Com o crescimento das desigualdades, americanos deixam de pensar no futuro

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12 Setembro 2012

"Se os abismos entre as pessoas - que são universais - têm alimentado a inveja e o ressentimento mais do que a aspiração e o esforço, então significa que os Estados Unidos começaram a se tornar como os lugares que por muito tempo ansiaram em ser como eles", escreve Anand Giridharadas, escritor e colunista, em artigo publicado no Herald Tribune e reproduzido pelo Portal Uol, 11-09-2012.

Eis o artigo.

Mas, olhando de perto, muitos dos diagnósticos - que se originam tanto à esquerda quanto à direita - têm algo em comum. Eles detectam no país mais rico do mundo afecções que costumam ser associadas a lugares como o Haiti ou Bangladesh. Se existe um consenso tácito entre os críticos, é de que os problemas dos Estados Unidos são cada vez mais problemas de Terceiro Mundo.

Falemos sobre dois, em particular.

O primeiro diz respeito à ideia de que o país tem mais do que um problema de desigualdade. Escritores de ideologias diversas têm argumentado que americanos de diferentes classes sociais estão vivendo cada vez mais em mundos paralelos.

Isso é o que o escritor liberal Matt Taibbi invoca quando, na revista "Rolling Stone", ele lamenta que os ricos estejam vivendo "em um arquipélago global apátrida de privilégios - uma coleção de escolas particulares, paraísos fiscais e comunidades residenciais muradas com pouca ou nenhuma conexão com o mundo externo".

Mas você também conseguia encontrar essa ideia bem longe da "Rolling Stone", na revista "The American Conservative" do mês passado, onde Mike Lofgren, um assessor para os Republicanos no Congresso há 16 anos, condenou a "secessão" das elites americanas. "Nossa plutocracia vive agora como os britânicos na Índia colonial: no local e dominante, mas não parte dela", escreveu Lofgren. "Se alguém pode pagar por segurança particular, a segurança pública não importa; se alguém possui um jato Gulfstream, pontes caindo aos pedaços causam menos apreensão".

É chocante ouvir isso sobre os Estados Unidos, exatamente por causa de todos os outros lugares onde o testemunhei: em São Paulo, onde brasileiros ricos sobrevoam imensos congestionamentos em seus helicópteros, vivem em condomínios fechados e resistem em revelar endereços residenciais a aparelhos de GPS para evitar que roubos de carro virem algo pior; em Nova Déli, onde uma família de classe média alta pode ter seus próprios seguranças, cozinheiros, motoristas, geradores de energia e sistemas de tratamento de água, se tornando quase independentes da República; em Porto Príncipe, onde os bem-relacionados do Haiti têm seu próprio saguão de imigração, que inclui até um barman.

Vistos a partir de lugares como esse, os Estados Unidos por muito tempo representaram algo diferente: "O bom desse país é que os Estados Unidos começaram a tradição em que os consumidores mais ricos compram basicamente as mesmas coisas que os mais pobres", observou Andy Warhol uma vez. Ele estava pensando particularmente na Coca-Cola, mas a observação vale para muitas outras coisas e práticas.

Há uma geração havia mais probabilidade de ricos e pobres americanos se sentarem lado a lado em partidas de beisebol, frequentarem as mesmas escolas, viverem em famílias constituídas de forma similar, frequentarem igrejas com a mesma regularidade, viverem nas mesmas regiões e comerem em restaurantes mais ou menos equivalentes, segundo acadêmicos como Charles A. Murray, Robert D. Putnam e Michael J. Sandel mostraram.

O segundo diagnóstico envolve a forma como as pessoas concebem o futuro.

Os americanos tendem a pensar em si mesmos unicamente como voltados para o futuro. Quando era presidente, Bill Clinton costumava mencionar uma aula que ele teve na Georgetown University, onde um professor chamado Carroll Quigley atribuía o sucesso americano a uma característica que ele chamava de "preferência pelo futuro". Esta era a estruturação de Quigley de uma ideia em 1968: "O africano valoriza o presente, ao passo que muitos americanos de classe média colocam toda ênfase na importância do futuro e estão dispostos a fazer praticamente qualquer sacrifício no presente em nome de algum benefício futuro hipotético".

Deixando de lado a generalização ofensiva e a singularidade geral, essas palavras surpreendem pela sua incapacidade de descrever a vida americana hoje. "Preferência pelo futuro" não parece mais ser a tendência americana dominante; e lugares como Nairóbi e Lagos, considerando todos seus problemas, fervilham com conversas sobre o futuro - com grandes planos do que jovens empolgados insistem em criar, apesar das circunstâncias.

O próprio Clinton insinuou essa inversão quando observou, em uma viagem recente por Ruanda, que "eles têm esse enfoque no futuro do qual os Estados Unidos precisam".

Acontece que o futuro muitas vezes não consegue satisfazer os americanos hoje. Uma análise recente feita pelo Pew Charitable Trusts concluiu que "os americanos criados no ponto mais alto e no mais baixo da escala de renda provavelmente permanecerão lá quando adultos". O estudo descobriu que dois terços dos americanos acabam exatamente na mesma faixa da distribuição de renda de seus pais, ou abaixo.

Os campos ideológicos dos Estados Unidos divergem quanto ao que teria rompido o mecanismo que liga os sonhos, as ambições e as recompensas. Os da esquerda argumentam que a cobiça da elite e a compressão das classes baixa e média tornaram racional ser fatalista, perder esperança e parar de acreditar em sua própria capacidade de ação. Os da direita estão mais propensos a culpar um colapso nos valores americanos: as escolhas das pessoas de usar drogas ou de abandonar os estudos, ter filhos sem ser casados ou fazer amizades com as pessoas erradas.

Mas, em certo sentido, as causas são irrelevantes. Se os abismos entre as pessoas - que são universais - têm alimentado a inveja e o ressentimento mais do que a aspiração e o esforço, então significa que os Estados Unidos começaram a se tornar como os lugares que por muito tempo ansiaram em ser como eles.

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