''O bóson de Higgs não tem nada a ver com Deus''

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24 Agosto 2012

Que se deixe de definir o bóson como "partícula de Deus": é uma definição que soa desrespeitosa e que só pode criar confusão.

A opinião é do jornalista e escritor italiano Arrigo Levi, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 22-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu não sei quantos daqueles que se esforçaram para entender, não sendo físicos, mas lendo os jornais, o que é o bóson descobriram – agora que diminuiu o entusiasmo pela captura, depois de uma caçada que durou 48 anos, dessa extraordinária partícula que "dá massa a todas as outras" – que o apelido original do bóson não era, de fato, o de God particle, ou seja, "partícula de Deus".

Ao contrário, o prêmio Nobel Leon Lederman, para explicar a sua importância aos profanos, havia escrito um livro intitulado The Goddamn particle: ou seja, "A partícula maldita", maldita por Deus porque há décadas não se deixava encontrar, embora os cientistas soubessem que ela existia.

Foi o editor que teve a ideia de mudar o título para The God particle. O título agradou e prevaleceu. Além disso, uma partícula que, de algum modo, dava vida e peso para todas as outras não devia, por força, ter algo de divino? A Bíblia (Gênesis 1) não assegurava, talvez, que "no princípio, Deus criou os céus e a terra"? Quem escreveu, na antiga língua, Bereshit barà Elohim et hashamaim ve et haaretz infelizmente não sabia que poderia escrever, em vez do nome de Elohim, "bóson", ou, no mínimo, "bóson de Higgs", prevendo o nome do cientista, vivo ainda hoje, que descobriu a sua existência há algumas décadas.

Mas, então, visto que, no momento da criação, o bóson estava presente, dando o peso justo ao universo, o que Deus está fazendo? O que tem a ver? Ou talvez, de fato, não tem nada a ver, porque "Deus", no instante da criação do universo, simplesmente não existia?

Eu não sei o quão convincente foi o cientista que, no L'Osservatore Romano, se esforçou para nos explicar, com os seus "acenos balbuciantes" (foi ele mesmo que assim os definiu), que essa descoberta confirma que "o espaço, mesmo que vazio, não coincide com o nada" e que "uma flutuação quântica do vazio pode, sim, fazer com que surja matéria-energia lá onde ela não havia existia"; mas que nem por isso se trata de uma "criação a partir do nada, ou seja, creatio ex nihilo", mas apenas de uma "transformação".

Se eu entendi bem, o longo artigo do jornal vaticano visava, ou assim me pareceu, a tranquilizar os teólogos e os fiéis sobre a existência de Deus, apesar do bóson. O autor nos assegura, ao invés, que, se "o bóson de Higgs" conseguisse "aproximar os cientistas da teologia e os teólogos, da ciência", ele mereceria se transformar realmente em "superpartícula de Deus".

Isso me parece realmente um pouco demais. O Senhor Deus, como nós, seres humanos, o pensamos e o imaginamos por uma boa razão (mesmo que nem sempre: às vezes, o distorcemos e o transformamos em uma justificação para cometer ações malvadas), com essa partícula ou superpartícula hoje descoberta, eu não acredito que ele tenha justamente algo a ver.

O Deus que, talvez com um excesso entusiasmo, os nossos antepassados imaginaram até como "Criador do céu e da terra" é, no entanto, coisa nossa: foi o nosso companheiro de viagem no longo percurso que a nossa espécie realizou ao longo de dezenas de milhares de anos. Eu quase diria que Ele "cresceu conosco" (para os crentes em Deus, eu penso que somos nós que crescemos com Ele).

É bem verdade que ainda hoje há quem invoque o nome de Deus para cometer crimes horrendos. Estes nos causam horror. Mas também nós, seculares não crentes, respeitamos e nos sentimos próximos daqueles que encontram conforto e força para fazer boas obras na sua fé em Deus e nas suas invocações a Deus; e realmente nem sonhamos em colocar em dúvida a importância da sua fé na existência de Deus. Com todo o respeito ao bóson, que, com essa extraordinária história do milenar diálogo entre ser humano e Deus no planeta Terra, não tem absolutamente nada a ver.

Preferiríamos apenas que se deixasse de definir o bóson como "partícula de Deus". É uma definição que também para nós, seculares, soa desrespeitosa e que só pode criar confusão. Que a ciência faça a sua parte e deixe que a nossa intensa reflexão sobre o destino da humanidade, e sobre Deus, faça a sua.

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