''Em Cuba, o papa irá ajudar no caminho rumo à democracia''. Entrevista com Tarcisio Bertone

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23 Março 2012

"Quando eu completei 75 anos, eu apresentei minha renúncia, e o papa me respondeu com uma carta convidando-me a continuar".

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no jornal La Stampa, 22-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Eu não acho que a visita do papa será instrumentalizada pelo governo cubano": ao contrário, ela ajudará no processo "rumo à democracia". Às vésperas da partida de Bento XVI para o México e Cuba, o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado, em entrevista ao La Stampa fala da viagem, dos ventos de guerra que sopram sobre o Irã, das relações entre a Santa Sé e a China.

Mas também responde sobre os recentes vazamentos de documentos, a colaboração com a magistratura de outros Estados em matéria de antilavagem de dinheiro e sobre a discutida intervenção vaticana para o resgate do Hospital San Raffaele de Milão.

Eis a entrevista.

O papa está prestes a partir para Cuba, país que o senhor já visitou pessoalmente. A atenção midiática se concentrará sobre o encontro com Fidel Castro. Qual é a situação da Igreja em Cuba?


Depois da visita de João Paulo II em 1998, com a famosa mensagem "Que Cuba se abra ao mundo, e o mundo se abra a Cuba", a situação da Igreja conheceu avanços rumo à liberdade religiosa e se fortaleceram o diálogo e a cooperação entre a Igreja e o Estado. Há uma possibilidade concreta de formar os candidatos para o sacerdócio. O problema da escola e das instituições eclesiásticas ainda deve ser enfrentada e resolvida, mas, depois de 14 anos e depois das visitas de diversos expoentes da Igreja Católica, não há dúvida de que a atual visita do Papa Bento XVI ajudará no processo de desenvolvimento rumo à democracia e abrirá novos espaços de presença e de atividade.

O senhor não teme que a visita de Bento XVI seja instrumentalizada pelo governo?

Não acredito que a visita será instrumentalizada pelo governo. Ao contrário, acredito que o governo e o povo cubanos farão o máximo esforço para acolher o papa e lhe manifestar a estima e a confiança que o chefe da Igreja Católica merece.

Alguns analistas falam da possibilidade de um ataque israelense contra as usinas do Irã para impedir a fabricação de armas nucleares. Qual é a sua posição sobre isso?

A posição da Santa Sé é que o caminho para resolver os problemas e os conflitos, mesmo os mais repletos de dificuldades, é o do diálogo e não da guerra. Lembremos as proféticas declarações dos pontífices do século XX: "Com a guerra, tudo pode ser perdido". A região do Oriente Médio já sofreu muito e continua sofrendo por causa dos diversos conflitos. Atualmente, estamos particularmente preocupados com a explosão da violência na Síria. Revela-se mais urgente do que nunca o empenho de todos em favor da paz e da reconciliação.

O ano que recém concluiu foi caracterizado pela "primavera árabe" e pela guerra na Líbia. Em ambos os casos, a voz da Santa Sé em nível internacional não pareceu ser significativa. É uma estratégia deliberada?

A Santa Sé acompanhou atentamente, e diria até capilarmente, todos os eventos mencionados e tudo o que se refere ao Oriente Médio. Houve significativas intervenções do papa em diversas circunstâncias. Agiu-se, tanto em nível bilateral, quanto em nível multilateral, através dos representantes pontifícios, que fizeram ouvir suas vozes. A Santa Sé nem sempre dá publicidade às suas intervenções, mas, em todos os pontos quentes do mundo, ela opera com discrição, tentando ajudar a resolver as dificuldades e recordando os princípios fundamentais da dignidade humana e do direito, mesmo que tal atividade nem sempre seja divulgada.

O Vaticano está levando adiante um diálogo importante com o governo do Vietnã. Na China, ao invés, as dificuldades persistem, e verificaram-se ordenações episcopais sem a aprovação do papa: como o senhor vê o futuro das relações com Pequim?

Os contatos com a China existem, e o diálogo não está rompido, mesmo que às vezes seja cansativo e em "corrente alternada". A comunidade católica da China vive, reza, ama o papa e a Igreja, e está intimamente ligada com a Igreja universal. Muitas instituições eclesiásticas ou católicas têm relações de alto valor cultural elevado com as instituições chinesas. Tudo isso só pode beneficiar as relações com Pequim. Olhando para os passos já dados, não se exclui, ao contrário, que se possa prever e se deva encorajar um encontro positivo entre a Igreja Católica, na sua missão pacífica e humanizante, e o grande povo chinês.

Por que Bento XVI não programou uma viagem à Ásia?

O papa pensou muitas vezes em uma viagem à Ásia e avaliou a possibilidade de ir aos países asiáticos, onde foi insistentemente convidado e que ama profundamente. Certamente, uma viagem à Ásia é cansativa, mas não está excluída a priori.

É um dado estatístico o aumento dos barretes cardinalícios italianos e uma composição do colégio dos purpurados que vê o predomínio do Norte do mundo. Como o senhor explica essa tendência contrária em comparação com o passado recente?

Acima de tudo, as estatísticas mostram um posicionamento equilibrada dos consistórios de Bento XVI, e não se pode exigir que em todo consistório se faça a alquimia entre o Norte e o Sul do mundo, entre o Oriente e o Ocidente. Há uma variedade de sedes episcopais cardinalícias que representam as Igrejas locais mais relevantes e significativas, mesmo com as suas problemáticas, e depois há cargos no governo central da Igreja que podem requerer o pertencimento mais a uma do que a outra nacionalidade.

O início de 2012 foi caracterizado pelo "Vatileaks", a publicação em alguns meios de comunicação de documentos confidenciais provenientes do Vaticano. A maioria dos observadores leram a operação como dirigida contra o senhor. O que o senhor acha?

Sim, alguns leram esses vazamentos de documentos como uma manobra contra mim, talvez para me deslegitimar diante do papa e diante da Igreja. Pessoalmente, não entendo essa repentina agressividade, já que eu não mudei o meu caráter, o espírito de fraternidade que me caracteriza como salesiano, apesar dos meus defeitos. Acima de tudo, não mudei no meu "bem-fazer" a todos, em rigorosa e devota fidelidade ao papa, que é a minha "estrela polar" e é o superior de todos.

É verdade que houve episódios de corrupção e de prevaricação no Vaticano, como alguns dos documentos publicados parecem sugerir?

Infelizmente, nenhum órgão pode garantir a devida honestidade por parte de todos os funcionários. Isso também vale para aqueles que trabalham aqui, mas em uma medida certamente inferior ao que foi enfatizado pela mídia.

O senhor, de acordo com o papa, promoveu uma mudança nas finanças vaticanas e, em particular, no IOR [o chamado Banco do Vaticano], para encerrar algumas experiências passadas e promover a transparência. No entanto, parecem surgir resistências a partir dos documentos publicados: o Vaticano pretende colaborar com os magistrados de outros países, mesmo com relação ao que aconteceu antes da entrada em vigor das novas normas antilavagem de dinheiro?

A premissa da sua pergunta poderia involuntariamente criar alguma confusão. Sei que a questão é complexa, mas as simplificações nem sempre ajudam a fazer justiça à verdade. A colaboração com as autoridades de outros países também existia antes da promulgação da lei antilavagem de dinheiro, assim como sempre houve vários níveis e âmbitos de cooperação. Tudo isso permite, também agora, que se colabore em nível internacional, mesmo no caso de pedidos provenientes dos magistrados, e também com referência ao que ocorreu antes da entrada em vigor das novas normas antilavagem de dinheiro.

Por que se tentou o resgate do San Raffaele?

No fim de maio e início de junho de 2011, a Santa Sé recebeu inúmeras solicitações, de personalidades do mundo econômico e administrativo, também de nível nacional, a respeito do seu interesse pelo resgate do hospital. Assim, estudou-se um procedimento de intervenção e, posteriormente, foram postas as premissas para uma ação financeira circunscrita e para a gestão financeira do San Raffaele.

O senhor não pensa que o Vaticano arriscou demais?

Na verdade, essa intervenção evitou que, naquele tempo, se declarasse falência e também solicitou que outras forças entrassem em campo. Ela assegurou a continuidade ao trabalho dos 4.000 empregados, ajudou as suas famílias e manteve constante o nível dos serviços assistenciais aos pacientes em tratamento. Tudo isso não teria ocorrido se, naquele momento, não tivéssemos intervindo. O papa foi informado da iniciativa, mas também da intenção de uma saída do IOR dentro de um determinado período a partir do início do procedimento judiciário de concordata. Os fatos posteriores são conhecidos.

Há quem defenda que, nos próximos meses, Bento XVI poderia aceitar a renúncia do senhor em razão do limite de idade. É verdade?

Quando eu completei 75 anos, eu apresentei a minha renúncia, e o papa me respondeu com uma carta de benévola confiança, convidando-me para continuar. Assim, vou regularmente em audiência com ele, para uma pontual informação sobre a vida da Igreja e para apresentar as questões que precisam da sua decisão. Servir o Santo Padre é sempre uma forte experiência de caridade pastoral, pois ele conduz a Igreja com límpido juízo e humilde firmeza. Obviamente, porém, o meu serviço continua ou se concluiu segundo a vontade e a decisão de Bento XVI.

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