Vida longa ao neutrino, o que há de mais próximo do nada

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • Propor vacinação só em março e alcançar no máximo 1/3 da população em 2021 é um crime

    LER MAIS
  • Papa Francisco desafia a esquerda católica

    LER MAIS
  • A face perversa da Plataforma Lattes

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


28 Março 2012

O anúncio da superação da velocidade da luz foi um pouco apressada, mas nesses estudos ainda há muito para se descobrir. E que poderá se tornar útil para nós mais à frente.

A reportagem é de Elena Dusi, publicada no jornal La Repubblica, 23-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"De todas as coisas que constituem o universo, as mais comuns e ao mesmo tempo as mais bizarras são os neutrinos". Começa como uma fábula o livro que Frank Close, físico teórico da Universidade de Oxford, escreveu para falar sobre uma das partículas elementares. Neutrino (Ed. Raffaello Cortina) conta os segredos da "coisa mais próxima do nada que existe", que em setembro tanto nos entusiasmou depois do anúncio (depois retratado) da sua capacidade de velocidade superior à da luz.

Eis a entrevista.

Os neutrinos são as partículas mais difundidas no universo?


Enquanto falamos, o nosso corpo é atravessado por bilhões de neutrinos. Para saber quantas deles o Sol produz a cada segundo, devemos escrever um número 2 seguido de 38 zeros: mais do que os grãos de areia das praias do mundo. Mas são partículas inócuas. Atravessam a matéria sem interagir.

Quanto tempo vive um neutrino?

Praticamente para sempre. Os neutrinos produzidos no Big Bang estão em viagem ainda hoje. Os minerais fracamente radioativos de ossos e dentes também produzem neutrinos. E nós podemos ganhar a nossa dose de eternidade graças aos neutrinos que liberamos no universo.

Tendo que lhe dar uma personalidade, que adjetivo você escolheria?

Tímido. Todas as outras partículas são sensíveis à força forte ou à eletromagnética. O neutrino, ao contrário, sente apenas a força fraca. É por isso que ele não interage quase com nada.

Em que sentido o neutrino mudou a história de Enrico Fermi?

Fermi – caso raro para um físico – se aventurou tanto com a teoria como com os experimentos. Como teórico, ofereceu uma explicação do decaimento beta que também envolvia os neutrinos e a submeteu à Nature, mas a revista a recusou, considerando-a muito especulativa. Muitos anos depois, a Nature lembrou esse episódio como o maior erro da sua história. Enquanto isso, Fermi, desapontado, deixou a física teórica para se dedicar aos experimentos. Com os resultados que já conhecemos.

No início, parecia impossível observar os neutrinos.

As chances eram consideradas quase nulas. Mas Pontecorvo destacou que "quase nulo" não significa "nulo" e pediu a permissão para construir um revelador em Dubna, perto de Moscou. Como fonte de neutrinos, ele pensava em usar o reator nuclear em operação justamente em Dubna, cuja existência, no entanto, era considerada secreta. Pontecorvo nunca obteve essa autorização, e outros cientistas, usando o seu método, conseguiram observar os neutrinos por primeiro. Ganharam o Nobel em 2002. Certamente, se Pontecorvo ainda estivesse vivo, ele teria compartilhado esse prêmio.

Os reveladores de neutrinos são muitas vezes construídos em lugares inóspitos: na Antártida, nas minas, no fundo do mar. Por quê?

Mas há também um magnífico laboratório no Gran Sasso. A resposta é que, para observar os neutrinos, é preciso encontrar abrigo dos raios cósmicos que confundem os reveladores.

A propósito do Gran Sasso, você ficou desapontado com a negação de que os neutrinos são mais velozes do que a luz?

Nem entusiasmo nem decepção. A natureza tem as respostas, e nós só devemos nos esforçar para descobri-las. Talvez dar tanta publicidade a um resultado tão perturbador foi como colocar a carroça na frente dos bois. Mas não critico membros do experimento Opera: eles admitiram desde o início a possibilidade de que alguma coisa no seu instrumento não houvesse sido totalmente compreendido.

Foram cometidos erros?

Absolutamente não. Falamos de experimentos que fazem medições da ordem dos nanossegundos, capazes de calcular a distância de 730 quilômetros entre o CERN e o Gran Sasso com a precisão de alguns centímetros. Nesses níveis, mesmo o tempo que um sinal leva para percorrer um cabo se torna importante. E o experimento Opera foi concebido para fins totalmente diferentes: observar se os neutrinos disparados do CERN mudavam de natureza durante o seu percurso.

Vai permanecer alguma coisa do anúncio de setembro?

O trabalho desses meses serviu para conhecer melhor o aparelho. Mesmo nos estudos teóricos que tentaram explicar o fenômeno dos neutrinos superluminais, poderiam haver novas sementes para caminhos a seguir no futuro.

Que outras surpresas os neutrinos poderiam nos reservar?

Se houvesse neutrinos com massa muito grande, como previsto por Majorana, talvez poderíamos explicar a natureza da matéria escura. Depois, temos o problema de entender por que o Big Bang não produziu quantidades iguais de matéria e de antimatéria. Dado que as duas se aniquilam quando se encontram, o nosso universo não teria sobrevivido. O porquê de hoje existirmos, nós que somos feitos de matéria, é um grande mistério. Mas há indícios de que os neutrinos têm a ver com a resposta que procuramos.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Vida longa ao neutrino, o que há de mais próximo do nada - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV