Uma ''primavera'' islamista?

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26 Junho 2012

O que está em jogo no mundo árabe é o futuro da modernidade. Por enquanto, é a regressão que parece predominar.

A análise é do poeta, jornalista e escritor marroquino Tahar Ben Jelloun, em artigo publicado no jornal Le Monde, 17-06-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Por que as revoltas árabes se aproveitaram mais do islamismo do que da democracia, embora os militantes religiosos não tenham nem dado início nem participado das revoltas populares?

A primeira razão que se impõe é a da ausência de democracia nesses países; o fato de organizar eleições é uma técnica, não uma cultura bem assimilada. Nenhum Estado árabe até hoje chegou a ser um Estado de direito.

A segunda razão reside nas inquietações provocadas pela crise econômica e financeira que sacode o mundo. A dimensão religiosa se torna um refúgio metafísico. Contra o absurdo do dinheiro virtual, contra a especulação que envolve a ruína de milhões de famílias, o muçulmano exibe a sua religião; coloca-a na frente e faz dela uma proteção mágica e principalmente tranquilizante.

O Islã é de natureza conciliadora, aconselha a paciência e o recurso a Deus. O povo tunisiano e o egípcio, por exemplo, escolheram majoritariamente o Islã como cultura e identidade.

Aparentemente, encontram-se à vontade no exercício cotidiano dessa religião e se orgulham disso. Isso decorre do fato de que as ditaduras que os dominaram por décadas foram percebidas como as emanações da política ocidental. O Ocidente como um todo – Europa e América do Norte – é considerado como o cúmplice desses ditadores, mas também como o provedor de uma cultura secular, em oposição às tradições ancestrais de uma sociedade em que o Islã sempre foi vivido como um moral e a fonte de uma grande civilização.

A laicidade é entendida pelos islamistas não como uma separação entre religião e Estado, mas como uma negação da religião, um ateísmo mascarado que não ousa se afirmar diretamente. Toda discussão a esse propósito é rejeitada. Existe, no entanto, uma sociedade civil que faz da laicidade o seu cavalo de batalha, mas é minoritária e combatida com argumentos enganosos e demagógicos, e, em alguns casos, com a violência criminosa. Espaço para o Islã como ideologia, moral, cultura e identidade!

A tendência é mais integralista, já que segue o wahabismo, do nome de um teólogo do século XVIII que exaltava um Islã puro e duro, sem nuances e sem liberdade de interpretação. Nos anos 1990, wahabitas vindos da Arábia Saudita destruíram túmulos de eremitas na Argélia, considerando que o princípio da santidade é ilegítimo e antimuçulmano.

Outros militantes dessa corrente recentemente destruíram mausoléus na Tunísia, onde estão sepultadas personalidade consideradas como santas pelo grande público. No dia 20 de maio, militantes salafistas manifestaram em Kairuan, exibindo sabres, gritando o nome de Osama Bin Laden, convidando, no site Kapitalis.com, a matar "todos os judeus, os secularistas e os não crentes". Segundo estimativas oficiais, 400 de 5.000 mesquitas estão nas mãos desses radicais violentos, que perseguem, além disso, os namorados nos parques.

Esse Islã que triunfa prevalece sem muito esforço. Lê-se no rosto dos militantes e dirigentes islamistas uma satisfação bem-aventurada. Estão felizes. A sua cultura não foi importada do exterior nem imposta pelos ocidentais. Eles sentem que, neste momento, nada pode se opor ao seu projeto.

No Marrocos, a resistência está presente. No dia 27 de maio, uma grande manifestação contra a política do governo islamista e em favor da dignidade ocorreu em Casablanca. Embora as reformas propostas por alguns ministros foram adiadas ou descartadas, subsiste uma vontade de islamização da sociedade. O marroquino sempre se sentiu pertencer ao Islã sem gritar isso sobre os telhados. Não é preciso lhe lembrar essa dimensão que faz parte da sua vida.

A tolerância é uma tradição no país, com exceção de certos momentos em que ela desaparece, quando os jovens ousam comer publicamente durante o mês do Ramadã, ou quando fazem referência a uma cultura universal, especificamente na música. Eu vi na noite do dia 24 de maio, em Rabat, durante um festival de música mundial Mawazine, uma multidão estimada em mais de 100 mil jovens cantando em coro com o grupo de hard rock Scorpions e exibir faixas de fã-clubes desses roqueiros exuberantes. A mesma coisa para o cantor jamaicano Jimmy Cliff, Lenny Kravitz ou Mariah Carey.

O festival foi combatido pelos islamistas e pela sua imprensa. Mas foi mantido, felizmente, dado que o grande público pôde assistir, gratuitamente, a vários shows. O alto patrocínio do rei Mohamed VI não é algo anódino. Esse chefe de Estado é muito hábil: discute com o chefe do seu governo, modera, aconselha e ao mesmo tempo encoraja o pluralismo cultural e a abertura ao mundo.

O caso do Marrocos é interessante porque existe uma sociedade civil dinâmica que considera o islamismo apenas como uma etapa no processo de democratização do país. Etapa seguida com vigilância pela imprensa e pelos movimentos de contestação. Resta um ponto obscuro: o processo contra o cartunista Khalid Gueddar e a condenação a um ano de prisão para o rapper Mouad Belghouat. Os islamistas não gostam nem do humor nem do deboche.

Outra coisa é o que está acontecendo no Egito. Um país em que a revolução ainda não deu à luz todas as esperanças do povo. Mas a resistência dos revoltosos, que veem a sua revolução confiscada por fanáticos, está presente e ainda não se resignou. A eleição presidencial tentou ao menos uma coisa: cada voto conta e, apesar de algumas fraudes, há um suspense até o último minuto. Não é mais possível trapacear e fabricar eleições sob medida, como fazia Hosni Mubarak.

Os islamistas obtiveram apenas um oitavo dos votos. Mas sofrem a concorrência dos salafistas que querem a aplicação imediata da sharia e a intervenção do Estado nos mecanismos econômicos. Além disso, são inimigos declarados dos coptas. Os seus militantes provêm dos bairros populares pobres. Comparados a eles, os Irmãos Muçulmanos parecem ser um mal menor. Os seus partidários se situam nas classes médias e são a favor de um liberalismo econômico.

Mohammed Morsi tem alguma chance de vencer e, se assim for, terá que chegar a um acordo com os militares que manipulam a situação e farão de tudo para controlar os florescentes negócios (eles gerem mais de 20% da economia do país) que Hosni Mubarak lhes havia concedido.

Enquanto uma lei proíbe que as pessoas do velho regime se apresentem nas eleições, o general Ahmad Shafiq, último primeiro-ministro de Hosni Mubarak, conseguiu contornar esse obstáculo, e ei-lo no final da eleição presidencial. É preciso dizer que ele tem os votos maciços dos coptas e dos nostálgicos do "mubarakismo". Os militares o apoiam. Desde o início da revolução, mais de 12 mil jovens foram presos e condenados por tribunais militares excepcionais; outros cidadãos foram mortos durante as manifestações.

Independentemente do resultado final, o povo egípcio está consciente do fato de que a etapa islamista (não necessariamente a dos salafistas, que seria a mais dura) é inevitável. Confrontados com a realidade, os islamistas perderão credibilidade. A desilusão é quase programada. O Estado de direito não se forma por decreto; ele se constrói dia a dia, através das provas e das exigências de uma verdadeira cultura da democracia.

Na Síria, grande parte dos cristãos apoia Bashar Al-Assad, temendo a chegada dos salafistas em caso de vitória dos insurgentes. O cenário islamista do pós-Bashar é plausível, embora a oposição minimiza a importância dessa corrente. Essa não é uma razão para aceitar ou minimizar a gravidade dos crimes cometidos pela família Assad, educada por um pai acostumado à eliminação física de todo opositor (o massacre de Hama, em 1982).

Um último ponto que joga a favor da vitória dos islamistas um pouco em todo o mundo árabe: o medo do Islã na Europa é cada vez mais cultivado por políticos e intelectuais que falam de "fascismo verde" e de ameaças à identidade europeia. Eles retomam as teses do jornalista norte-americano Christopher Caldwell, que havia realizado uma investigação sobre o avanço da religião muçulmana nos países europeus, afirmando em uma entrevista que "o Islã está na melhor posição para predominar no plano demográfico e filosófico", e que ele não é "assimilável a cultura europeia".

Essa opinião alimentou a islamofobia latente, que permitiu que os partidos de extrema direita na Europa tivessem escaladas preocupantes, como na Noruega, na Finlândia, na Holanda e na Sérvia, sem falar do sucesso da Frente Nacional na França ou do dos Democrates Suisses e do Partido Nacionalista suíço (26,6%).

No limite, o medo do Islã é um bom aliado do extremismo e do racismo. Alguns muçulmanos usam os mesmos estratagemas para rejeitar o que vem do Ocidente, e principalmente aqueles que defendem o diálogo entre as religiões. Com as suas atitudes provocadoras, desafiam os valores da República e preocupam as populações europeias.

No entanto, o que está em jogo no mundo árabe é o futuro da modernidade. Por enquanto, é a regressão que parece predominar.

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