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Por: Jonas | 03 Maio 2012

Foi meu velho amigo jordano-palestino, Rami Khouri, quem primeiro enxergou o que hoje ocorre no Oriente Médio: a contrarrevolução. Bahrein esmaga a dissidência, como faz a Síria. O sinistro Omar Solimán, ex-chefe de inteligência de Hosni Mubarak, impetra-se para presidente; o cancelamento de sua candidatura, decidido na semana passada por um comitê eleitoral nada confiável, pode também ser revogado. A Líbia está em guerra consigo mesma. O Iêmen tem o regresso do homem de confiança de seu antigo ditador. Na semana passada, houve 61 mortes numa batalha entre soldados e o Al Qaeda... somente num dia. Tudo isso é um desbarate tremendo.

O artigo é de Roberto Fisk, publicado no jornal Página/12, 30-04-2012. A tradução é do Cepat.

Deixem-me citar Khouri: “Na linguagem de Washington, uma “crise” é como o amor: embora possa ser definido como se desejar, sabe-se quando alguém é atingido por ele. Assim, uma revolta popular em Bahrein, a favor dos plenos direitos civis, é uma crise que deve ser esmagada pela força, porém uma revolta na Síria é um bendito sucesso que merece apoio. De maneira análoga, este peculiar marco intelectual adverte contra o apoio do Irã aos rebeldes houthis, no Iêmen, enquanto aceita como perfeitamente lógico e legítimo que os Estados Unidos e seus aliados enviem armas e dinheiro para seus prediletos grupos rebeldes, em toda a região... para não mencionar o ataque a nações inteiras”.

Como observa Khouri, existe um novo grupo, chamado Fórum de Cooperação em Segurança, que liga os Estados Unidos com o Conselho de Cooperação do Golfo. Hillary Clinton assegurou a todos os estados petroleiros o compromisso indeclinável, e sólido como a rocha, de seu governo com este Conselho. De onde ouvimos isso antes? Não é isso o que Barack Obama sempre disse aos israelitas? E não foram Bibi Netanyahu, de Israel, e o rei Abdalá, da Arábia Saudita, os que pediram para que Obama salvasse Mubarak?

E na Síria – onde o Qatar e os sauditas estavam mais que dispostos a enviar armas aos rebeldes – as coisas não vão muito bem para a revolução. Há um ano, depois de sustentar durante semanas que bandos armados atacavam as forças do governo, agora sim eles existem e estão em plena ação, atacando as legiões de Assad. Para as centenas de milhares de pessoas que estavam dispostos a se manifestarem de forma pacífica – mesmo à custa de suas vidas -, isto tem se tornado um desastre. Sírios, amigos meus, chamam isto de tragédia. Eles culpam os estados do Golfo de encorajar a insurreição armada. “Nossa revolução era pura e limpa e agora é uma guerra”, disse-me alguém na semana passado. Eu acredito nisso.

E a violência se aproxima cada vez mais do Líbano. O assassinato do cinegrafista Alí Shabaan, na semana passada, sacudiu os libaneses, normalmente imperturbáveis. Até o pró-sírio Hezbolá condenou essa morte - é claro que Shabaan era xiita, como são o Hezbolá -, uma vez que cidadãos libaneses observaram que enquanto as tropas sírias estavam em sua fronteira, as forças de seu próprio país não apareceram de lado algum, durante o tiroteio. Inclusive, legisladores pró-sírios têm culpado suas próprias autoridades de segurança pela morte do cinegrafista.

Suponho que esta é uma observação ironicamente triste, mas algumas das primeiras revoluções no mundo árabe não resultaram conforme o planejado. Há alguns dias, os argelinos celebraram o 50º aniversário de sua vitória contra os franceses. A televisão francesa mostrou documentários sobre a terrível luta, que custou pelo menos meio milhão de vidas, que puderam ser vistos na Argélia. Porém, o que os árabes alcançaram com aquelas batalhas titânicas? Um pseudo-ditador e uma elite corrupta. Uma vergonhosa cifra de desemprego e o petróleo suficiente para que a Argélia rivalizasse com a Arábia Saudita... se a revolução tivesse funcionado.

A revolução de Nasser não foi precisamente um êxito contundente; talvez não foi pessoalmente para Nasser, mas ele e seus sucessores foram deploráveis, guiaram o Egito contra si, fora de sua propriedade, e o levou a duas guerras sangrentas contra Israel.

Existem indícios de que o Iraque poderia estar ajudando aos rebeldes sírios, como fez nos tempos de Saddam Hussein, quando este e Hafez Al Assad, o pai do atual presidente, se detestavam. E agora, quando já não existe estadunidenses a quem atacar, militantes sunitas, dentro do Iraque, declaram guerra ao Irã.

Se isto parece um horizonte pessimista, pois que seja. Contudo, suspeito que o despertar árabe estará em processo quando nós todos estivermos mortos de velhos. Porém, a longo prazo, acredito que haverá verdadeira liberdade no Oriente Médio, e dignidade para todos os seus povos, além de um espanto da próxima geração, de que seus pais e avós tenham tolerado ditadores durante tanto tempo. E perguntarão o que houve com seus pais e avós desaparecidos.

Digo isto porque um valente grupo de mulheres se reúne todos os dias, em Beirute, para recordar seus entes queridos - libaneses e palestinos, todos homens -, que foram tirados de suas casas ou sequestrados nas ruas ao longo dos anos de domínio sírio no Líbano. Muitas fizeram a extenuante viagem até Damasco, atraídas pelas falsas esperanças de intermediários que queriam subornos, mas mantiveram sua fé intacta. O jornal libanês L’Orient-Le Jour traz uma coluna semanal com os nomes de todos os desaparecidos.

Samia Abdalá espera seu irmão Imad, combatente de Fatah, desaparecido quando tinha vinte anos, em 1984. Fatme Zayat quer que seu filho retorne; ambos há 27 anos desaparecidos. Afife Abdalá procura sete membros de sua família. Adele Said el Hajj espera seu filho, Alí, condenado pelos sírios em 1989: há 23 anos.

A guerra civil libanesa terminou em 1990 e milhares seguem desaparecidos. O mês passado marcou o 37º aniversário de seu início. Naquele tempo alguns libaneses afirmavam que era uma revolução.

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