Tecnologia instiga rebelião em áreas remotas do Tibete

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29 Mai 2012

O jovem monge budista, com a voz abafada e nervoso, falava sobre as autoimolações e os protestos que varreram regiões do Tibete, na China, quando o barulho insistente de uma mão batendo na madeira soou atrás dele. "Toc, toc, toc..." Seu convidado se calou, mas o monge fez um gesto tranquilo indicando um computador ao lado do oratório que domina seu quarto abarrotado, nesta cidade-mosteiro na província de Qinghai.

As batidas eletrônicas simplesmente indicavam a chegada de uma mensagem no Tencent QQ, um serviço de mensagens extremamente popular na China.

A reportagem é de Andrew Jacobs, publicada no jornal The New York Times e reproduzida pelo Portal Uol, 28-05-2012.

Hoje em dia, o inconfundível toque de marimba dos iPhones e o "blip" melódico do Skype podem ser ouvidos em refúgios de lamas em toda esta remonta extensão de picos nevados e campos em altitude no noroeste da China. Até os nômades tibetanos que vivem fora da internet usam antenas de satélite para assistir à televisão chinesa --e ouvir transmissões da Rádio Ásia Livre e da Voz da América.

"Podemos viver longe das grandes cidades, mas estamos bem conectados ao resto do mundo", disse o monge de 34 anos, que, como a maioria dos tibetanos que falam com jornalistas estrangeiros, pediu o anonimato para evitar duras punições.

A revolução tecnológica, embora tenha demorado para chegar aqui, hoje penetrou nos recantos mais distantes do platô tibetano, transformando a vida comum. Seu papel é cada vez mais importante para disseminar a rebelião contra políticas chinesas que muitos tibetanos descrevem como sufocantes.

A crescente consciência política encontrou expressão através de uma campanha de autoimolações que as autoridades não conseguiram conter. Desde março de 2010, pelo menos 34 pessoas incendiaram a si próprias, a vasta maioria delas religiosos budistas ou ex-monges, muitos deles jovens.

Apesar dos esforços do governo para restringir o fluxo de informação, jornalistas e monges comuns reuniram detalhes e fotografias de autoimoladores, projetando-as por cima da chamada Grande Muralha de Fogo do país --uma referência ao "firewall" da informática . Em alguns casos, imagens borradas mostram seus últimos momentos entre as chamas ou as terríveis consequências antes que policiais paramilitares retirem os manifestantes da visão do público. Novos relatos, rapidamente captados por grupos de defesa e enviados por e-mail para jornalistas estrangeiros, muitas vezes incluem as exigências dos manifestantes: maior autonomia e o retorno do Dalai Lama, o líder espiritual tibetano, que vive no exílio desde 1959.

"A tecnologia está permitindo uma conscientização que se espalha mais depressa que nunca", disse Kate Saunders, diretora de comunicações da Campanha Internacional para o Tibete em Londres.

A consciência influencia uma geração criada sob o regime chinês, mas cética da propaganda oficial que difama o Dalai Lama ou rotula os autoimoladores de terroristas. Até estudantes colegiais, milhares dos quais foram às ruas este ano em protesto contra a eliminação dos livros de texto tibetanos, tornaram-se fluentes na linguagem da resistência.

Dicki Chhoyang, um ministro do governo tibetano no exílio, disse que muitos dos imoladores refletem uma camada social mais instruída que a geração anterior e que está cada vez mais conectada ao mundo exterior. "Você está vendo uma geração que é muito mais ousada e tem um alto nível de consciência política", disse Chhoyang, falando de Dharamsala, na Índia. "Eles querem enviar uma mensagem inequívoca de que têm uma opinião firme sobre a situação nas áreas tibetanas."

Muitos analistas dizem que o contraste com os efeitos das rebeliões de quatro anos atrás é notável e ainda é difícil saber exatamente o que aconteceu durante e depois dos tumultos de 2008, que começaram em Lhasa, a capital da Região Autônoma do Tibete. Grupos de defesa tibetanos dizem que centenas de pessoas em toda a região morreram nas mãos da polícia. O governo reconhece apenas cerca de duas dúzias de mortes, a maioria delas de chineses da etnia han mortos por manifestantes e vários tibetanos condenados e executados por sua atuação na violência.

"Não temos ideia de quantos tibetanos morreram em 2008, mas em 24 horas recebemos fotos de todos os que morreram de autoimolação", disse Robert J. Barnett, diretor do programa de estudos tibetanos modernos na Universidade Columbia.

Os exilados tibetanos e grupos civis dizem que recebem cada vez mais telefonemas durante as manifestações de rua improvisadas. O canal de comunicação tem dois sentidos; durante uma demonstração em frente à embaixada chinesa em Londres, um participante transmitia imagens ao vivo para amigos tibetanos através do Skype.

Monges como Dorje, 23, do mosteiro Kumbum em Qinghai, geralmente pertencem a uma geração cada vez mais conectada e mundana. Seu quarto é decorado com cartazes de Kobe Bryant, imagens de um amado Buda vivo e a guitarra acústica que às vezes ele dedilha tarde da noite. Mas seu bem mais valorizado é o computador, que ele usa para baixar baladas de Celine Dion e notícias dos grupos de direitos civis tibetanos. "Todos nós sabemos saltar sobre o muro", ele disse timidamente, referindo-se ao software que contorna as restrições da internet chinesa. "Eu acho que todos nós temos consciência de nossa identidade tibetana, mais que nunca."

Mas essa atividade pode ser perigosa. Dorje disse que um monge seu amigo foi levado pela polícia em março, dias depois que um amigo na província de Sichuan ligou para relatar a última autoimolação. O erro do monge, ele disse, foi compartilhar a notícia com um número muito elevado de pessoas. "A polícia está em toda parte", disse Dorje.

Grupos de exilados dizem que os esforços do governo para sufocar a informação foram amplamente bem-sucedidos em grande parte da região autônoma do Tibete, onde a segurança draconiana proíbe o acesso de jornalistas estrangeiros. O equipamento de interferência chinês, por exemplo, impede que a maioria dos moradores de Lhasa escute a Rádio Ásia Livre, segundo seu diretor executivo, Dan Southerland.

Mas a leste, em áreas predominantemente tibetanas que até há pouco tempo tiveram uma administração mais leve, o temor da retribuição ainda não conteve a divulgação de informações. Antes parte do Grande Tibete e conhecidas pelos nomes históricos de Amdo e Kham, as áreas são comparativamente ricas e há muito tempo servem de cadinho para o fermento e a dissidência intelectual. É aqui nas províncias de Qinghai, Gansu e Sichuan que as autoimolações e a maioria dos protestos de massa vêm ocorrendo, apesar de uma forte presença militar.

Hoje em dia as autoridades exigem que os tibetanos que desejem fazer fotocópias de documentos --de textos religiosos a manuais agrícolas-- obtenham permissão da polícia local, e os clientes de cyber cafés devem apresentar cartões de identidade emitidos pelo Estado. Depois de uma autoimolação este ano na província de Gansu, a polícia encurralou testemunhas dentro de um mercado, confiscou seus celulares e deletou fotos do episódio, segundo moradores.

Em Labrang, um enorme mosteiro muito popular entre turistas, monges disseram que a torre temporária que domina o complexo do templo pode interceptar conversas de telefone celular ou barrá-las completamente. As autoridades de segurança, segundo eles, fizeram exatamente isso no último verão, durante a visita de Panchen Lama, a principal figura religiosa escolhida por Pequim, que muitos tibetanos consideram ilegítima. "Durante cinco dias todos os nossos telefones ficaram mudos", disse um monge.

Losang, um monge graduado em Labrang, disse que essas táticas têm apenas uma eficácia passageira, porque as autoridades precisam eventualmente restabelecer o serviço ou correm o risco de prejudicar a economia local. Em uma tarde recente, Losang, um homem de língua afiada de 40 e poucos anos, trancou a porta de sua casa e mostrou o conteúdo de seu computador: gravações em vídeo de um recente festival religioso, imagens escaneadas de diretrizes do governo e imagens proibidas do Dalai Lama. Depois de observar a foto de um monge de 21 anos cuja autoimolação no ano passado provocou a mais recente série de suicídios, perguntei-lhe se achava que essas imagens inspiravam imitadores. Ele balançou a cabeça e disse que as restrições do governo, e não as fotos dos mortos, estão levando os jovens a tirar suas próprias vidas. "Quando você estrangula uma pessoa, não deve se surpreender que ela dê pontapés", ele disse.

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