Os ''Lineamenta'' do Sínodo lidos pela Comunidade de Deir Mar Musa

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18 Abril 2012

Os Lineamenta para o próximo Sínodo dos Bispos estão repletos de sugestões estimulantes. Contudo, por causa da ausência de algumas questões e de destaques inexistentes, prevalecem em mim uma desilusão teológica, uma preocupação pelo futuro do sentimento católico e um temor de que questões urgentes não sejam adequadamente abordadas.

A opinião é do jesuíta Paolo Dall'Oglio, graduado em língua árabe e em teologia, ordenado sacerdote em Damasco no rito sírio. Em 1991, ele reabriu o mosteiro de São Moisés, o Abissínio (em árabe, Mar Musa al-Habashi), na Síria, dedicando-se particularmente à hospitalidade e ao diálogo islamo-cristão.

O artigo foi publicado na revista Missione Oggi, de abril de 2012, sendo uma versão editada da íntegra da reflexão, publicada, em italiano, aqui. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.


Por si mesmo, é muito significativo e promissor que os Sínodos dos Bispos sejam preparados por uma grande consulta eclesial, que poderia envolver os cristãos de todos os níveis e de todos os papéis. É com esse espírito de participação e de comunhão que eu li e reli os Lineamenta. Nem sempre consegui dominar uma certa paixão polêmica, mas não a censurei, porque gostaria que ela dissesse o quanto trago no coração essas problemáticas, das quais depende o futuro a Igreja e o seu serviço ao Reino.

Os Lineamenta para o próximo Sínodo sobre A nova evangelização para a transmissão da fé cristã (outubro de 2012) estão repletos de sugestões estimulantes. Contudo, por causa da ausência de algumas questões e de destaques inexistentes, prevalecem em mim uma desilusão teológica, uma preocupação pelo futuro do sentimento católico e um temor de que questões urgentes não sejam adequadamente abordadas.

O Islã, novo ator mundial

Fala-se pouco do Islã e apenas negativamente. No quadro do cenário político da "nova evangelização", o "mundo islâmico" é considerado o "novo ator", que surgiu no cenário mundial criando uma "situação inédita e totalmente desconhecida" (n. 6). Não me parece muito verdadeiro. O Islã é um parceiro problemático e incontornável do teatro político e cultural global desde o século VII até hoje.

É bom que, tratando da nova emergência da necessidade religiosa e espiritual, se insira "o encontro e o diálogo com as grandes tradições religiosas, especialmente as orientais" (n. 8). No entanto, a comunhão entre as três religiões abraâmicas nunca é evocada. Olhar para a Índia certamente é bom, mas desviar o olhar da fraternidade em Abraão com o Judaísmo (nunca citado!) e o Islã não o pode ser.

O fato de que a visão favorável dos muçulmanos do Concílio Vaticano II desapareça regularmente dos Lineamenta dos Sínodos (refiro-me, por exemplo, ao da Palavra de Deus e ao sobre o Oriente Médio), embora depois retorne "pela janela" dos trabalhos sinodais, é um sinal de islamofobia preocupante.

A impressão geral é que a Igreja Católica se propõe como único protagonista global. O documento indica continuamente um sujeito cristão audaz e zeloso ao propor a fé evangélica, como causa primeira, impulsionadora e final do evento humano. A intenção de criar novas seguranças, de oferecer um sistema definido de pertenças, é preocupante: em um mundo pluralista, a Igreja opta por construir a sua ilha global. O exílio da catolicidade profética será longo. À espera de inverter a tendência, só resta seguir o conselho de Jeremias: plantar vinhas e construir casas duradouras.

A pobreza na Igreja: questão evitada

Uma questão que se apresenta ao coração lendo os Lineamenta é aquela realmente irresolvida da pobreza evangélica na Igreja. A questão não se encontra apenas banalmente na acumulação financeira, mas, além disso, em uma estética do enriquecimento e do luxo que contradiz a beleza de Nazaré. Entendamo-nos: não é que a questão pobreza não se refira às outras Igrejas!

Não era de se esperar que os Lineamenta se voltassem para a Teologia da Libertação. De fato, não o fazem, mas a impressão é de que os redatores do documento são culturalmente homogêneos na manipulação pós-moderna que esperaria ter resolvido em chave liberal e consumista o drama da questão social.

Em certo sentido, o pano de fundo é o da encíclica sobre a caridade de Bento XVI, em que a resignação eclesial aos sistemas produtivos capitalistas internacionalizados parece um dado da realidade indiscutível, que só pode ser corrigido com a caridade. Assim, a Igreja renuncia a acompanhar a humanidade pelos caminhos dos escatologismos libertadores sociais e das utopias igualitárias, e assume de modo estável a função de corretivo social e de bálsamo para as chagas mais escandalosas.

A questão da riqueza da Igreja, como obstáculo à autenticidade da evangelização, continua tendo que ser abordada, mas os Lineamenta não o fazem, senão de leve (n. 22). O testemunho da vida evangélica na pobreza não pode ser relegado a uma rara especificidade carismática. Hoje parece que a autoridade eclesiástica em geral esteja resignada a uma tendência de vida burguesa, senão até de alta burguesia, de modo que pareceria que não há mais o desejo de se repropor o problema.

Viva a democracia na Igreja

Do ponto de vista da autoridade, a falta de democracia já está teorizada, e o aparato continua sendo dirigista e centralizado. A participação mais ampla e responsável possíveis dos fiéis na vida da "comum coisa" eclesial seguramente é um bem, porque vai no sentido da fé adulta. Isso deverá se conciliar com a dimensão carismática – e, portanto, paradoxalmente elitista da Igreja (profética) – e com a prerrogativa do clero ordenado (a história dirá um dia se ele também poderá ser feminino), que representa concretamente uma referência de obediência à dimensão transcendente e sobrenatural do corpo todo.

Penso que se pode dizer tranquilamente "viva a democracia na Igreja" e que, com isso, não se traia necessariamente o essencial da consciência eclesiológica. Querer ver esse princípio aplicado “à” e “na” instituição eclesiástica não significa promover uma revolução democrática que feriria o essencial das prerrogativas da sucessão apostólica e da responsabilidade pastoral que dela deriva, começando com a do papado.

Não é banal, não é polêmico pôr a questão da forma histórica do exercício da autoridade relativa ao carisma pastoral. Em várias ocasiões, por exemplo em referência ao diálogo com as Igrejas irmãs ortodoxas, tanto João Paulo II quanto Bento XVI se expressaram favoravelmente a uma revisão do exercício do múnus petrino, ou seja, da autoridade papal, considerando isso como um canteiro de obras teológico e eclesiológico aberto.

A inculturação

A inculturação é citada algumas vezes (nn. 10 e 14) como elemento do discernimento do apostolado referente ao contexto cultural e religioso. Em geral, o texto, que no entanto se repete exaustivamente sobre temas como a audácia do anúncio, permanece superficial sobre a questão teologicamente relevante da inculturação.

É claro que a Igreja Católica sabe que deve se inculturar. Ao mesmo tempo, ela sempre tem medo de se perder, de renunciar à própria originalidade evangélica, separando-se muito ou pouco da forma, da letra da tradição recebida. O risco é que ela acabe traindo o próprio mistério dinâmico e profético por medo de ser infiel, mas João, o discípulo amado, nos diz que Jesus uma vez multiplicou pão de trigo e, outra vez, pão de cevada... A categoria "cereal" é insuficiente para a fidelidade? É preciso "a letra que mata" para celebrar liturgicamente a fidelidade à Igreja?

Diálogo e anúncio

Os documentos sobre a relação e a integração entre diálogo e anúncio, redigidos diversas vezes pelo Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso, deveriam ser relidos e renovados para que a nova evangelização não avance manca. O pior de tudo seria querer contrapor a nova evangelização e o diálogo inter-religioso. Esse risco deve ser evitado combatendo as tendências renunciadoras e capitulantes das exaustas correntes pós-conciliares. É preciso também ter confiança na força do impulso e na massa submersa da experiência eclesial pós-conciliar espalhada pelo mundo inteiro e que provavelmente é capaz de opor uma resistência passiva e até contrapor anticorpos conscientes aos riscos de uma nova evangelização mal-entendida.

A celebração eucarística, mesmo a mais escandalosamente instrumentalizada por lógicas de conservação de poder e privilégio..., sempre é um fato, um evento desestabilizador, subversivo, fonte de novidade e de mutação antropológica. A Igreja é tradicional, até tradicionalista, porque nunca consegue se livrar desse Evangelho, desde sempre e há séculos motor de mudança.

A comensalidade inter-religiosa

A questão, também escatológica, da convivência duradoura inter-religiosa aconselha que a Igreja encontre um equilíbrio dinâmico entre evangelização ad gentes, e respeito e consideração pelas pessoas na sua escolha também religioso de não aderir, explicitamente ao menos, à proposta da Igreja. Os Lineamenta parecem impermeáveis a esse tipo de questões. Talvez a razão seja que, originalmente, a nova evangelização é uma estratégia de recuperação das áreas católicas descristianizadas e secularizadas.

Entretanto, no documento, quando se pensa que se pode transformar em uma ocasião de evangelização o desejo de integração dos imigrantes no contexto sociocultural ocidental (nn. 6, 7 e 13), então a contradição salta aos olhos. De fato, o primeiro movimento aconselhado pela caridade deveria ser, ao invés, o de socorrer os imigrantes, expostos ao sofrimento da erradicação, no seu desejo legítimo de poder sintetizar a integração ao novo contexto com a preservação da sua própria originalidade cultural e religiosa.

No âmbito da sociedade multicultural e multiétnica global, a Igreja estará tensionada entre a fraterna convivência, a comensalidade, com as visões religiosas do mundo "outro", de um lado, e, de outro, com o discernimento de como o fermento evangélico tem algo a dizer em função do crescimento da massa global.

Do ponto de vista eclesial, o mundo é caracterizado por vastos e estáveis pós-cristianismos. O modelo análogo é o do Judaísmo pós-cristão. Este se relaciona com a Igreja a partir de uma posição de resistência consciente à pretensão da cristandade de solicitar a sua dissolução para assumir inteiramente, por substituição, o papel religioso do povo judeu. Não se trata aqui de sintetizar a história do drama judaico-cristão, no entanto é surpreendente e doloroso que os Lineamenta não sintam a necessidade de mencioná-la.

O canteiro de obras antropológico

Em diálogo com aquela parte dos Lineamenta que trata da ecologia da pessoa humana (n. 21), eu gostaria de reiterar a necessidade de abordar a questão do canteiro de obras antropológico contemporâneo de uma forma diferente do que parece proposto aqui. Nos Lineamenta, parece que os deveres dos filhos de Adão para com o ambiente natural estão conjugados com uma ideia da natureza humana considerada como acriticamente estável e não evolutiva. O próprio do ser humano, ao contrário, parece ser artificial por natureza.

A natureza humana é agora a de ter que gerir a própria identidade específica em uma perspectiva de responsabilidade moral radical, em que a relação com Deus não será mais a da mera obediência ao Criador-legislador, mas sim a de uma parceria dramática, na qual Deus já coloca a sua própria confiança na autonomia da responsabilidade humana. Assim, todas as escolhas graves, novas e urgentes, que se põem diante de uma humanidade que perdeu a possibilidade de viver naturalmente da natureza, a obrigam a se reinventar, não segundo a natureza, mas segundo a cultura.

Aqui, trata-se, além disso, de se dar conta de preservar o que resta da natureza (vegetal, animal, humana do planeta) é uma gravíssima responsabilidade coletiva e, portanto, uma enorme tarefa das comunidades religiosas. Se a nova evangelização não abordar, finalmente, as questões da antropologia pós-natural, em diálogo com as ciências aplicadas, tais como a engenharia genética, será difícil que ela possa dizer algo convincente para as gerações high-tech.

Finalmente, não surpreende que, ao lado da exclusão da questão feminina (sem falar da comunidade LGBT – gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros), a teologia mariana também parece ser mínima e marginal nos Lineamenta. Eu acredito que hoje ninguém pode se iludir na Igreja Católica que a questão feminina e mais em geral as questões de gênero possam ser definitivamente congeladas ou postas na naftalina. A evolução antropológica contemporânea terá um impacto direto sobre a forma hierárquica da Igreja por vir.

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