio, e argumentam que sem compradores não haveria vendedores. "O governo diz que faz batidas contra os fabricantes e que resgata algumas crianças. Mas não resolve nenhum problema. Por que não vão atrás dos compradores? Por que em Guangdong custa só 700 yuans (R$228) comprar o hukou [registro de residência que todos os chineses precisam ter] para uma criança sem passado? Por que não suspende esses hukou e procura os pais dessas crianças?", diz Sun Haiyang. "As crianças são roubadas em Guangdong, as crianças são compradas em Guangdong, e o que faz o governo de Guangdohng? Crianças não são objetos, precisam de ar, se movimentam, não são coisas que possam ser escondidas indefinidamente". "Na China não existe um controle claro da lei. Os traficantes a burlam", diz Xiao Chaohua.

Segundo o informe de 2012 sobre Tráfico de Pessoas do Departamento de Estado dos Estados Unidos, publicado em junho, a "China não cumpre totalmente os requisitos mínimos para a eliminação do tráfico (humano)".

Xiao Chaohua enterrou sua tristeza sob o vaivém de trabalhos temporários. Sun Haiyang, atrás do insufilm de um táxi clandestino, que lhe dá a flexibilidade necessária para ir atrás de qualquer faísca de esperança. Todos dizem que nunca desistirão. "Continuarei procurando-o até o dia em que não puder mais", garante Xiao Chaohua. "Vou encontrá-lo".[...]

(Cf a notícia do día 26/09/2012 desta página)

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Amaldiçoem o difamador e o homem falso,
porque eles arruínam muitos que vivem em paz.
A língua intrometida inquieta muitos,
fazendo-os fugir de nação em nação;
ela destrói cidades fortes e devasta as casas dos poderosos.
A língua intrometida faz com que
mulheres excelentes sejam repudiadas,
privando-as do fruto de seus trabalhos. (Eclo 28, 13-15)


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