O espinho da rosa tropicalista

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15 Setembro 2012

"Se 'Tropicália era uma ilha', como explica Gil no filme Tropicália, Marcelo Machado dela agora nos oferece seu mais valioso mapa. O diabo, agora e sempre, é tirar as pessoas da sala de jantar" escreveu Amir Labaki diretor-fundador do 'É Tudo Verdade' - Festival Internacional de Documentários - em artigo publicado no jornal Valor, 14-09-2012.

Eis o artigo

Se eu fosse hiperbólico como Nelson Rodrigues, diria que esta sexta deveria ser feriado para todos poderem ir assistir à estreia nos cinemas de Tropicália, de Marcelo Machado. Prefiro dizer que, assim que acabei de ver o filme, tive de imediato três reações.

Primeira: quis vê-lo de novo. Segunda: quis mostrá-lo imediatamente para o maior número possível de amigos, missão então impossível por razões óbvias, estando o filme inscrito para a seleção do festival. Terceira, algo vinculada a anterior: tornei questão de honra batalhar por sua pré-estreia na abertura do É Tudo Verdade deste ano, o que muito celebrei naquela inesquecível "première" paulistana.

Havia um risco calculado. Dois anos antes, o festival vivera um de seus momentos mais marcantes com a abertura também em São Paulo com Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, protagonizado por vários personagens de "Tropicália": Caetano, Gil, Os Mutantes. Poderia parecer reiterativo.

Mas a mesma questão por certo desafiara Marcelo Machado durante a realização de seu longa-metragem de estreia. "Uma Noite em 67", por fim, não poderia ser estilisticamente mais distinto de "Tropicália".

O filme de Terra e de Calil, centrado na aurora do movimento dissecado por Machado, retira sua força ao apostar na simplicidade de seu dispositivo: a edição do material de arquivo da TV Record da noite final do mais mítico dos festivais com depoimentos certeiros dos participantes e organizadores daquela disputa. "Tropicália", por sua vez, esmera-se em intervenções gráficas e estrutura-se também de maneira diversa, até mesmo pela maior amplitude temporal e cultural de seu objeto.

A partir de um roteiro de Di Moretti e do próprio Machado que abre mão de qualquer narração em off condutora, o filme segue um esqueleto dramático cronológico, de 1967 a 1972, com exceção de um breve prólogo anunciando 1969 como momento essencial de ruptura. Essa grande curva histórica é, por sua vez, apresentada por meio de duas partes com estratégias narrativas diferenciadas.

A primeira, de apresentação do nascimento sociocultural do tropicalismo, é monopolizada pelo extraordinário material de arquivo, tendo por base o trabalho dos dois maiores especialistas brasileiros em pesquisa de arquivos audiovisuais, Eloá Chouzal e Antônio Venâncio. Já na segunda parte, o arsenal de sons e imagens é iluminado por depoimentos dos protagonistas do tropicalismo, sobretudo em sua esfera musical: Caetano, Gil, Tom Zé, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias (dos Mutantes) e o artista gráfico Rogério Duarte.

Essa divisão é ditada por uma razão interpretativa para além da opção formal. Machado sintetiza na primeira parte o caráter multiartístico do projeto libertário e cosmopolita do tropicalismo, como aliás frisado há cinco anos pela exposição com curadoria de Carlos Basualdo apresentada na Faap, em São Paulo. A "Tropicália", afinal, assumiu para si o título de uma instalação de Hélio Oiticica no MAM-RJ, de maio de 1967, e irradiou-se para o teatro ("O Rei da Vela") e, como notou Ismail Xavier, particularmente para o cinema ("Terra em Transe", "O Bandido da Luz Vermelha", "Macunaíma", "Hitler III Mundo").

A segunda parte cuida, então, de dissecar, com a introdução da palavra dos próprios artistas, a vertente hegemônica e mais célebre do movimento: a música popular. Lançado no começo de 1968, o álbum coletivo Tropicália ou Panis et Circencis, com arranjo e regência do maestro Rogério Duprat, tornou-se de imediato a obra farol do tropicalismo.

Em menos de um ano, na esteira da nova guinada autoritária representada pela decretação pela ditadura militar do AI-5, Caetano e Gil eram presos em São Paulo. É aquela data, 27 de dezembro de 1968, que deve constar no atestado de óbito da Tropicália.

É assim como uma espécie de velório do movimento que Machado nos apresenta, nas sequências mais intimistas de seu documentário, as andanças pelo exílio, entre julho de 1969 e janeiro de 1972, de Caetano, Gil, famílias e amigos. Sempre achei "London, London" uma das canções mais belas e tristes de Caetano, mas é em sua interpretação de um clássico do cancioneiro brasileiro, num especial gravado para a TV francesa em 1969, que a dor do desterro assume sua mais completa tradução.

Se "Tropicália era uma ilha", como explica Gil no filme, Marcelo Machado dela agora nos oferece seu mais valioso mapa. O diabo, agora e sempre, é tirar as pessoas da sala de jantar.

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