“Comungar na mesma fé nem sempre impõe adotar a mesma teologia”, afirma Queiruga

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Por: Jonas | 10 Abril 2012

A liturgia da Igreja estende o tempo pascal. Desse modo, ajuda a celebrar e ir assimilando o mistério da ressurreição de Jesus e, com a sua, também a que nos espera e que já vivem os nossos defuntos. Por isso, acredito que vale apena continuar a reflexão iniciada na clarificação anterior. As questões são, agora, mais sutis e, também, felizmente, menos fundamentais, permitindo maior flexibilidade na hora da interpretação. Ao mesmo tempo, permite aclarar algo importante para todo diálogo teológico.

O artigo é de Andrés Torres Queiruga, publicado no sítio espanhol Religión Digital, 09-04-2012. A tradução é do Cepat.

A teologia é uma ciência rigorosa, porém não no sentido das chamadas “ciências exatas”. Ela trata de experiências muito profundas e de caráter transcendental. E isso significa que foge do peso e da medida empírica. Daí que na hora da interpretá-la, as opiniões divirjam e, muitas vezes, se multipliquem no chamado “pluralismo teológico”.

Isso significa que comungar na mesma fé nem sempre impõe adotar a mesma teologia. Nem sequer, como fortemente sublinhava Karl Rahner, seria possível isso, dado o irredutível pluralismo de nossa cultura. Pode, pois, tornar-se incômodo ocasionalmente, porém não é possível evitar, sob pena de incorrer numa compreensão acrítica da fé ou de se renunciar a honestidade intelectual.

De qualquer modo, dar-se conta disto também tem suas vantagens, porque ajuda a centrar-se no fundamental e a tomar com maior tranquilidade o secundário. Assim, torna-se mais fácil evitar a absolutização dogmática, da própria interpretação, e ser tolerante e respeitoso com os demais. Toda teologia, e sem dúvida a que eu proponho, conta de início com este dado. Por isso, da mesma maneira como eu reivindico o direito de propô-la, jamais me passa pela cabeça impô-la a ninguém.

Na ressurreição, assegurado o fundamental da fé – que Cristo, ele em pessoa, está vivo e salvificamente presente em nossa história -, praticamente todo o resto, sempre que se estude e se exponha com suficiente responsabilidade, pertence ao âmbito do pluralismo teológico.

Quero recordar que o mesmo Bento XVI, nada menos que no prólogo da sua Cristologia, ou seja, no estudo dos mistérios mais centrais, justamente porque atua como teólogo, disse algo clara e valentemente decisivo: “Sem dúvida, não necessito dizer expressamente que este livro não é de modo algum um ato magisterial, mas unicamente expressão de minha busca pessoal ‘do rosto do Senhor’ (cf. Sl 27,8). Por isso, qualquer um é livre para contradizer-me. Somente peço, aos leitores e leitoras, essa benevolência inicial, sem a qual não há compreensão possível”.

Ofereço hoje, com esta intenção, os textos da Notificação que, partindo da ressurreição, abordam importantes problemas da escatologia. Seria bom levar em conta que se tratam de verdades que, certamente, estão presentes no magistério ordinário, porém, cuja interpretação é discutida entre os teólogos, como pode confirmar um conhecimento, moderadamente informado, dos tratados atuais.

O modo como o documento da Comissão interpreta esses problemas, merece respeito, porém não pode ser apresentado como infalível. Para quem esse modo – que representa uma teologia determinada – convence, ajudando a iluminar sua fé e a alimentar sua vida, está em seu direito segui-lo. A partir de uma teologia diferente, aqueles que optam por outro modo, porque lhes parecem mais de acordo com a sensibilidade cultural e vivência religiosa atuais, gozam de idêntico direito. “Para ser livres, libertou-nos Cristo”, disse São Paulo.

Nesta ocasião, pareceu-me preferível apresentar o próprio texto da Notificação, para que as pessoas interessadas possam contrastar, diretamente, o sentido das duas propostas, atendendo seu estatuto teológico. Vale apena meditá-lo com ânimo sereno e espírito fraterno. (Para facilitar a leitura, introduzo as citações no texto).

5. Problemas de escatologia

22. Com relação à fé cristã na ressurreição dos mortos, e apoiando-se no que explicava sobre a Ressurreição de Cristo, o Autor nega que se deva distinguir entre um estado de alma separada e uma ressurreição final porque estas afirmações, segundo ele, se baseavam num esquema mítico, quando na realidade simplesmente há que se falar de uma solidariedade de todos os humanos vivos e defuntos: “a dificuldade radical nascia da vinculação da ressurreição com o cadáver, pois, então, a “alma” teria que esperar o “corpo” para poder reestabelecer sua plena identidade. Ao reconhecer a morte como um trânsito atual ao novo modo de ser, a dificuldade desaparece por si mesma. Por isso, o Ressuscitado está já plenamente com Deus e plenamente conosco [...] No qual, dilui-se, igualmente, um problema que foi muito vivo há apenas algumas décadas e que, nos termos em que se discutia, hoje nos resulta assombrosamente anacrônico: a discussão acerca do estado intermediário; ou seja, desse tempo/não tempo” em que a “alma” esperaria a ressurreição dos “corpos” no fim do mundo [...] Estes símbolos [Parusia e juízo final] veiculam, com efeito, um significado fundamental na experiência cristã, pois, aludem à experiência de uma incompletude real e de uma espera verdadeira também para os ressuscitados. De início, para eles poderia parecer anulada pelo fato de que a ressurreição seja já de todos e já na morte. Na realidade, a verdade dessa espera sai reforçada. Porque ao eliminar os esquemas míticos de ressurreição geral, ao final dos tempos, libera-se seu autêntico sentido: o de uma íntima comunhão e solidariedade de todos os humanos vivos e defuntos; solidariedade que, fundada em Cristo (cf. Gl 3,28), reúne em si o passado e antecipa o futuro, sem que nem sequer a morte seja capaz de rompê-la” [Repensar a Ressurreição. A diferença cristã na continuidade das religiões e da cultura, Trotta, Madri 32005, 227-228]. Neste sentido, o Autor apresenta a Assunção da Virgem Maria, em corpo e alma aos céus, simplesmente como uma explicação paradigmática de uma situação universal [Cf. Ressurreição, 229-230].

23. Estas afirmações, do Professor Torres Queiruga, dificilmente resultam compatíveis com o ensinamento da Igreja, tal como expôs a carta Recentiores Episcoporum, da Congregação para a Doutrina da Fé: “3) A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, após a morte, de um elemento espiritual que está dotado de consciência e de vontade, de maneira que subsiste o mesmo “eu” humano, carente, enquanto isso, do complemento de seu corpo. Para designar este elemento, a Igreja usa a palavra “alma”, consagrada pelo uso da Sagrada Escritura e da Tradição. [...] 5) A Igreja, em conformidade com a Sagrada Escritura, espera “a gloriosa manifestação de Jesus Cristo nosso Senhor” (DV I, 4), considerada, pelo demais, como diferente e prorrogada em relação à condição dos homens, imediatamente, após a morte. 6) A Igreja, em seu ensinamento sobre a condição do homem após a morte, exclui toda explicação que retire o sentido, da Assunção da Virgem Maria, no que tem de único, ou seja, o fato de que a glorificação corpórea da Virgem é a antecipação da glorificação reservada a todos os eleitos” [Doc. 35, 14.16-17/173 (= Congregação para a Doutrina da Fé, Documento 1966-2007). Além disso, a Ressurreição da carne implica a ressurreição desta carne, embora seja transformada, como recordou o segundo Concílio de Lyon [Cf. DH 854] e apresenta o Catecismo da Igreja Católica [cf. CCE 1017]. Também, sobre a questão do realismo da ressurreição da carne, a Congregação para a Doutrina da Fé pronunciou-se numa Nota sobre as traduções das palavras “carnis resurrectionem”, do Símbolo Apostólico: “Abandonar a fórmula “ressurreição da carne” implica o risco de apoiar as teorias atuais, que colocam a ressurreição no momento da morte, excluindo na prática a ressurreição corporal, em concreto, desta carne” [Doc. 55, 7/280-281].

24. Em relação à oração pelos defuntos, o professor Torres Queiruga sustenta que “não celebramos a eucaristia por nosso irmão defunto, mas com nosso irmão defunto (como não se celebra por Jesus, mas com Jesus)” [Ressurreição, 300]. Neste sentido, ele rejeita a objetividade dos textos das orações e, inclusive, dos próprios ritos fúnebres: “Verdadeiramente, quando a sensibilidade está moderadamente alerta, assombra pensar que possamos ter a pretensão de tentar “convencê-lo” (Deus), como se nosso amor pelos defuntos fosse maior que o seu, ou como se nossa preocupação por sua felicidade fosse mais profunda. É claro, ninguém pretende tal grandeza, em sua intenção subjetiva, porém a objetividade das orações e dos ritos procede, demasiadas vezes, como se nós fôssemos os bons, carinhosos e misericordiosos, que se esforçam para comover a um deus cruel, justiceiro e terrível, a quem convém “propiciar” por todos os meios” [Ressurreição, 302].

25. No entanto, a Igreja também manifesta sua fé nas fórmulas litúrgicas, em que os ritos funerários não são uma exceção, mas também um lugar teológico para a escatologia [Cf. Doc. 35, 15/173]. O Autor tem mostrado reticências em relação à oração de petição, porém, a Igreja sempre entende, seguindo o mandato do Senhor, que este aspecto da oração também deve ser cultivado. No Catecismo da Igreja Católica [Cf. CCE 2629-2633; 2738-2741] encontramos uma exposição deste tipo de oração, que não se pode entender como uma “tentativa de convencer a Deus”, apresentação que supõe mais uma caricatura. Na realidade, trata-se simplesmente de alcançar o que Deus dispõe que se realize, mediante a oração [Cf. São Tomás de Aquino, Summa Theologiae II-II 83 2], pois, segundo a providência de Deus, determinados efeitos se realizam com a colaboração das criaturas, colaboração que inclui as orações [Cf. CCE 306-308]. De concreto, em relação ao valor da Eucaristia celebrada e oferecida pelos defuntos, além da prática imemorial da Igreja, os Concílios de Florença [Cf. DH 1304] e Trento [Cf. DH 1743; 1753; 1820] ensinam, de maneira explícita, insistindo expressamente em seu valor propiciatório. Portanto, são verdadeiros atos de solidariedade com os defuntos, na comunhão dos santos. O Catecismo da Igreja Católica [Cf. CCE 957-958] recorda novamente este ensinamento, com uma peculiar alusão ao Concílio Vaticano II [Cf. LG 50].

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