A crise das vocações e ''Habemus Papam'': uma sátira italiana

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11 Abril 2012

E se eu lhe dissesse que um novo filme, ambientado no Vaticano durante um conclave papal, tem muito em comum com a série da HBO Família Soprano e também com o romance de Audrey Hepburn e Gregory Peck A princesa e o plebeu (1953)? Você ficaria intrigado? Desconfiado? Nostálgico?

A análise é de John P. McCarthy, publicada na revista America, dos jesuítas dos EUA, 16-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Habemus Papam, do satirista italiano Nanni Moretti, evoca um complexo conjunto de reações. Você vai ficar aliviado ao se dar conta de que a conexão com a Família Soprano não tem nada a ver com as mutilações ou os roubos de estilo mafioso, e nenhum personagem principal, incluindo os vários "príncipes da Igreja", forma uma aliança romântica perversa. E também não espere um retrato lisonjeiro ou inspiracional da hierarquia como As Sandálias do Pescador (1963).

Ocorrendo nos dias de hoje, Habemus Papam se centra em um obscuro cardeal que é eleito papa. Como o chefe Tony Soprano, o prelado atordoado sofre um grande ataque de pânico e vai ver um psiquiatra. Os católicos serão atraídos pela imagem bem-feita da matéria do seu sujeito, embora provavelmente ficarão entristecidos com o que ele finalmente transparece.

O diretor, Moretti, que coescreveu o roteiro e interpreta o psiquiatra do papa, apresenta uma obra comovedora, inquietante e muitas vezes bem-humorada. Ele retrata a hierarquia da Igreja, especificamente o Colégio dos Cardeais, de uma forma satírica, que beira a farsa. Mas ele infunde o retrato com suficiente credibilidade e autenticidade emocional para conter suas notas mais surreais e antitéticas.

O filme nunca se sobressai como cínico ou cegamente crítico. Moretti, cujo filme anterior, Il Caimano, satirizou o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, não é um crente católico. Mas ele respeita o catolicismo o suficiente para tratar a psicologia da fé com sutileza e sofisticação. Se você me perdoar o oxímoro, o tom pode ser descrito como descaradamente reverente.

O filme abre com imagens de arquivo da missa fúnebre de um pontífice não identificado, após a qual se mostram cardeais cantando ao entrar na Capela Sistina para eleger o sucessor. Ficamos a par dos pensamentos interiores dos principais candidatos, cada um dos quais teme muito se tornar o Santo Padre. O alívio deles é palpável quando, depois de várias votações, o cavalo preto, cardeal Melville (interpretado pelo ilustre ator francês Michel Piccoli), é escolhido. Mas quando ele está prestes a aparecer na sacada diante da Praça de São Pedro, Melville empaca e se recusa a prosseguir. Depois de um exame médico, um proeminente psicanalista de Roma é trazido para dar uma opinião.

Os paralelos com A princesa e o plebeu surgem depois que Melville sai secretamente da Cidade do Vaticano para visitar uma outra psiquiatra (a ex-esposa do primeiro psiquiatra) e ser examinado. Ele vagueia por Roma incógnito, como a princesa real de Hepburn no clássico de William Wyler. Melville bate de ombros com romanos comuns e se encontra com uma trupe de teatro ensaiando A Gaivota de Tchekhov.

Enquanto isso, os cardeais permanecem isolados, e o mundo aguarda para saber a identidade do novo papa. Com medo de admitir que o papa abandonou o posto sem permissão, o porta-voz vaticano instrui um membro da Guarda Suíça para fazer com que pareça que Melville está escondido nos aposentos papais.

Como essa charada calamitosa, a crise vocacional última para um prelado, será resolvida? Convencido de ser incapaz para servir, Melville vagueia em um estado de angústia e confusão lamentáveis, provavelmente experimentando o começo da demência senil. Não podemos senão ficar imaginando se a sua relutância é alimentada pela humildade ou pela fraqueza egoísta.

Moretti e seus dois coautores são reservados ao abordar a fé de Melville em Deus e ao contornar a causa mais significativa possível para o colapso dele. O roteiro não examina em detalhes as motivações nem a estrutura psíquica de ninguém, em parte porque ele também ilumina a profissão psiquiátrica e a abordagem freudiana bastante antiquada assumida pelos analistas que (brevemente) tratam de Melville. O filme se aproxima mais de uma explicação do comportamento de Melville na cena em que ele confidencia que, antes de se tornar padre, ele queria desesperadamente ser ator. É revelador que um ator desequilibrado da trupe de Tchekhov funcione como uma espécie de doppelgänger.

Somos levados a inferir que Melville foi escolhido não porque seus colegas cardeais pensavam que ele era capaz ou estava disposto, mas sim porque eles ansiavam por passar a bola adiante. O psiquiatra homem a quem Moretti ilustra com uma hilária despreocupação, parece ele mesmo muito maluco. Confinado no Vaticano durante três dias enquanto Melville está à solta, ele fica íntimo dos cardeais. Ele até organiza um torneio de vôlei, dividindo o conclave em equipes baseadas na região geográfica. Gentilmente absurdos, esses segmentos fornecem a ocasião para algumas piadas internas à Cúria. Alguns espectadores podem não gostar de ver barretes vermelhos pondo a sua dignidade de lado. Mas essa sequência ressalta a ideia de que todos no universo do filme são um pouco loucos, isto é, imperfeitos e, portanto, humanos.

A habilidade de Moretti em identificar a fragilidade de cada indivíduo e o absurdo em cada cenário torna o filme operacionalmente sombrio e subitamente acabando de forma ainda mais chocante. Assistindo à dolorosa conclusão, os católicos provavelmente se levantarão na defensiva, estimulando a sua fidelidade para com a Igreja e o respeito pelo papado. Nossa expectativa como espectadores de que as coisas acabarão bem aumentam essa sensação. Minha reação inicial foi de choque e indignação, misturada com a crítica instantânea de que o enredo de Habemus Papam é terrivelmente subdesenvolvido.

O que Moretti está tentando dizer? A interpretação mais óbvia é de que o colapso de Melville espelha os recentes erros e maus feitos da Igreja. A eleição de um bispo tão instável reflete uma instituição quebrada e um colossal fracasso de liderança. Quando Melville fica sabendo que ele foi vítima de um "déficit de acolhida", somos lembrados da incapacidade da hierarquia de proteger as vítimas dos abusos sexuais do clero.

Embora seja possível interpretar Habemus Papam como uma condenação da Igreja ou como um violento ataque secular contra a religião, ele é mais instrutivamente entendido como uma parábola sobre a psicologia moral. As dúvidas de Melville sobre a sua própria adequação para suceder São Pedro são extremas. Certamente, a crença não deveria ser, e sem dúvida não pode ser, fingida nesse contexto. Os papas não estão imunes à dúvida, mas o teste, assim como com qualquer crente, é se esses receios são acompanhados pela sinceridade. Em outras palavras, é uma questão de consciência entre Melville e Deus. É impossível para um outro ser humano analisar a alma dele e julgar as ações dele. De forma indelicada, se Melville não pode abalar a sensação de que ele é uma fraude, é provável que ele seja uma fraude – já que ele ignora esse autoconhecimento. Visto sob essa luz, podemos mais bem processar a relutância de Melville a se comprometer.

A crise de fé de Melville não é diferente em espécie da de qualquer outro padre. Analogamente, a frustração que a princesa de Hepburn em A princesa e o plebeu sente com a sua vida cheia de deveres é comparável à de, digamos, uma jovem mulher da década de 1950 que acha sufocante o seu trabalho de secretária. Quando se trata da princesa e da secretária, mais rapidamente aconselharíamos que se mantenha o rumo até que algo melhor venha ou, em alternativa, sugeriríamos uma mudança abrupta nas circunstâncias. Quanto ao pároco e ao bispo de Roma, é possível que a graça de Deus, juntamente com mais oração e um discernimento mais profundo, possa permitir que ambos os homens cresçam em seus respectivos papéis. Mas, a menos que haja honestidade e uma sólida base de fé, o fato de passar pelas moções seria moralmente suspeito e potencialmente desastroso. Evidentemente, Melville entende isso.

Mesmo assim, ele deixa a Igreja em uma posição incerta quando o filme acaba. O desconforto, senão a tristeza, que isso evoca na plateia lembra o final obscuro de Família Soprano, quando o destino que recai sobre Tony e sua família imediata nunca é revelado. É natural preferir a certeza de um final ordenado em que um protagonista fictício, bom ou mau, recebe suas justas recompensas. Essas resoluções, particularmente da variedade do sentir-se bem, são muitas vezes associadas aos tradicionais entretenimentos de Hollywood. Na realidade, os finais de filmes clássicos raramente são tão acabados ou plausíveis quanto pensamos. Assim como na vida, a maioria dos desejos permanecem não realizados.

No fim de A princesa e o plebeu, a princesa de Hepburn retorna aos seus protetores e retoma as suas funções oficiais. Embora ela esteja apaixonada pelo jornalista norte-americano de Peck, eles não fogem juntos, nem será um namoro com um plebeu em um futuro próximo. Ambos se tornaram mais plenamente humanos durante o seu romance tempestuoso, contudo o realismo e a praticidade acabam vencendo. Sua dor irá passar.

O trauma sofrido por Melville e pela Igreja em Habemus Papam vai demorar mais tempo para curar, mas a alternativa poderia ser pior. A julgar pelo que Moretti nos mostra, vemos que apenas em um reino de fantasia sutilmente ligado à realidade o papado do cardeal Melville poderia ser um sucesso. No entanto, segundo a fé católica, independentemente de quanto as coisas piorem, a esperança e a possibilidade de renovação nunca se extinguirão enquanto nos esforçarmos para amar a Deus com corações puros.

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